26 de set de 2015

Não há silêncio no coração


Não, a culpa não é sua.
Também não seria minha,
Seria?

O que saciará o peito que urra de fome?
O coração que canta noite e dia
Melodias por ninguém ouvidas?

O único instante de silêncio
É o instante das lágrimas...
É o espírito transbordando,

Livrando por um segundo
O velho e esquecido peito
Da constante pressão.

Mas o que é este peito além de um navio naufragado?
Cujas almas perdidas relembram passados tempos de glória?
Pensam aqui haver silêncio, mas ouço o gemido das águas...

Um canto triste, como o canto do cansado músculo vermelho;
Também este repousado onde ninguém se atreve procurar.
Não há silêncio no coração,

Ainda que os lábios sorriam e cantem,
Ainda que a poesia esteja a caminhar ao lado...
O peito não adormece.

23 de set de 2015

Ao nobre


Recolha a imensidade do teu brilho se um dia se aproximar.
Vê estes olhos chamuscados?
Olhos pálidos, olhos lassos?
Estes foram os fãs fiéis de uma luz transitória;
Um cometa que subiu o céu, o único.
Sim, aquela estrela ascendente.

Que seja dócil tua luminosidade,
Meu caro nobre sentimento,
Pois encontrará um peito aberto sem piedade,
Exposto a sóis e chuvas; cansado,
Mas ainda tão vermelho, tão vivo.

Vê a primavera?
Fiel em sua sina de ser bela?
Mesmo contra a indiferença e a aridez do tempo,
Das pessoas...
Sê como ela, gentil, sem saltos e sustos,
Apenas cores meigas numa estrada cansada de tanto passado.

22 de set de 2015

Face



Quero de volta as cartas em letra de mão,
A memória tangível,
Indolor e cheia de carinho.

Faces vêm e vão...
Em vão...
Sem tocar, sem ficar.

Tantos rostos frios,
Transitórios como a felicidade,
Tantos adeuses não ditos.

Não ditos, malditos,
Porque não há do que despedir:
Nada existe, nada existiu.

Apenas movimentos mecânicos e silenciosos,
Como um desabrochar, um nascer de sol,
Uma chuva de verão.

Quero de volta os apertos de mão,
Os sorriso nos olhos,
O coração à disposição.

19 de set de 2015

Luz sem brilho


Lentamente o sol surgirá por trás da nuvem negra que encobre o que já foi um sonho.
Você permanece lá, em algum lugar, como se fosse real;
Como um milagre presenciado apenas uma vez.

Desperta agora junto da velha claridade de brilho opaco,
Luta pelo que todos os demais também lutam.
Logo você, o único.

 Acaricio a pequena dor que ainda resta,
O que de maior havia o silencio já matou.
O que de sagrado havia o vento já levou.

E eu finjo não notar o sutil sopro de esperanças suaves.
Como o sol que continua a nascer, belo ou frio,
Há vida que se aproxima, mas não espero por ela.

As palavras escoam agora, sem grande vazão.
A vida plena cede lugar a uma paz pálida.
Enfim, se aproxima o fim.

E é calmo, brando, meigo,
Como já fora certo inicio.
O fim se aproxima, pois o coração volta a apenas pulsar.

Arte


A arte vem desses corações feridos, felizes, decompostos recompostos.
A arte é um pedido de socorro, mas uma mão estendida à ajuda.
A arte é essa lágrima silenciosa que cai sem que nem os anjos vejam; uma dor refinada, intraduzível.
A arte é uma alegria que não cabe no peito, e atravessa tempos, ares e cores e se mistura a outros tempos e ares e cores.
A arte é uma oração emitida pelo coração para alcançar outros corações.
A arte segura os fantasmas para que não partam e a arte exorciza demônios.
A arte é como o amor, que dói mais que tudo, mas que não se pode viver sem.
E se tantas vezes é ingrata, é porque é feita de puro amor, e o amor não espera recompensa.
A arte é algo que nunca será explicado.

15 de set de 2015

Eu lembro


Ainda...
Como as reminiscências de sonhos
Logo após o despertar.
Aquela nebulosidade mental
De quem de uma vida salta para outra brutalmente.

É fria a manhã
E há esta ausência permanente,
Como um membro decepado,
Mas que ainda se sente doer.

Bem fez você em esquecer.
A vida precisa seguir sem fantasmas,
Famintos e ignóbeis, presos aos calcanhares.
Mas eu lembro.

Eu lembro com a alma,
Não com a memória.
No espírito ficou um aroma de sonho,
Um perfume suave e único, nunca mais sentido.

Como o da rua repleta de jasmins,
Onde todos passavam apressados,
E eu flutuava,
Numa tarde quente e amarela de inverno.

Eu lembro ainda hoje,
- Graças, oh meu Deus -
Sem aquela dor que abria meu peito à machadadas.
Se faz uma dor mais dócil,
Como ver um jardim sucumbir sem seu jardineiro.

Um jardim entregue às pragas
Ao sol inclemente que o mata.
Eu lembro...
E sorrio tristemente.


13 de set de 2015

Redenção


Ele não temia o inferno,
Mas temia Deus.
Ao inferno nada devia,
Mas Deus, olhando-o com olhar de decepção,
Seria dor demais.

O Coração, bravo e tolo, o defendia:
"Fui eu, fui eu! A mim que ele seguiu,
Mesmo sem saber o que fazia,
Se acertava ou errava!
Perdoe-o, fui eu!"

Mas Deus apenas sorri dessas ironias todas...
Sabendo-nos crianças perdidas numa terra de labirintos,
É clemente às nossas falhas tantas.
Também... O que fazer com esse bando de perdidos,
Além de ter misericórdia?

10 de set de 2015

Entrecorpos


Partículas venenosas de memória
Ainda infectam as células saudáveis
Do espírito empobrecido.

Não teria sido fatal seu caridoso tiro de misericórdia?
Ainda resta sonho e vida, bradando e rangendo,
No subsolo da alma?

Eu perdoo sua agora morta paixão,
Mas meu corpo, não.
Ele acreditou ser amado.

Ele ainda geme, ainda treme,
Perpetuando a sensação de um inverno inclemente,
Enquanto se faz cego às reais luminosidades.

Este corpo ainda verte lágrimas ácidas
Perante aquelas estrelas imóveis.
Quase tão imóveis quanto teu coração...

Teu coração...
Cuja música nunca mais será ouvida.
O coração onde nunca habitei.

2 de set de 2015

Pequenos meninos


Adormeçam agora, meus pequenos meninos feridos.
Adormeçam nos braços do futuro incerto.
Tão bravos todos vocês, lutando contra monstros imaginários,
Por anjos indiferentes.

Adormeçam agora, pequenos sonhos desperdiçados.
É setembro, as orquídeas se abrem em silêncio,
A primavera se aproxima.
E eu perdoo todas suas tolices.

Adormeçam... e já não chorem assim,
Como se suas mãozinhas tivessem sido torturadas.
Limpem os olhos, acendam a pequena árvore de luzes coloridas.
A madrugada ainda é tão escura e mágica.

Descansem, meus pequenos meninos corajosos.
Ainda há tanto mundo adiante, tanto mundo...
E eu não posso mais ir sozinho, tão sozinho.
Depois despertem, sonhos pequeninos, e sorriam novamente para mim.

1 de set de 2015

Não


Não depois de você. Não depois de tanto. Não depois de tudo...
Foi muito...
Em tão poucos dias.
Um lago, um par de alianças de prata, um olhar tão verdadeiro
Quanto passageiro.
Não.

Sem mais teorias magníficas.
Sem mais a súplica por uma palavra que jamais chega;
Palavras distantes, tão gentis quanto falsas.
Não foi só outro coração esmigalhado,
Outra esperança deixara ao sol de agosto
Para que morresse lenta e dolorosamente.

Foi o amor, entende?
O amor em cada célula do sangue;
Um vírus incurável, imperceptível,
Viajando por todo pensamento e sonho,
Aniquilando todo brilho, toda vida.
Foi o amor, entende? Não.

Não entende...
Agradeça aos céus por não entender, por nada sentir.
No seu peito apenas residiu paixão.
Intensa, fugaz, transitória,
Facilmente substituível.
Aqueles quinhentos quilômetros são nada,
Comparados à indiferença infinita.

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"Tempos Inversos" é meu sétimo livro de poemas; resultado de um ano de escrita, aprimoramento e vivência das mais diversas sensações. O sucessor de "Ex-voto" traz ainda certo convívio com o cenário árido encontrado após o término de um grande sonho. Mas o que os poemas do livro tentam transmitir não é a dor de uma perda ou o brilho esfuziante de novas paixões, mas a claridade sutil que a esperança emana através de todas as coisas. Em uma alegoria, pode-se ver o eu-lírico destas páginas como um viajante que antes repousava em verdes prados, e hoje procura por relíquias em terra desertificada. O tempo já não carece de fazer sentido. Ele não segue a ordem lógica de correr para frente, deixando o passado para trás... O tempo são as areias abaixo dos pés, por onde o viajor caminha, muitas vezes, sem rumo. Ele não é amigo nem inimigo, apenas uma companhia que não segue ritmo coerente, como os próprios passos cansados sobre a terra inexplorada.