12 de dez de 2017

Fênix


Por vezes, dentre tantas dores e descaminhos,
Restava uma nuance de esperança nos trilhos da vida.
Uma miragem bonita no horizonte,
Como aqueles pedaços de arco-íris
Que resistem alguns instantes suspensos no céu
Antes da volta permanente do sol.

Um segundo sem desespero
Nesse mar repleto de náufragos...

Dos mesmos olhos despidos de ilusão
Escorriam lágrimas quase impeceptíveis
Ao pensar numa esperança tão vaga,
Tão etérea e distante...
Mas presente, ali...
Fazendo-se existir.

Uma pequena bela angústia
Brotando dos dedos sujos e cansados de revolver o solo duro da fé.

E todas as partes arrancadas e murchando no solo quente,
Brotarão novamente, florescerão novamente.
Não poderão aprisionar nosso espírito,
Como não se aprisiona as cores de uma delicada flor.
É bem pouco esse contentamento descontente, eu sei,
Mas somos mais fortes e encantadores do que nos vemos.

Estão nos tornando cinzas;
Mas somos fênix...

2 de dez de 2017

Tempo inverso


Se por uma vez apenas o tempo esquecesse a própria crueldade
E se dobrasse, adormecido e cansado sobre si mesmo,
Talvez não navegássemos mais nesse oceano de sonhos partidos
Onde sempre chove e trovoa,
E aportaríamos naqueles instantes em que mais do que felizes,
Éramos livres.

Todas essas estúpidas imagens e essas estúpidas vitórias
Encobriram de chumbo nosso delicado espírito.
Toda essa ânsia, essa fome, esse desejo...
Nossa angelitude agonizando nas mãos da ambição.
Nossa saudade se alimentando lentamente de cada memória.
Não seremos aqui outra vez apenas um canção...

Tudo não passa de uma convincente ilusão,
Ciscos, irrelevâncias na eternidade.
Mas pagaremos por todos nossos pecados,
Um a um,
Até não haver mais pelo que errar,
Então despertaremos.

26 de nov de 2017

Vem não


Eles falam de regar o jardim, cuidar da floração
Que as borboletas vem.
Vem não!
Vem não que a mão já está cheia de calo,
O coração cheio de espinho,
A alma queimada do sol a pino,
E vem não.
O tanto de flor que nasce e morre nesse sertão,
E elas passam longe, as esperanças, as borboletas,
Passam longe.
Eu aceno, ajeito a roupa, ensaio um sorrio de carto de boca,
Mas nada vem, não.
Não espero mais, não,
Nem disfarço que essa minha fé é minguada
Como a força do pobre sem refeição.
Cansei.
Cansei dos demônios e dos santos com a sua salvação;
Cansei da beleza, da arte, da redenção;
Cansei do seu amor a conta gotas,
Do seu afeto racionado,
Do meu orgulho.
À merda essas flores sem perfume!
Esse silêncio falso, abafado.
Nada virá, não.
Mas ir, tudo vai que é uma beleza.
Cansei.
Não quero mais o seu perdão,
A santa remissão dos meus pecados,
A sagrada comunhão.
Cansei, quero mais não.
Como posso dizer de uma maneira educada
Vá às putas que pariram?
Assim tu aprende a ser forte, a ser honesto,
Vai que...
Porque essa vidinha branca de comercial de margarina
Também não cabe pra mim, não.
Essa hora certa pra dizer sim, pra dizer não.
Deixe ao menos a porra da minha dor ser livre do seu sistema podre!
Cansei.
Quero mais deitar sementes à terra, não.
Cultivar, regar, acariciar, esperar.
Não, posso mais não.
Porque a boca fechada esconde um grito que me estripa por dentro.
Mas ninguém vê, não.
Amanhã começa de novo, o lento rastejar das cobras;
Reis, rainhas e peões nos seus devidos lugares;
Ai! Ai de quem tentar cruzar a linha!
Ai de quem não fingir sanidade.
Cansei, não semeio mais.
Cansei, posso mais não.



25 de nov de 2017

Lindas aberrações


Volto às palavras como um cachorro vadio
Volta ao chão sujo do boteco
Onde mesmo pisado e enxotado
Tantas e tantas vezes
Se sente realmente em casa.

Também sou uma dessas criaturas renegadas,
Que se arrastam pelas margens úmidas, sem alarde.
Que muitas vezes conseguem ver a beleza no caos.
E preciso que saiba que o meu e o seu perdão já são sem valor,
Só precisamos de um pouco de atenção para nossos sentimentos agora.

Eles falam dos fim dos tempos mais uma vez...
Como falavam antes desses tempos de agora.
O mundo nunca teve jeito mesmo...
Mas Deus não vai dizimar esse canto nada especial
Repleto de lindas aberrações. Durma em paz.

E todas essas nossas tentativas, tantas tentativas,
Devem contar para alguma coisa
Quando o Manto de Maria finalmente nos cobrir com o sono da morte.
Em toda minha asquerosidade e insignificância eu aprendi:
O melhor caminho, o único caminho que nos resta, ainda é o amor.

23 de nov de 2017

27/11


"Toda destruição gera a criação",
Ela dizia.
E meu esforço era encontrar sentido
Em mais uma crueldade que a vida oferecia
Com ares de lição.
Há esses dias em que o peito cansado não entoa seus cânticos,
Suas súplicas;
E a memória exausta repousa como uma menina dócil
Após uma tarde toda de travessuras.

Ainda sinto saudade...
Mais que isso: ainda sinto amor.

Feito fosse um Neruda,
Nada em mim é extinto ou apagado.
O absoluto e quase impenetrável silêncio do peito
Não é sua sepultura como de fato parece ser.
Ainda estamos tão vivos!
O espírito, o sonho, a palavra.
Os sentimentos são livres,
E livres vão para tão além de mim.
Mas certo dia voltam,
E o peito os recebe aberto e em festa,
Nem se importando com o vazio que tanto o feriu
E que logo voltará a ferir.

4 de nov de 2017

Eppure sentire


Ainda são aqueles mesmos céus de cobalto.
Ainda buscamos o alto esperando que as cores chovam,
Esperando que as saudades se dissolvam,
Que o pranto sorria de lábios amargos no final.

Mas é longa e silenciosa a inquebrável distância.
Do velho lar, ruínas jazen
Como miragens só tocadas na memória.
Tanto tempo... e ainda un senso di te.

Se ao menos a chuva caísse poderosa mais uma vez
E devolvesse o secular brilho das estrelas calmas
E a canção fosse esquecida finalmente,
Adormecendo a vontade, adornando a claridade...

São apenas pequenos e gentis sonhos,
Pontiagudas e reluzentes esperanças,
Nunca mais revividas outras vez, nunca mais.
E mesmo com tudo... mi sento ancora.

31 de out de 2017

Terra rica


A palavra é esse par de asas frágil, fraco.
E esses centímetros que me coloca acima do solo,
Nem é um voo,
Mas só uma pequena rebeldia, uma inconformidade.

E tem horas que a alma é essa terra rica, fértil,
Em que se semeada, tudo floresce;
Mas tem horas que é chão tão agreste, tão quente,
Onde a vida só com muita teimosia e dificuldade vai pra cima.

O pequeno poeta disse pra que eu não confundisse
Saudade com vontade,
Mas não explicou a diferença.
E eu ainda penso que vontade é só uma saudade do futuro...

Eu sinto muito, sinto tanto, por agora e por depois,
Mas acho que está ficando tarde pros poemas de amor.
Mesmo o céu estando tão bonito como naqueles tempos
Mesmo o coração permanecendo aberto, como sempre esteve.

28 de out de 2017

28/10


Todos aqueles momentos que pareciam um sonho, 
Eram mesmo.
Na manhã seguinte havia a algazarra dos pássaros 
E uma luz forte demais entrando pela janela.
Vivemos feito ilusionistas,
Fazendo pequenos truques com a vida
Para que ela se pareça mágica. 
Mas a sobriedade me assusta.
As pontuações perfeitas, os olhares firmes demais, as certezas.
Não houve em mim nada além de uma esperança gentil que sabia a hora de me dar trégua. 
Lá vai ela de novo, a esperança. 
Faz um drama... como se nunca fosse voltar.
Mas eu sei porque chora. 
Não são mesmos os braços a recebê-la.
É a vida, minha querida.
Se a gente aguentasse, sorriria outra vez como a primeira vez.
Mas tudo já é outro...
Até o silêncio.
Você ouve?

27 de out de 2017

28/10



Mais dia, menos dia,
Vamos cansar dessa necessidade
De sermos manequins vazios por dentro,
Reluzentes por fora,
Tentando acertar a posição perfeita
Para chamar atenção,
Para convencer e vender nossa imagem.

De que serve esse caminho tão longo
Com pequenas paradas em espeluncas sujas,
Habitadas por palhaços malignos
E varridas por ventos quentes do norte?
Estamos em um círculo,
Não consegue ver?
Correndo loucamente para o nada outra vez...

Mas não longe daqui eu flutuava entre orações fervorosas
E perfumes de cinquentenárias árvores à beira da estrada.
A velha esperança muda de forma a cada estação.
Já não aponta qualquer caminho,
Apenas diz: vá. E eu vou.
Pois já é claro não haver o destino,
Apenas o infinito caminho.


18 de out de 2017

18/10


As palavras que restavam jorrando de uma fonte quase seca e já esquecida não traçam um caminho de encontro, mas de fuga.
Poemas rasos e belezas pueris nutrem as raízes dos dias apenas o suficiente para que não desmoronem.
Passamos a ocultar de nós mesmos nossas singelas esperanças, quase envergonhados de desejar uma interrupção, uma trégua no pastoso funcionamento dessa máquina ruidosa e fétida que nos devora aos poucos.
Veja lá fora todas essas peças pré-fabricadas, semi-idênticas, estéreis, passivas, insossas. Todos nós. Fiéis para com a sina de não causar alarde, não falar muito alto, criar desconforto, estourar uma revolução definitiva.
Novos tempos antiquíssimos esses nossos.
Entendo que você não acredite que o homem foi à lua, mas acredite em uma Nova Ordem Mundial prestes a dominar o planeta. Entendo até os puros que tentam nos dobrar através do medo, adoçando o caos com raquíticas boas promessas de tempos menos crepusculares. Eu também durmo às vezes na minha cama de contradições. O que não entendo são essas batalhas explicitamente inúteis, obscenas, que nunca terão um vencedor. A fome e a sede. A saudade e a ignorância. Até Deus penso que entendo certo tanto. O que não entendo é o homem.

17 de out de 2017

17/10


Desses farelos de beleza e esperança vamos nos nutrindo.
Vamos cuidando da manutenção dos músculos e da sanidade para dar cabo de cada dia após dia.
Os poemas sem destinatário vão para as gavetas da memória, até sumirem, dissolverem;
Os sonhos meninos de outrora parecem precocemente enrugados, com sorriso esguio de quem não quer assumir o cansaço. 
Hoje mesmo eu ainda disse: a gente é tanto pra só isso aqui!
E eu realmente acho a gente muito. Acho a gente grande demais. Mas temos que nos podar para os galhos não florescerem muito fora da caixa. Temos?
Elas sempre cantam que é sempre mais escuro antes da luz chegar.
Até gosto do escuro... aprendi a desviar dos possíveis monstros na sombra. A luz tem assustado. Cumprido seu papel de reveladora. Sei que não é ela o perigo, mas o que está por baixo dos véus que ela queima.
Eu fui à pique com aquele navio. Eu não me rendi. E o mundo abaixo da água era calmo e solitário. Você não estava lá e eu parei de ter alguns tipos de fé. Mas tudo bem nada estar completamente bem.
Porque eu insisto em dizer o que não faria falta em não ser dito é que ainda é um mistério. Todo resto me parece bem claro e óbvio.
Depois de vinte e seis anos o rio que separava o passado do futuro não parecia mais mágico. Parecia só água, água e nada mais. Sem os medos e expectativas, porque em algum momento a vida só vai indo com a gente sabe-se lá pra onde. Confesso que senti saudade do que não fui. Uma saudade que agora que começou parece que nunca mais vai acabar.

16 de out de 2017

Belo


Estamos nos construindo e reconstruindo
Com pequenos passos além da linha proibida
Com versos rasos e delicados
Com esperanças que quase nunca
Duram após o nascer do sol

Mas nesses corações danificados
Brilham bilhões de galáxias
E se não somos Deuses
Não sei o que mais podemos ser

Nem sempre eles vão entender o rio em seus olhos
Nem sempre estarão ali para atender sua ligação
Mas ainda podemos sonhar que um dia
Estaremos totalmente seguros contemplando as estrelas

Uma vez mais iremos mergulhar as sementes na terra
Esperando o milagre do Belo surgir e nos aquecer
Porque nossos corações são constituídos de amor
E ele se regenera mesmo enquanto sangra...

11 de out de 2017

Bons velhos tempos


Ninguém virá nos dizer que estes são nossos melhores dias.
Sempre jogam a esperança adiante demais,
Adiante onde nunca podemos de fato alcançar.
Ninguém veio nos dizer que aqueles eram nossos melhores dias.
O céu já pareceu brilhar com mais estrelas, eu sei
E você sabe, você estava lá.
Talvez depois que cruzarmos aquela grande ponte,
Alguma claridade refaça sua morada no meu cansado coração.
Eu quero ser bem sincero agora
Porque ainda somos aqueles meninos que corriam atrás de nuvens,
Ainda buscamos nossa Terra do Nunca,
Onde os sonhos não envelhecem,
Onde nós não curvamos nossos ombros de medo e cansaço.
Os anos passaram a conta gotas,
Mas já foram tantos anos...
Você diz não sentir nenhuma saudade,
Você diz que encontrou seu lugar no mundo,
Você diz que chegou ao topo,
E eu adotei um gato preguiçoso
E continuo uma folha amarelada flutuando no vento da tarde.
Deus, eu queria que os véus caísses, todos eles.
Que você, que eu, pudéssemos ver todas as cores desse espírito.
O que repousa tão quieto e tão fundo na carne?
Ninguém se importa, mas ainda há emoção o bastante,
Beleza o bastante,
Amor o bastante...
Por isso eu digo
Que hoje estamos vivendo nossos velhos bons tempos.

10 de out de 2017

Retirante


Toda poesia virou retirante desse sertão.
Partiu sedenta e maltrapilha pelas veredas da vida em distopia,
Cambaleante, sôfrega,
Já sem força e vontade de olhar para trás.
O azul reluzente do céu, as cantigas que faziam sorrir;
Já nem sabe se tudo foi miragem ou se o correr faminto do dias
Tirou foi a verdade de tudo.

Da boca dos noticiantes escorre sangue e esgoto.
Chorume tóxico da liberdade, da beleza e do amor em decomposição.
E se a poesia segue rumo ao litoral, rumo ao mar sem fim,
Te asseguro que nem é por fé,
É pelo sonho duro de morrer, a maldição que corre no seu sangre.
Há sempre um "e se" que a faz colocar um passo diante do outro...
Depois mais outro.

Os tolos é que são felizes, bem sabemos.
De olhos vendados parecem nem sentir sua carne
Sendo fatiada e devorada por vampiros e facínoras.
Com a chegada da luz, os demônios tem ensandecido,
Bradam vorazes, decretam, aniquilam,
Destroem tudo o que suas mãos pestilentas alcançam.
E nós, nós estamos fartos, cansados; já não podemos mais.

O caminho adiante é agreste e de se perder de vista.
Alguns vão meio acompanhados nessa sina,
A sina severina de todo homem,
Outros vão meio sozinhos, rezando baixinho por clemência,
Clemência que parece que se perdeu nessas lonjuras,
Por onde só um fio de esperança ainda ousa passar.

1 de out de 2017

01/10


Aos poucos, também a saudade, até ela, vai se dissolvendo e se perdendo por entre os dedos.
A aridez dos dias torna quase impossível a conservação daquelas delicadas relíquias.
A poesia sempre foi a responsável por documentar a passagem dos dias, das estações, dos sentimentos, o que sempre cumpriu com boa vontade e pouca destreza.
São tempos estranhos, já o disse.
A chegada das Luzes antes de ser pacífica e delicada, tem sido severa; o que adormece nas sombras desperta a todo momento violentamente.
Mas aqueles velhos dias não eram mais valiosos que estes, não.
É que com olhos mais jovens é mais fácil ser tolo, e os tolos é que são felizes.
A gente aqui já não sabe se teme a própria fraqueza ou a própria capacidade, se teme viver numa atmosfera de sonho ou aceitar que já não se enxerga mais nada além do estritamente real.
O coração ainda pulsa forte, a alma reponde aos reflexos, mas algo me diz que esse excesso de lucidez ainda vai nos levar à loucura...

18 de set de 2017

18/09


Em algumas tardes eu ainda enviava mensagens ao universo na vaga esperança de que, viajando por um fluído cósmico que conecta todas as coisas, aqueles velhos e bons sentimentos adentrassem no seu morno coração.
Naqueles dias o paraíso era um lugar na Terra. E estivessem nossos pés sobre as areias humildes do meu lugar onde nada nunca acontece ou sobre as suntuosas passarelas sobre a sua arrogante cidade, havia a mesma fé e a mesma esperança em um tolo e tão frágil amor.
Você me deixaria acreditar que aqueles nossos jovens eus ainda dançam e cantam nossas queridas canções em um lugar que o tempo não irá levar; que lá para sempre poderei encontrar o anjo de olhos celestes e sorriso meigo pensando em formas de tornar o mundo mais belo?
Eu sei que não...
Tudo o que havia para ser deixado, já o foi.
O que resta é o mesmo adeus e a mesma derrota girando em um vórtice inquebrável.
Ainda ecoam as últimas palavras e a primeira oração junto daquela mesma sensação de queda livre sem nunca atingir o chão.
Ainda não desistiu da vida aquele sentimento único e falho... prostrado aos pés de um anjo frio que nunca mais olhou para baixo.

8 de set de 2017

Suave desespero


Ainda tínhamos o espírito jovem o suficiente para pequenas esperanças infundadas.
Ainda havia algum otimismo escondido nas entrelinhas dos nossos versos e sorrisos entristecidos.
Em um instante éramos tão pouco, perto de nada, e no outro estávamos tocando a face de Deus e éramos aquele próprio Deus também.
Vê?
Em algum momento precisaríamos mesmo fingir que nada fazia muita falta, que todas as memórias mais cintilantes foram para algum canto escuro da prateleira, mesmo quando tudo estava tão vivo, tão aqui.
Espero poder levar outras vezes alguma mão ao meu coração quando ele estiver em chamas.
Você me relembrava minha divindade...
Havia algo de santo, não de mau, naquele suave desespero. Mas em se tratando de nós, a Terra parecia plana e infinita, poderia haver sempre mais distância à acrescentar às distâncias.
Aos poucos todas as preciosas ilusões vão perdendo seu valor.
Tudo é tão relativo...
No fundo havia algo mais valioso e imperecível.
No fundo, nunca foi sobre encontrar você,
Foi sobre me encontrar.

31 de ago de 2017

Assombrações de Agosto

Os últimos ventos da última tarde de agosto varreram as ruas sonolentas, empoeiradas. Levaram pro horizonte uma plúmbea cortina morna, deixando a cidade brilhante à luz do sol prestes a ser poente.
Era dessas cada vez mais raras tardes que se fazem saudade e poesia. Uma saudade às avessas, do futuro, inconstante demais para ser esperança. E a poesia é órfã, sem colo e destino, jorrando poucas palavras feito chamas peito acima, que logo mergulham eternamente num frio mar de esquecimento...

30 de ago de 2017

30/08



Abríamos nossas almas e corações ávidos e ansiosos, como se fossem bonitas caixas de presentes, e o que encontrávamos, oferecíamos... Que tempos aqueles em que éramos jovens o bastante para acreditar que o amor não adoece com os mais variados tipos de distância.
Um dia as memórias também serão levadas? Levadas como o aroma sutil demais das adoecidas orquídeas, lavadas como os telhados velhos cobertos da fuligem de sonhos aos poucos incinerados... 
Em alguns dias as ruas voltam a ser desertas, o mundo volta a não dar voltas e eu tento lembrar das palavras daquela canção proibida. Em alguns dias há uma certa batalha para não sentir o gosto daquele amor pelo que restou, porque o que restou foi a dor.
Parece não haver mais a quem abrir as caixas de presentes... Faz muito calor para aquele sueter levemente perfumado, para o cachecol branco, para sorrir aos ipês amarelos.
Faz muito silêncio para continuar atuando no teatro da esperança.
Já faz tanto... tanto tempo.

27 de ago de 2017

Fim de agosto


São as florações brancas dos ipês que anunciam o fim de agosto.
Todas essas pequenas tragédias que vamos superando, todas essas pequenas alegrias que vamos vivendo e esquecendo, todas as palavras que continuam jorrando de uma fonte imaculada... Há um propósito.
Ninguém se aproxima e nós não iremos mais nos cansar tentando fazer sentindo, tentando não nos chocarmos com as paredes do molde.
De alguma forma nós estamos amando, em silêncio, solitários.
Insistindo, insistindo, caindo, se ferindo, resistindo.
Eles dirão que nosso melhor é o que não podemos alcançar, eu digo que já estamos prontos para voar. Nada nos segura além da paixão dos nossos pés pelo chão, como raízes e solo.
Não é preciso que me diga como os cortes doem, como é triste extirpar os galhos ainda repletos de flor numa manhã de domingo, mas é preciso, é preciso.
Ainda que um tanto atrapalhada, aquela velha voz interna é uma das poucas verdadeiras amigas, aquela que nunca irá partir.
Tudo bem gastarmos nosso tempo com memórias e com sonhos...
Eu sinto que para alguém o mundo é mais bonito porque nós existimos.