17 de jul de 2017

Teia


Existe uma teia sagrada e inquebrável conectando todos os corações semelhantes. Quando um coração se acende, a claridade viaja pelos fios alcançando seus pares, indiferente ao tempo e ao espaço.
Nossa missão aqui talvez seja mais simples, menos pesada do que se apresenta: tecer mais fios.
Eu só preciso que você saiba que enquanto existem almas de gelo e dedos em chamas, tem uma moçada aí correndo pelo que é certo e o certo é tão grande, tão maior, tão delicado e tão perto.
Fazendo música com o olhar, perfumando a vida com palavras de amor.
O Messias disse: vocês são as porras de uns Deuses, cara!
Também quero a parte que me cabe nesse reino.
Por que chorar se não for de emoção?
Por que tanto medo de um reflexo que desaparecerá junto da última luz do sol?
É tolice não cair. É tolice ser uma fortaleza.
Num peito fechado as flores não brotam.
Sem calor, nada vinga.
A gente ainda está nas beiradas, jogando com versos sem rima e ritmo.
O coração ainda é o mesmo amador lá de trás.
Coração que não é profissional.
Coração que ama, ama mesmo sem saber amar.
A gente ainda está mordendo as bordas, a gente tem medo e timidez, mas olhe, a moça disse que a luz ainda está conosco e eu digo que a canção também está e o sangue e o suor e a lágrima e o sorriso.
Tudo se trata de estar aberto.
Vai ser preciso mergulhar dentro da própria carne e matar seus demônios com as próprias unhas e matar os demônios que dormem dentro desses demônios.
Porque existe um fio ligando todos os corações que são semelhantes e a coisa mais corajosa que você pode fazer, a coisa mais corajosa que você pode ser agora, é ser você.

14 de jul de 2017

Ao reflexo


Ao revés do nada que se era e do nada que se tinha, o espírito costumava inflar com o vento brando e pacífico de julho. Todas as grandes necessidades e falsas miragens, sucumbiam perante uma grandeza intraduzível, desconhecida, que parecia residir planos acima desse andar térreo onde no máximo se pode apenas manter as narinas acima da linha do lamaçal.
Quando o espírito esbarra em seu reflexo nas copas das árvores, nas sombras movediças pelo solo, sentia-se por si mesmo um amor etéreo, quase intangível, acetinado, que logo se dissipava, mas que por sua genuinidade e pureza deixava por entre os dedos resquícios de bons aromas e boas memórias.
Preciso que você saiba que eu ainda vejo você. Que eu sei. Que eu sinto o homem e o menino, o serafim e o demônio, e a todos rendo as graças do meu amor, como a todos o vento acaricia.
Não é vergonhosa a valsa entre suas claridades e escuridões, são belas as faíscas que se desprendem do seu coração, e eu não esquecerei disso.
O que veem, se veem, o que sentem ou supõem, jã não deve ter peso.
Entenda eu, eu sim, verdadeiramente, amo você.

6 de jul de 2017

Ainda faz bastante frio


É muito cedo para o charme das coisas em decadência. Para aquele ar de admiração e piedade que exalamos diante do que tentou muito ser, mas já não pode mais.
Mas é fato que algumas coisas precisam repousar no rol das desistências.
"Se a gente se repete, as coisas, mesmo as que pertencem à nossa própria fé, ou à nossa própria esperança, essas coisas começam a morrer... e como."
Ardente, intensa e estranhamente sóbria a dona desses sentimentos.
"Por isso não é possível dizer sempre as mesmas coisas, ainda que elas sejam tão importantes."
Ainda faz bastante frio... Dá um certo calor ouvir isso. Porque em uma atmosfera estupidamente complexa, sobrevive o poético na epiderme do que é plenamente banal.
Ainda faz bastante frio. O sol morno passando pelas copas das árvores desenha figuras abstratas e preguiçosas pelo pátio empoeirado. Alguém não distante queima as folhas deixadas na varanda pelo vento solitário da última noite. Isso é importante porque lá fora a vida é faminta, selvagem, mas aqui ela entoa cânticos mais simples. Esse cenário frágil cria uma ponte delicada para a já distante infância, quando ainda era possível rabiscar qualquer sonho na página branca que era a alma.
Não há como não guardar você, doce e incoerente deus dos olhos albinos. Será de você o epílogo belo de uma história ruim que já consumiu páginas demais.
"E continuaram..." Nem felizes, nem juntos, nem para sempre...
Mas continuaram, como todas as coisas são concebidas para continuar.
Não que o destino virá a passos largos trazendo milagres por entre os dedos, mas por um tempo seria de tom agradável dançar com ele sem tantos tropeços. Dois pra lá, dois pra cá. Calmamente.
Sobre a constante e aflitiva necessidade de fazer parte, isso será menos incômodo com o seguir da valsa, acredito.
Tolice dizer que tudo o que foi já não é mais. É. Mas já não será exatamente o mesmo, é o que o silêncio e a luminosidade das ruas me dizem. E junto a isso, também nós não seremos.

3 de jul de 2017

...


Olhe, você está tentando de novo escrever um novo conto de fadas nas costas da lápide onde foi enterrado o último final feliz.
É tão difícil entender que uma corrente não se parte adicionando mais elos a ela?
O mundo não está tremendamente esquisito, ou tremendamente insano, ou tremendamente perdido. Ele é. Então apenas pare de seguir o fluxo.
Não tente matar sua sede e sua fome com areia e veneno.
Não cairão sobre sua cabeça rosas brancas de luz. Deus, era só uma alegoria!
A teoria é sempre mais bonita, e mais insossa.
Mas alguma coisa ficou de tudo isso, não ficou?
 É inverno. Os ipês explodem mais cores neste ano do que em qualquer outro; e já se foram três anos... Eu sei que você não parou de contar.
É um bom tempo já, certo? É tempo suficiente.
Sem mais passagens de ida e volta compradas com antecedência. A beleza dos seus olhos está na verdade que eles começam a ver desnublados.
Algumas coisas são perenes: as lágrimas ao ser entoada a Ave Maria, a pequena e morna afeição que fica suspensa no ar por mais alguns instantes ao partir a mais recente ilusão.
O coração não é assim um animal tão mutante. Ainda bem.
Qual o próximo passo, não faço ideia. Apenas tente não quebrar as promessas ou a cara por um tempo, deve bastar.
Foi bonitinha, mas um tanto ingênua, a fantasia em que tentou esconder a esperança. "As mãos sempre entregam." Lembra?
É tarde, preciso desligar. Eu sei, eu sei. Você não entendeu nada.
Não era para entender.
Não faria diferença.
Boa noite.

29 de jun de 2017

Janelas quebradas




Estes olhos de agora,
Insones, desalumiados,
Mostram pouco ou menos que nada
Da verdadeira alma
Da qual são as cansadas janelas.

Por trás destas vidraças sujas,
Embaçadas, quebradas,
Há um céu tão limpo,
Tão profundamente azul,
Onde podemos flutuar sem medo, sem direção.

Além da superfície,
Multiversos inatingidos, intocados.
Sonhos mágicos, leves e belos,
Onde somos jovens e livres.

Memórias e esquecimentos
Adornam um labirinto infinito,
Onde dançamos com os limites do tempo,

Livres de sombras e escuridões movediças.

28 de jun de 2017

"Sleep on the floor"


Que tamanho de amor
Mereceria mais um aglomerado
Daqueles tolos versos cansados?

Que dores, que prazeres
Merecem um espaço
Nas esquecidas prateleiras da memória?

A beleza é tão fugaz, meu bem.
O peito ardente, os olhos de brilhos e chamas.
Tão breves...
Nada dura, nada persiste.

As ilusões são uma chuva pesada
Escorrendo pelos telhados, levando as flores dos ipês.
Sempre escorrendo embora...
Sempre sucumbindo ao sol nascente.



26 de jun de 2017

Faça uma reverência


As palavras padecem
Como a luz cansada do sol
Todos os dias perece
Na linha tênue do horizonte
Sem deixar resquícios
Sem deixar saudade.

Talvez virão amanhã novas luzes
Novas palavras
Então não é tido por valioso
O sentimento que aos poucos parte
A voz que aos poucos se cala.

Anuncia-se um adeus sem espetáculo
Sem platéia ou palco
Já desce a grossa cortina
De puro silêncio.

Nenhum último bater de palmas
Apenas uma reverência solene
A adormecidos fantasmas.

Faz noite branda
A alma flutua calma.

A poesia sai de cena.

18 de jun de 2017

Salvation


Algo diz que ainda não é tarde demais,
Mas as vozes nunca passam de vozes;
Fantasmas inofensivos
Em um corredor escuro e vazio,
Fazendo barulhos pela noite
Quando deixam velhas memórias caírem e se partirem.

É a esperança algo além
Dessa bela estátua,
Uma deusa mitológica,
Aos pés da qual deixamos nossas oferendas,
Nossas súplicas e angústias,
Nunca respondidas?

E se chegar a hora de partir,
A hora em que a chuva cair suave
E não mais se poder ouvir o canto amargo da ingratidão,
As malas estarão prontas,
O coração estará aberto,
Ou a chave estará passada na porta?

Para onde quer que a fé tenha ido dessa vez,
Espero que não seja para longe demais.
É passado o tempo da renovação
E o tempo das flores ainda tardará.
Se não partirmos agora,
Podemos nunca mais conseguir.

17 de jun de 2017

Novo inverno


Sinto o vento forte passando por entre os galhos
Da adoecida árvore de memórias.
E embora seja belo o espetáculo
Das folhas sendo levadas ao céu e ao chão
Na tarde fria e cheia de silêncio do novo inverno,
Há essa tristeza impermutável
Em ver os pequenos pedaços desprendidos,
Entoando pequenas e ligeiras lamúrias
Por ninguém mais ouvidas.

Se há ainda alguma semente
Repousando com vida no solo gélido,
Não sabemos;
Se a primavera virá branda e bondosa,
Com aromas, amores e cores,
Tampouco.
Todas as verdades têm aspecto tão frágil,
Nós vemos como elas se decompõem
Acima das antigas certezas.

A quem podemos ainda enganar
Com esses assaltos de nostalgia
Que tentam refletir no espírito
Uma pureza nunca de fato possuída?
Inocência não é santidade.
Mas saiba que as mãos estarão abertas e mornas,
Ainda e sempre prontas.
Ao contrário dos olhos,
Elas não mentem.

6 de jun de 2017

Instalação


Os fios desencapados
Em consonância com a tinta descascada
Mostrando o passado mal pintado
Na parede onde o reboco ruía:

Que confusa instalação é a alma.

Veja bem que corpo e o espírito
Divergem em suas utopias,
Distopias,
Epifanias.

Há essa batalha ancestral.

Sem heróis, sem vilões;
Mocinhos ou bandidos.
Sem cores gritantes,
Mas agora, tons pasteis.

Cores fundidas por frio e fogo.

O santo e o herege
Com a mesma mão levantam mesmo pão
E o levam à mesma boca;
Ora pura, ora profana.

As minhas e as suas verdades são relativas, sabe disso.

Adormecido o ego,
O reflexo do ser se torna mais nítido.
E toda fome que havia, ressurge,
Agora, sempre, cada vez mais.




25 de mai de 2017

Caravaneiro


Ficou tarde demais para algum remorso.
As estrelas se escondem esta noite.
Não faz frio, não há saudade.
A canção precisa continuar sendo entoada
E nós dançaremos nas ruas vazias pela madrugada
Antes da vinda do sol, antes que o encanto se dissipe com o orvalho.

Você era um menino bonito,
Tinha olhos com brilho e poesia,
Eles dizem.
Tantas armaduras escondem aquela criatura dócil
Que agora caminha sozinha pelas velhas trilhas
Deixadas por caravanas de sonhos
Que nunca chegam a lugar algum.

Caravanas que nunca cessaram a luminosa busca
Pelo elixir da vida, pelo oásis que se desmancha às vistas.
Acima, o fogo do sol; abaixo, o fogo da terra.
Mas passam derramando sementes, mesmo com pouca fé,
Passam derramando sementes.
Talvez quando o caminho terminar, na volta, haja flores a regar.

14 de mai de 2017

Último poema de amor


Farei para ti um oceano de palavras doces
Para que mergulhe fundo, de olhos abertos,
Sem medo.

Farei um caminho de palavras macias;
Pétalas da primavera que chegará;
Para que teus pés caminhem lentamente.

Farei das palavras teu fruto suculento,
Para te saciar, para te curar
De todo adeus, de toda ausência.

Farei das memórias palavras mornas,
Soltas à beira do fogo da noite;
Serão enfim as derrotas, vitórias.

Farei das últimas palavras de esperança,
O orvalho prestes a sucumbir ao sol nascente,
Um poema de amor.

9 de mai de 2017

Leitor


Também gosto de ler.
Tudo diz alguma coisa e gosto de ouvir isso.
Às vezes passo tempos olhando o jardim
E alguém brinca se estou esperando que as flores cresçam.
Mas eu estou lendo, lendo a beleza dali.
Como leio a beleza dos corpos e das almas.
Não precisa de palavra pra se ter poesia,
Deus sabia disso. Ainda sabe, suponho.
E quando percebi,
Seguia a vida da mesma forma como lia
Aquele livro de poemas que parecia tão bom,
Mas nem era.
Eu corria ávido os olhos pelas linhas,
Vendo o resto do mundo embaçado, de esgueio,
Esperando alcançar um poema que eu sabia não estar ali,
(Normalmente os livros vêm com índices),
Mas a esperança age desde as coisas imensas até as ínfimas,
Quem sabe não estava com outro nome?
Não, não estará,
Mas continuo o livro meio bom, meio ruim,
Com fé.
Assim vai também a vida, repito,
Esperando a leitura de um poema, de um corpo, de uma alma, de um lugar
Que sei que não estará lá por mim,
Mas vou porque a fome pelo caminho é maior que o cansaço dos pés,
E de alguma forma eu já conheço
O poema, o corpo, a alma e o lugar
Tão desejados:
Estão em mim.

7 de mai de 2017

Lar


Por onde seguia naquele momento,
O que era escombro e o que era construção?
Nas ruas ou na alma,
O que era esperança e o que era derrota?

Um sorriso só veio ao ver as crianças dançando.
Há uma realidade paralela entre futuro, passado e presente,
E por um tempo, enquanto puros, lá vivemos.
Quando se cresce, sabe-se que a canção uma hora termina.

Pelos cantos eu sentia a observação das memórias,
Com seus olhos vermelhos, hálito ainda quente.
E doeria esse cruzamento de olhar;
Mais certo seguir flutuando inconsciente pela noite vazia.

Nos sonhos, persiste, persiste
A busca infindável pelo saudoso e desconhecido lar;
Isso porque ainda não entendo, não sinto ou vejo:
Sou eu meu único e verdadeiro lar.

4 de mai de 2017

04/05


Todos os dias a alma sangra em silêncio;
Por Samir, por Alex, por Dandara.
Se somos mesmo Deuses,
Onde está nossa Luz Divina?

Frágeis criaturas patéticas.
Debulhando-se em lágrimas
Frente às frias telas de vidro,
Mas estáticas, inúteis.

O Amor do qual inflamos canções e poemas,
Vale de algo diante da fome, da solidão, do desprezo?
Esses templos abarrotados de hipócritas,
Esperando recompensas mundanas e perecíveis...

Que fazemos de fato da nossa fé?
Palavras ao vento, escambeiros, crianças aduláveis.
As mentiras fluem como um rio caudaloso e poluído;
Cegos, cegos e contaminados, todos nós.

Meu coração dói. Nosso coração dói.
Os raquíticos milagres não sustentam essa horda desolada.
Mais nenhum herói, nenhum Amor.
A alegorias dissolveram-se todas...

Mas eu tive a esperança de receber aquele bom dia,
De salvar a pequena borboleta, que quase sem vida, se debatia.
Trouxe mudas para o jardim.
Chegamos ao limite, mas não ao fim.


2 de mai de 2017

Poeira ao vento


A chuva ainda era o mais próximo que se podia chegar do céu.
Tinha também aquele olhar tímido demais diante do que viria,
A vez em que não queria estar em outro lugar do mundo,
Pois era seguro;
Na tela, A Bela e a Fera;
Em algum momento todos choram;
Nos filmes, nas memórias, no silêncio do último abraço.
Matilde repete todos os dias pra minha mente:
"Olha, a luz ainda está conosco."
E por luz, ora entendo esperança, ora entendo cegueira.
Já se foram trinta anos e tudo deveria estar dourado agora,
E está. Mas por uma casca fina do metal
Mais composto de prata e bronze de que ouro de fato.
Começa a descascar...
Toda gente sabe como odeio transições,
E começa descascar...
Ainda não vejo o interior, mas sei que o que brilha não é verdade.
Toda gente sabe que odeio transições,
E Deus me coloca no mundo quando o mundo é uma.
Ainda falo e falarei do amor como se ele estivesse aqui,
Como se ele existisse;
Como se ele existisse além desse desespero pela barganha.
Esperar reciprocidade é a forma poética de fazer uma ameaça.
A coisa foi por um caminho tão difuso que nem adeuses eu ouvia mais.
Tudo assim partia, e só.
A gente cresce e cessam as explicações.
Matilde estava certa:
A esta hora uma parte do mundo cria armas,
Outra metade tira o pó das flores.
E no meio disso há alguém profundamente acordado,
Um louco, certamente.
Estou acordado, mas não profundamente ao ponto da loucura.
Quando nada mais havia, havia a espera.
Agora não há.
Sairemos às ruas amanhã em busca de luzes e olhares,
Mas voltaremos os mesmos, sem luzes, sem olhares.
É um mérito dos eleitos viver o que realmente toca?
Nunca acreditei em eleitos... puta bobagem.
Somos todos pó aqui.
Poeira ao vento, lembra da canção?
Sem pouso, sem porto, sem lar.
Viajores.
E toda gente sabe, odeio transições.

28 de abr de 2017

30/04


Não há mais qualquer encanto
Nas ruínas deixadas
Por anjos displicentes.
Tudo se torna tão sóbrio e cristalino por fim.

E há mais mistério e beleza
Nas flores roxas da árvore atrás da parede,
Que nas amáveis e bem disfarçadas palavras.
A ausência está me deixando...

É abril, mas faz frio.
A semana teve o peso imensurável
Das lágrimas que ficaram presas nos olhos.
Por qual adeus deveria perder o sono desta vez?

Talvez fosse certo não carregar já tanto cansaço e silêncio,
E estar lá fora lutando juntos aos outros apunhalados.
Mas precisava velar por minhas flores,
Pelos meus restos sagrados.

Quando finalmente alguma lágrima escorreu,
Foi por ainda ver amor no peito surrado,
Morno e magro,
Mas, glórias, não mais por outra lunática alegoria.

Seria o princípio do fim?
Se sim, talvez o fim seja algo de generoso:
Leva embora a necessidade
De outros dedos entre os meus dedos.

Nos sonhos, quem vinha ao grito de socorro
Já não trajava grande beleza e forte armadura:
Era apenas eu mesmo, nem tão grande, ou tão pequeno.
Apenas vinha simples, sorrindo...

27 de abr de 2017

27/04


Quando faz muito silêncio
Eu posso ouvir meu próprio coração.
Um som quente,
Que me dá alívio e certo desespero.

A vida insiste.
E o insistir pode ser uma das coisas mais bonitas.
E certamente
Nada é mais triste que o silêncio no peito.

Certa vez, me lembro,
Ele batia tão forte que outro peito o sentia.
Mesmo dali, preso por ossos e carne,
Sua dança era notada.

Quantos murros já levou, não me importa.
Quando a vida tenta dele partir,
É assim que a chamam de volta.
Por isso eu entendo o que em você dói.

O psicanalista disse que somos o produto do meio.
Ele não deve estar errado, quem sabe.
Mas talvez sejamos mais o que fazemos desse produto.
Amanhã o país irá parar, mas nós ainda falaremos do amor.

25 de abr de 2017

Reboot


Quando a esperança me tomou o braço,
Me levando sorrindo, cantando,
Num dia de domingo cheio de sol
Não havia razão de olhar para trás,
Pensar do dia da volta e do adeus.
A vida é mesmo uma bobagem, uma irrelevância,
Para questionar a verdade
Que se apresenta a princípio
E que desaparece ao término.

A história muda os personagens,
Os efeitos especiais,
O gosto,
Os cenários,
Um reboot bem feito
Que será idêntico em sua essência
Às versões anteriores,
E anteriores,
E anteriores...

Ao abrir a porta novamente
Depois da indiferença plena e previsível,
Os móveis estavam no mesmo lugar.
Os porta-retratos,
A pequena caixa de papelão
Com a arrogante missão de ser um relicário.
Mas algo não era o mesmo.
Escondido entre os paraíso e o inferno
Em que sempre faz morado o coração,
Algo havia partido.

E era eu indo sozinho por uma estrada,
Nem mais bela nem menos bela que outras,
Mas sozinho.
Fazendo do caminho o próprio destino.
Que tolice seria sentir alguma saudade:
O que não foi uma mentira,
Foi uma trégua,
E tudo se finda.
Todas aquelas promessas e instantes,
O que além de pequenos sonhos
Que em alguma manhã fugirão para sempre da memória?

23 de abr de 2017

24/04



O que restou é o brilho fraco de luzes perecíveis.
Em todo milagre se esconde um adeus.
Em toda mágica, um preço.

E o silêncio é o único a não partir.
Até as memórias irão,
Por mais profundas, por mais belas.

Era frio e a lua nos olhava.
Era seguro, morno, terno.
E frágil, como flores esquecidas.

Não faria sentido encerrar o ciclo.
Dizer adeus com dignidade.
Todo fim é o mesmo fim.

Traga um dia à tona
Aquela beleza que tentou vestir.
Não duvido que ela exista.

E da dor, que fique a lição,
Mais que o pesar.
O amor existe. Só não aqui.