22 de ago de 2014

Última quase ode


Poder ver novamente as estrelas fincadas no firmamento me faz crer:
Esta é a última quase ode ao amor que se foi.
Por ser profundo conhecedor da noite preta,
sei quando se aproxima a alvorada.
Por tanto pranto, por tanta ausência de ar, por tanta dor,
sei quando a cura parte de terras distantes para caminhar em minha direção.

Pudemos compartilhar nossas canções de amor,
ver o céu sem perder o equilíbrio, pois o abraço nos mantinha firmes.
Pudemos acreditar que o mundo é um pouco gentil,
que viver não é apenas sobreviver às horas mortas.
Por um instante, havia eternidade e conforto e possibilidade.
Havia felicidade.

Foi como uma bela canção interrompida,
o fim.
Uma bela canção interrompida naquela melhor parte,
naqueles versos que são os primeiros a gravarmos na memória.

Eu enxergo o acúmulo de dores.
Entendo como a vida é capaz de penetrar suas mãos sujas dentro da nossa alma só para arrancar nossas esperanças.
Eu enxergo, até o invisível.
Eu ouço, até o indizível.

Eu senti seu amor se despedir, lentamente.
Foi se desconstruindo, se fragmentando, se diluindo... 
junto dos dias de angústia,
das semanas secas e cinzas, 
do vazio.

As palavras, sempre no passado, comprovavam minhas previsões doloridas.
As lágrimas que escorreram sem que eu me preocupasse em secá-las
- pois após elas viriam mais outras -
comprovavam a profundidade das raízes do sentimento

Não falam muito sobre o que acontece após os fins,
Após passarem furacões ou a terra ser rasgada por terremotos.
Falamos tanto mais das perdas, das dores, do insubstituível.
Quase não se ouve sobre as romarias,
sobre os fios de esperança que escorrem dos escombros,
dos lampejos de fé que brotam da tragédia.

O adeus existe como uma dor íntima,
mas já parece menos horrível.
Precisa parecer.
Ele finge ser uma pintura triste pregada na parede.

Conviver com a memória do perfeito que se foi
é tão intenso quando conviver com a memória das assombrações
que nunca partem completamente.
Mas em um dia, ou em uma noite, a memória do perfeito traz um sorriso
que se dissipa na brisa.
Traz um afago, e não mais um aperto.
Uma recordação,e não mais uma fonte de tortura.
É a aceitação. Um dia ela tem de vir.



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