18 de dez de 2015

Não, nunca mais


Abandonaram-me os fantasmas que justificariam os fracassos.
Pálidos como a desesperança e silenciosos como lágrimas nunca vistas,
Despedem-se.

Nem a luz, nem a sombra ambicionam esta alma
Cujo sabor foi consumido a última gota.
Uma casca estéril que o vento leva para não longe.

Memórias permanecem, mas não por vontade.
Como tantas outras coisas, aqui residem por falta de opção.
O que resta dos suculentos sonhos de outrora é a realidade insípida.

As demais vidas seguem em busca de fulgores e futilidades.
E eu estou parado na chuva, de olhos fechados, coração ferido;
Com os pés enraizando numa terra lúgubre que não amo.

Sinto saudade da ânsia por desatinos,
Saudade da estrada quase infinita,
Que tinha ao fim algo incrivelmente precioso.

E lembro daquele céu azul que encobriu inocentes ilusões...
Apenas tua alegria tirava do meu olhar o foco no desalento,
Banhando-o numa luz suave de expectativas jamais verdadeiras.

Não, nunca mais a velha claridade.
Nunca mais o espírito numa valsa meiga com a felicidade.
Apenas um coração que pulsa, pulsa, pulsa e nada sente.

16 de dez de 2015

Belo cárcere


Há essa algema ancestral,
Talvez criada junto da alma,
Ainda no útero de Deus,
Prendendo eternamente a disforme criatura,
Ao que de Belo seus olhos acalentam.

E toda perturbação da Beleza,
É um florete adentrando lentamente o âmago,
Constantemente, delicadamente, sem misericórdia.
Uma imensa agulha perfurando o coração apodrecido,
Preenchendo-o de uma vida já desconhecida.

Era por isso o escorrer das duas lágrimas pesadas,
Ao observar pequenas estrelas embaçadas
Num céu de negrume profundo.
Até o amor morre, maior ou menor, cedo ou tarde,
Mas a dor causada pela sua tão singular beleza ainda reluz, insistente.

A nada iludem ou servem palavras.
São pedidos de socorro em mar aberto,
São louvações a ouvidos surdos.
Mas elas insistem em jorrar, como uma fonte no deserto,
Sem quem jamais alguém prove do sabor real das suas águas.

9 de dez de 2015

Discreta loucura


Seria o ponto mais absoluto da insanidade
Esta aparente calmaria instalada em meus olhos,
Nervos e dedos,
Ou, depois do peito dizimado,
Queimado à ferro em vermelho vivo,
E resfriado por um sangue quase morto de tão gélido,
O que resta é uma discreta e inofensiva loucura,
Frouxa e fraca,
De características tão semelhantes
Com a patética e insípida vida já bem conhecida?

O que nasceu com o fim?

Há um pântano escuro sempre tão revisitado.
Talvez algo ainda floresça em tão inóspito lugar.
Eu sei que é estúpido... Mas nem toda fé está morta.
Há um velho e grande campo dourado,
Uma oficina mágica de sonhos irrealizáveis.
E banhado da luz âmbar do poente,
Entre gentis ilusões quase inofensivas,
Eu danço com o que resta de imaculado:
Eu danço com minha loucura; distantes de todo olhar.
Continuamos a nos amar com um amor que jamais diz adeus.






6 de dez de 2015

Não mais



Estariam certos os cientistas ou os magos?
Saberiam da verdade os poetas ou os lúcidos?
Sem entender, todos os dias olhei para o mesmo céu,
Esperando a repetição do milagre, da ilusão.

Minha alma se alimentou do amor nunca antes conhecido.
Uma luz inigualável, magnânima.
Minha alma serviu de alimento para uma indiferença voraz.
Uma escuridão plena, silenciosa.

Mas é finda a majestosa obsessão.
A esperança voou pela mesma janela
Por onde um dia adentrou.
Parte, enfim, o que foi chamado de amor.

Só olho mais uma vez na velha direção
Para dizer ao eco surdo da noite
Que cumpri minha promessa.
Ainda estou vivo.

Só olho mais uma vez na velha direção,
Enquanto danço sozinho,
Para dizer, por minha vez, à minha paixão pela dor:
‘Eu não posso mais!’