18 de out de 2017

18/10


As palavras que restavam jorrando de uma fonte quase seca e já esquecida não traçam um caminho de encontro, mas de fuga.
Poemas rasos e belezas pueris nutrem as raízes dos dias apenas o suficiente para que não desmoronem.
Passamos a ocultar de nós mesmos nossas singelas esperanças, quase envergonhados de desejar uma interrupção, uma trégua no pastoso funcionamento dessa máquina ruidosa e fétida que nos devora aos poucos.
Veja lá fora todas essas peças pré-fabricadas, semi-idênticas, estéreis, passivas, insossas. Todos nós. Fiéis para com a sina de não causar alarde, não falar muito alto, criar desconforto, estourar uma revolução definitiva.
Novos tempos antiquíssimos esses nossos.
Entendo que você não acredite que o homem foi à lua, mas acredite em uma Nova Ordem Mundial prestes a dominar o planeta. Entendo até os puros que tentam nos dobrar através do medo, adoçando o caos com raquíticas boas promessas de tempos menos crepusculares. Eu também durmo às vezes na minha cama de contradições. O que não entendo são essas batalhas explicitamente inúteis, obscenas, que nunca terão um vencedor. A fome e a sede. A saudade e a ignorância. Até Deus penso que entendo certo tanto. O que não entendo é o homem.

17 de out de 2017

17/10


Desses farelos de beleza e esperança vamos nos nutrindo.
Vamos cuidando da manutenção dos músculos e da sanidade para dar cabo de cada dia após dia.
Os poemas sem destinatário vão para as gavetas da memória, até sumirem, dissolverem;
Os sonhos meninos de outrora parecem precocemente enrugados, com sorriso esguio de quem não quer assumir o cansaço. 
Hoje mesmo eu ainda disse: a gente é tanto pra só isso aqui!
E eu realmente acho a gente muito. Acho a gente grande demais. Mas temos que nos podar para os galhos não florescerem muito fora da caixa. Temos?
Elas sempre cantam que é sempre mais escuro antes da luz chegar.
Até gosto do escuro... aprendi a desviar dos possíveis monstros na sombra. A luz tem assustado. Cumprido seu papel de reveladora. Sei que não é ela o perigo, mas o que está por baixo dos véus que ela queima.
Eu fui à pique com aquele navio. Eu não me rendi. E o mundo abaixo da água era calmo e solitário. Você não estava lá e eu parei de ter alguns tipos de fé. Mas tudo bem nada estar completamente bem.
Porque eu insisto em dizer o que não faria falta em não ser dito é que ainda é um mistério. Todo resto me parece bem claro e óbvio.
Depois de vinte e seis anos o rio que separava o passado do futuro não parecia mais mágico. Parecia só água, água e nada mais. Sem os medos e expectativas, porque em algum momento a vida só vai indo com a gente sabe-se lá pra onde. Confesso que senti saudade do que não fui. Uma saudade que agora que começou parece que nunca mais vai acabar.

16 de out de 2017

Belo


Estamos nos construindo e reconstruindo
Com pequenos passos além da linha proibida
Com versos rasos e delicados
Com esperanças que quase nunca
Duram após o nascer do sol

Mas nesses corações danificados
Brilham bilhões de galáxias
E se não somos Deuses
Não sei o que mais podemos ser

Nem sempre eles vão entender o rio em seus olhos
Nem sempre estarão ali para atender sua ligação
Mas ainda podemos sonhar que um dia
Estaremos totalmente seguros contemplando as estrelas

Uma vez mais iremos mergulhar as sementes na terra
Esperando o milagre do Belo surgir e nos aquecer
Porque nossos corações são constituídos de amor
E ele se regenera mesmo enquanto sangra...

11 de out de 2017

Bons velhos tempos


Ninguém virá nos dizer que estes são nossos melhores dias.
Sempre jogam a esperança adiante demais,
Adiante onde nunca podemos de fato alcançar.
Ninguém veio nos dizer que aqueles eram nossos melhores dias.
O céu já pareceu brilhar com mais estrelas, eu sei
E você sabe, você estava lá.
Talvez depois que cruzarmos aquela grande ponte,
Alguma claridade refaça sua morada no meu cansado coração.
Eu quero ser bem sincero agora
Porque ainda somos aqueles meninos que corriam atrás de nuvens,
Ainda buscamos nossa Terra do Nunca,
Onde os sonhos não envelhecem,
Onde nós não curvamos nossos ombros de medo e cansaço.
Os anos passaram a conta gotas,
Mas já foram tantos anos...
Você diz não sentir nenhuma saudade,
Você diz que encontrou seu lugar no mundo,
Você diz que chegou ao topo,
E eu adotei um gato preguiçoso
E continuo uma folha amarelada flutuando no vento da tarde.
Deus, eu queria que os véus caísses, todos eles.
Que você, que eu, pudéssemos ver todas as cores desse espírito.
O que repousa tão quieto e tão fundo na carne?
Ninguém se importa, mas ainda há emoção o bastante,
Beleza o bastante,
Amor o bastante...
Por isso eu digo
Que hoje estamos vivendo nossos velhos bons tempos.

10 de out de 2017

Retirante


Toda poesia virou retirante desse sertão.
Partiu sedenta e maltrapilha pelas veredas da vida em distopia,
Cambaleante, sôfrega,
Já sem força e vontade de olhar para trás.
O azul reluzente do céu, as cantigas que faziam sorrir;
Já nem sabe se tudo foi miragem ou se o correr faminto do dias
Tirou foi a verdade de tudo.

Da boca dos noticiantes escorre sangue e esgoto.
Chorume tóxico da liberdade, da beleza e do amor em decomposição.
E se a poesia segue rumo ao litoral, rumo ao mar sem fim,
Te asseguro que nem é por fé,
É pelo sonho duro de morrer, a maldição que corre no seu sangre.
Há sempre um "e se" que a faz colocar um passo diante do outro...
Depois mais outro.

Os tolos é que são felizes, bem sabemos.
De olhos vendados parecem nem sentir sua carne
Sendo fatiada e devorada por vampiros e facínoras.
Com a chegada da luz, os demônios tem ensandecido,
Bradam vorazes, decretam, aniquilam,
Destroem tudo o que suas mãos pestilentas alcançam.
E nós, nós estamos fartos, cansados; já não podemos mais.

O caminho adiante é agreste e de se perder de vista.
Alguns vão meio acompanhados nessa sina,
A sina severina de todo homem,
Outros vão meio sozinhos, rezando baixinho por clemência,
Clemência que parece que se perdeu nessas lonjuras,
Por onde só um fio de esperança ainda ousa passar.

1 de out de 2017

01/10


Aos poucos, também a saudade, até ela, vai se dissolvendo e se perdendo por entre os dedos.
A aridez dos dias torna quase impossível a conservação daquelas delicadas relíquias.
A poesia sempre foi a responsável por documentar a passagem dos dias, das estações, dos sentimentos, o que sempre cumpriu com boa vontade e pouca destreza.
São tempos estranhos, já o disse.
A chegada das Luzes antes de ser pacífica e delicada, tem sido severa; o que adormece nas sombras desperta a todo momento violentamente.
Mas aqueles velhos dias não eram mais valiosos que estes, não.
É que com olhos mais jovens é mais fácil ser tolo, e os tolos é que são felizes.
A gente aqui já não sabe se teme a própria fraqueza ou a própria capacidade, se teme viver numa atmosfera de sonho ou aceitar que já não se enxerga mais nada além do estritamente real.
O coração ainda pulsa forte, a alma reponde aos reflexos, mas algo me diz que esse excesso de lucidez ainda vai nos levar à loucura...

18 de set de 2017

18/09


Em algumas tardes eu ainda enviava mensagens ao universo na vaga esperança de que, viajando por um fluído cósmico que conecta todas as coisas, aqueles velhos e bons sentimentos adentrassem no seu morno coração.
Naqueles dias o paraíso era um lugar na Terra. E estivessem nossos pés sobre as areias humildes do meu lugar onde nada nunca acontece ou sobre as suntuosas passarelas sobre a sua arrogante cidade, havia a mesma fé e a mesma esperança em um tolo e tão frágil amor.
Você me deixaria acreditar que aqueles nossos jovens eus ainda dançam e cantam nossas queridas canções em um lugar que o tempo não irá levar; que lá para sempre poderei encontrar o anjo de olhos celestes e sorriso meigo pensando em formas de tornar o mundo mais belo?
Eu sei que não...
Tudo o que havia para ser deixado, já o foi.
O que resta é o mesmo adeus e a mesma derrota girando em um vórtice inquebrável.
Ainda ecoam as últimas palavras e a primeira oração junto daquela mesma sensação de queda livre sem nunca atingir o chão.
Ainda não desistiu da vida aquele sentimento único e falho... prostrado aos pés de um anjo frio que nunca mais olhou para baixo.

8 de set de 2017

Suave desespero


Ainda tínhamos o espírito jovem o suficiente para pequenas esperanças infundadas.
Ainda havia algum otimismo escondido nas entrelinhas dos nossos versos e sorrisos entristecidos.
Em um instante éramos tão pouco, perto de nada, e no outro estávamos tocando a face de Deus e éramos aquele próprio Deus também.
Vê?
Em algum momento precisaríamos mesmo fingir que nada fazia muita falta, que todas as memórias mais cintilantes foram para algum canto escuro da prateleira, mesmo quando tudo estava tão vivo, tão aqui.
Espero poder levar outras vezes alguma mão ao meu coração quando ele estiver em chamas.
Você me relembrava minha divindade...
Havia algo de santo, não de mau, naquele suave desespero. Mas em se tratando de nós, a Terra parecia plana e infinita, poderia haver sempre mais distância à acrescentar às distâncias.
Aos poucos todas as preciosas ilusões vão perdendo seu valor.
Tudo é tão relativo...
No fundo havia algo mais valioso e imperecível.
No fundo, nunca foi sobre encontrar você,
Foi sobre me encontrar.

31 de ago de 2017

Assombrações de Agosto

Os últimos ventos da última tarde de agosto varreram as ruas sonolentas, empoeiradas. Levaram pro horizonte uma plúmbea cortina morna, deixando a cidade brilhante à luz do sol prestes a ser poente.
Era dessas cada vez mais raras tardes que se fazem saudade e poesia. Uma saudade às avessas, do futuro, inconstante demais para ser esperança. E a poesia é órfã, sem colo e destino, jorrando poucas palavras feito chamas peito acima, que logo mergulham eternamente num frio mar de esquecimento...

30 de ago de 2017

30/08



Abríamos nossas almas e corações ávidos e ansiosos, como se fossem bonitas caixas de presentes, e o que encontrávamos, oferecíamos... Que tempos aqueles em que éramos jovens o bastante para acreditar que o amor não adoece com os mais variados tipos de distância.
Um dia as memórias também serão levadas? Levadas como o aroma sutil demais das adoecidas orquídeas, lavadas como os telhados velhos cobertos da fuligem de sonhos aos poucos incinerados... 
Em alguns dias as ruas voltam a ser desertas, o mundo volta a não dar voltas e eu tento lembrar das palavras daquela canção proibida. Em alguns dias há uma certa batalha para não sentir o gosto daquele amor pelo que restou, porque o que restou foi a dor.
Parece não haver mais a quem abrir as caixas de presentes... Faz muito calor para aquele sueter levemente perfumado, para o cachecol branco, para sorrir aos ipês amarelos.
Faz muito silêncio para continuar atuando no teatro da esperança.
Já faz tanto... tanto tempo.

27 de ago de 2017

Fim de agosto


São as florações brancas dos ipês que anunciam o fim de agosto.
Todas essas pequenas tragédias que vamos superando, todas essas pequenas alegrias que vamos vivendo e esquecendo, todas as palavras que continuam jorrando de uma fonte imaculada... Há um propósito.
Ninguém se aproxima e nós não iremos mais nos cansar tentando fazer sentindo, tentando não nos chocarmos com as paredes do molde.
De alguma forma nós estamos amando, em silêncio, solitários.
Insistindo, insistindo, caindo, se ferindo, resistindo.
Eles dirão que nosso melhor é o que não podemos alcançar, eu digo que já estamos prontos para voar. Nada nos segura além da paixão dos nossos pés pelo chão, como raízes e solo.
Não é preciso que me diga como os cortes doem, como é triste extirpar os galhos ainda repletos de flor numa manhã de domingo, mas é preciso, é preciso.
Ainda que um tanto atrapalhada, aquela velha voz interna é uma das poucas verdadeiras amigas, aquela que nunca irá partir.
Tudo bem gastarmos nosso tempo com memórias e com sonhos...
Eu sinto que para alguém o mundo é mais bonito porque nós existimos.

26 de ago de 2017

Incompletude

Talvez você ainda se lembre de quando éramos crianças capazes de fazer coisas mágicas. A cidade já teve outra cor, outros sabores e luzes opacas. O coração ainda é o mesmo. Ele para sempre será.
Eu sei que somos ainda tão puros quanto quando despertamos pela primeira vez nas mãos de Deus.
Nós já achamos o caminho e acho que essas tantas hesitações não são um pecado tão grande.
São tempos fodidos. É muita gente perdida pra pouca esperança. Então a gente tem que se unir. Tomar um café no jardim. Contar as vitórias que vieram após as derrotas. Saber onde encontrar um abraço sincero.
Alguma coisa sempre vai estar por fazer, sempre estará em falta. Algum ponto a ser ajustado. Alguma frase a ser aperfeiçoada. Alguma fresta a ser preenchida.
Nós somos incompletude.
Buscamos calor em belos olhos que nunca nos verão da mesma forma, buscamos formas que nunca serão reais. Uma ininterrupta corrida em círculo para nenhum lugar... Mas já vemos o confuso sentido oculto em tudo isso.
Agora, o que precisa partir e o que precisa permanecer?
O que o tempo já está transportando para as Ilhas das Memórias?
Que palavras tocarão algum coração e que silêncios serão necessários?
Apesar disso, eu estarei aqui. Nós estaremos aqui.
Há tanto para saber...
Mas às vezes acho que de todos aqueles anjos, ainda somos os mais bonitos.

25 de ago de 2017

Anjos e tempestades



Há uma grande chance de que para sempre os sonhos sejam repletos de anjos e tempestades. Algo do que nos é ancestral, algo que flui pelos átomos do espírito, é inalterável.
Jazem pacíficas em certas madrugadas as memórias dos tempos santos e dos tempos profanos. Não éramos nós. Era nossa carne, a epiderme, a fome e a ânsia. Porque como uma jóia indestrutível, o âmago reluz e é inabalado.
Somos luzes. E a esperança em meio a esse caos triste e desenfreado que nos consome prova isso. Amamos, regamos jardins, dizemos "isso também vai passar".
Às vezes acho que entendo o amor de Deus por nós, um pouco.
A vida é tão bonita!
E quando os véus da ignorância e do ódio se rasgam, é fácil lembrar que também somos Deuses.
O silêncio lá fora abençoa o sono dos santos e dos demônios. Algo de sagrado reside nesse solo repleto de sonhos em escombros e em construção.
Amanhã é dia de música e luzes na pracinha, e juntando esses pequenos milagres a gente vai vendo que timidamente pelas festas de alegria a verdadeira vida vai emergindo.
A poesia das almas resiste emanando amor em todas as direções.
Basta um peito aberto o jardim há de ora ou outra florescer.
Onde quem quer esteja, quem quer que seja, estou te emitindo um pouco do que guardo de amor nesta noite.

21 de ago de 2017

Ancestral


As manhãs ainda são plenas de ventos frios. Mas depois, depois daquela manhã de agosto em que com duas palavras você extinguiu a claridade, essas manhãs se tornaram um tanto disformes, míticas, preenchidas por sussurros mudos de saudade.
De alguma forma o que restou de você sempre será a memória antepassada a vagar calma pelos largos salões vazios da alma. Mas não vá embora... Fique para ver pelas janelas o fim de inverno levando as folhas dos ipês que um dia nos apadrinharam. 
Aquele galho partido que em um fevereiro floriu já não existe mais...
Você via alguma beleza na quase infantil forma que eu tinha de ser assustado e corajoso simultaneamente. Via alguma graça nas minhas esperanças meio desesperadas.
Depois daquele dias quietos, há sempre uma nova despedida. Poemas e prosas começam com um adeus, adeuses, ah Deus...
Mas fagulhas daqueles tempos mais dourados ainda espocam logo abaixo das nuvens. Em certas tardes pode-se ver meus olhos irradiando parca claridade.
Nos intervalos dessa ópera infausta da existência, quando mentes e tímpanos são agraciados com uma trégua, doces e quase nocivas utopias bailam no horizonte onde se perdem as vistas.
Eu sei que é uma heresia com a razão praticar rituais em louvor àqueles atemporais dias felizes. Peço perdão, mas com pouca convicção do meu pecado. Talvez não finde o tempo em que eu precise roubar um pouco de calor daquelas belezas ancestrais.
Algo do que fomos se protege da boca faminta do tempo.
Vez ou outra lembraremos em silêncio do amável descuido do destino em entrelaçar tão amavelmente nossos corações tão distantes. Novamente, para sempre apartados.

19 de ago de 2017

Primeiro passo


Uma rachadura, uma fresta, uma janela, uma porta, depois nenhuma parede;
Uma faísca, uma fagulha, um lume, uma claridade, depois a luz do sol;
Um sorriso, uma lágrima de olhos emocionados, um suspiro mais profundo;
Uma memória, um aroma, um reencontro, e depois um morno abraço...
Me desculpe por ter esquecido do que a doce moça disse: o amor é paciente, o amor é gentil.
Quase me enganei buscando no além-mar o que não existe do além-mim.
Aceita o lugar vazio ao meu lado para que eu diga como o mundo ainda tem um sorriso encantador às vezes, mesmo que tímido.
Nós estamos crescendo, então é normal que sintamos medo.
Lembra naqueles dias jovens? Éramos tão seguros e fortes, protegidos por nossa pureza, sonhos e imaginação.
Nossos antigos heróis já se despediram carinhosamente há tanto...
Mas ainda podemos mostrar que somos livres. Que não precisamos do quarto escuro onde a luz não entra.
O próprio universo reside dentro de nós porque nós somos uma partícula do amor, uma partícula de incalculável valor.
Quando quer que você possa vir, meus braços estarão abertos e meus olhos exalarão esperanças.
Para isso somos feitos, para dar o primeiro passo...
E o primeiro passo já é chegar.

13 de ago de 2017

13/08


O que os anos fazem às vezes é nos levar embora os milagres.
Tragados pelas guerras, por seus números, pelas marchas dos insanos, pela ignorância e pelo silêncio, a gente se esquece dos pequenos clarões gloriosos que adornam os dias...
No fundo do quintal se pode colher jabuticabas das mais doces e nem agosto levou todas as flores da primavera;
No fim da tarde, o vento seco cobriu a cidade de poeira e poesia e havia uma rua vazia de onde se via o sol se pondo rente às árvores;
A jovem noite morna derramou águas brandas e perfumadas na terra cansada.
Todos os dons ainda pulsam, ainda vibram, ainda brilham como ferramentas novas, e não é tristeza o que se achega ao fundo do peito, é vontade, é contrário da saudade, é a espera.
Todos aquele dias belos e mornos são enfim inofensivos, cristalizados como relíquias sagradas, residentes eternas da alma para que esta se lembre do puro e imaculado sabor da vida.
Nada é extinto ou esquecido,
Mas há mais caminho adiante do que o atravessado,
Sempre haverá.


12 de ago de 2017

Before sunset


Faltariam palavras tão doces quando o aroma da noite que nascia.
Faltariam imagens tão belas quanto o crepúsculo lilás adornado de pássaros negros.
Preciso que saiba que o coração ainda está repleto daquele sagrado combustível, e talvez ainda uma única faísca possa ser a ignição para toda aquela claridade que achamos ter perdido lá atrás.
Todas essas almas tão bonitas em suas essências ainda irão se encontrar. A ausência plena é momentânea. Há de ser.
Alguma força deve estar regendo essa apaixonante e insana orquestra.
A memória não irá trazer souvenirs desagradáveis às nossas mãos nesta noite. Não inundará nossos lábios do fel da saudade desta vez.
Aquela antiga canção é um delicado presente aos nossos sentidos cansados, não um insulto.
Tudo irá ficar bem. Tudo irá ficar bem...

8 de ago de 2017

É sempre agosto


Ao retornar o eterno agosto, já não havia mais saudades.
Mesmo que breve, o tempo agiu rígido e preciso em seus golpes.
Não soou necessária a repetição de mais nenhum adeus.
As expectativas despencaram todas, como as folhas vermelhas e cansadas no fim do inverno.
Aquele verde sereno e esperançoso, docilmente fugiu dos campos e dos olhos.
As águas não caem...
E o azul seco do céu já não conserva nada do reflexo daquele inesquecido olhar.
Aquele que você acreditou amar na temporada chuvosa, ainda sobrevive em algum lugar, por algum motivo. Mas não parece tardar a vinda do dia em que o coração não ouvirá mais a melodia meiga da tarde cinza e morna.
Queria que estivesse aqui...
Que não ao meu lado, ao menos dentro de mim.
Há alguns meses, após um solene pedido, a dor, tudo o que restava de tempos gloriosos, saiu do palco principal; jaz como uma humilde e quieta figurante num espetáculo confuso.
Eram menos complexos e menos pálidos os tempos em que o amor banido redigia os roteiros.
Agora as mãos e a pele fervem, mas a alma geme de frio, invisível.
É essa a percepção de não mais existir em nenhuma memória, em nenhum álbum de recordações esquecido na prateleira. De não mais possuir o encanto necessário no olhar para adornar de flores toda a aridez e obviedade que se tornou a realidade.
O que agora além do silêncio e da ausência irá preencher o que foi e o que virá a ser?
Não há um você e, aos poucos, vai-se deixando de haver um eu.
Já distante reside a opaca manhã de agosto em que a luz se despediu.
Mas agosto permanece.
De novo e ainda...
Sempre é agosto.

30 de jul de 2017

Água sob a ponte



É nítida a impressão ou a certeza de que nenhuma nova fotografia substituirá aquelas apagadas, que congelavam no aroma do tempo um tempo mais doce que este.
Para onde foram seus sonhos? Em que areias, em que mares, em que amanheceres você abre seu sorriso agora?
Em braços mais macios repousa sua paz, eu sei. Éramos tão jovens e tolos... Desconfio que sempre seremos.
Você deve se lembrar que agosto sempre me deixa menos carne e mais espírito. Eu me torno a pequena e velha cidade vazia, por onde os ventos e a poeira arrastam folhas secas e as flores amarelas dos ipês.
Nesses anos não imagina quantas novas teorias e certezas inúteis eu aprendi. Quantos olhares que se apagaram junto do por do sol. Quantos sentimentos extintos por si mesmos.
Sei que é ingratidão minha, mas me deixe ser também sentimental.
Alguns nascem para ser ponte, outras para as águas que rolam por baixo dela. Sempre próximos, nunca juntos.
Não seria gentil seu olhar condescendente, mas sinto falta da sua delicadeza. Essa saudade me faz levemente sorrir.
Naquelas tardes em que eu parava o olhar no horizonte, como se meu coração fosse um grande e solitário vale, eu conseguia ver as luzes do mundo que cintilavam além dele.
Meus olhos abraçavam o presente e o futuro.
Talvez algo de mim ainda está como era, lá atrás, olhando com esperança para o que pode existir.

17 de jul de 2017

Teia


Existe uma teia sagrada e inquebrável conectando todos os corações semelhantes. Quando um coração se acende, a claridade viaja pelos fios alcançando seus pares, indiferente ao tempo e ao espaço.
Nossa missão aqui talvez seja mais simples, menos pesada do que se apresenta: tecer mais fios.
Eu só preciso que você saiba que enquanto existem almas de gelo e dedos em chamas, tem uma moçada aí correndo pelo que é certo e o certo é tão grande, tão maior, tão delicado e tão perto.
Fazendo música com o olhar, perfumando a vida com palavras de amor.
O Messias disse: vocês são as porras de uns Deuses, cara!
Também quero a parte que me cabe nesse reino.
Por que chorar se não for de emoção?
Por que tanto medo de um reflexo que desaparecerá junto da última luz do sol?
É tolice não cair. É tolice ser uma fortaleza.
Num peito fechado as flores não brotam.
Sem calor, nada vinga.
A gente ainda está nas beiradas, jogando com versos sem rima e ritmo.
O coração ainda é o mesmo amador lá de trás.
Coração que não é profissional.
Coração que ama, ama mesmo sem saber amar.
A gente ainda está mordendo as bordas, a gente tem medo e timidez, mas olhe, a moça disse que a luz ainda está conosco e eu digo que a canção também está e o sangue e o suor e a lágrima e o sorriso.
Tudo se trata de estar aberto.
Vai ser preciso mergulhar dentro da própria carne e matar seus demônios com as próprias unhas e matar os demônios que dormem dentro desses demônios.
Porque existe um fio ligando todos os corações que são semelhantes e a coisa mais corajosa que você pode fazer, a coisa mais corajosa que você pode ser agora, é ser você.