17 de fev de 2018

Preciosidades



Um diamante no fundo da terra não tem valor. 

Quem sou eu, mas talvez a preciosidade de qualquer coisa esteja não só em sua raridade, mas nas mãos; nas mãos que colheram, que lapidaram; nas mãos que colheram e semearam.
É sempre tempo de colheita, de semeadura, de dura luta, de saudade, de floração. 
Quando o coração está mais puro, vê-se que tudo emana amor: as pequenas flores brancas da jabuticabeira, pequenos pompons brancos delicados, a semente brava que resistiu ao inverno e no verão cresceu toda sorrindo, a fé que volta depois de dura distância, como o verde volta pro sertão depois de longa estiagem.
Eles se assustam quando dizemos que o amor é eterno. Porque soa como um pedido, como um nunca se vá daqui, mas a eternidade do amor também reside calma e branda no peito, como aquela árvore solitária no campo que flori tão bela sem que ninguém sinta seu aroma.
Ainda estamos aqui, meu caro, minha cara... Ainda caímos nos caminhos do erro e da fraqueza, pecamos contra nós mesmos, desistimos, mas o coração é como uma terra bruta, pedregosa, que um dia não abrigou nada além de restos e escombros, mas hoje, pacientemente, ora ou outra, flori tanto.
Eu já vi isso antes...


16 de fev de 2018

Era meio dia


Alguém já disse antes que em certos momentos é como se todas as janelas fossem fechadas ao meio dia.
Toda aquela luz que inundava todos os cômodos, todo o coração, de um instante para outro desaparecesse sem prévias ameaças.
Por um longo tempo é difícil ter de volta a recordação de que lá fora o mundo continua a existir, a girar, a brilhar, quando dentro tudo é escuro.
Que culpa tem você, os astros, os anjos, qualquer um, por eu ainda estar aqui, sem quebrar janelas, portas e paredes em busca de paz e claridade?
Eu amava aquele adeus... era tudo o que restara, você entende isso?
Sair da escuridão era aceitar que a vida não era dividida entre bem e mal, entre encontro e despedida, mas que era uma árvore de imensas e inúmeras raízes nutrindo-se de todo tipo de sentimento, ação e relação.
Não parece ser tão difícil prosseguir quando é possível se manter na superfície, quando não há necessidade de mergulhar mais fundo, ou depositar na terra alicerces mais fortes. Em não raros casos a vida pode ser matemática, exata, complexa mas sem mistério. Mas tem essas vezes, essas que precedem as janelas que se fecham ao meio dia... e é como se aquela árvore de raízes incontáveis começasse seu crescimento sem fim do ponto mais verdadeiro da alma. Então ela não cessa de crescer, e a vida continua a seguir, com ou sem a poesia, ela apenas continua a crescer e a florescer, sempre, lentamente, eternamente, nos fazendo a todo instante lembrar da beleza, do amor, do poético, da saudade.
Mesmo quando ainda é meio dia e as janelas continuam fechadas.

14 de fev de 2018

Falo às palavras


Talvez eu amasse o eu em você, talvez eu amasse em você tudo o que em você havia de mim em uma versão aperfeiçoada, praticamente perfeita.
A versão finalizada de uma obra que é lapidada tão lentamente.
Isso explica uma saudade que vinha do âmago para fora.
Seria mais fácil acreditar que tudo é apenas uma grande mentira. Acreditar na imaturidade do meu espírito que tão facilmente se deslumbrou com cores e luzes. Mas não havia caminho fácil e eu sabia que eu não era do tipo que conseguia negar a verdade.
Sei que novos ventos irão soprar nas velhas e rotas velas que ainda se mantêm hasteadas.
A vida segue, mesmo quando parece não haver mais haver tranquilidade no mar por onde se navegar.
Eu amo. Agora um amor só meu. Que me faz olhar uma flor e chorar sorrindo. "Agora você está entendendo o que é ser homem" diria um sábio amigo.
Nossas fragilidades são tão belas...
Bem lá no fundo, ainda restava fagulhas daquele velho amor pela dor, por ser ela tudo o que restou de tempos mais singelos e belos.
O mundo era grande, as distâncias eram imensas, mas tínhamos ao nosso favor nossa inocência recém reclama.
Então veio a luz, e antes de nos cegar parcialmente revelou tudo o que existia além daqueles mundos encantados; não fora, mas dentro da gente. Ainda que amássemos, tínhamos pecados, fraquezas tantas, orgulhos a se ferir, pequenos e grandes medos. Era de se esperar que ruíssemos. E ruímos.
Falo às palavras apenas, ninguém mais ouve a minha voz.
O mundo que abriga minhas fantasias é escuro e silencioso como essa madrugada, e dorme.
Que bom assim.

15/02


Talvez tudo se trate de inspirar pessoas. Comovê-las. Então isso gera uma força misteriosa que vai se alastrando e muda o mundo ou muda ao menos pequenos mundos particulares.
Quão honestos conseguimos ser conosco? Com os outros é mais fácil porque honestidade com terceiros vem com o brinde de "olha como sou leal e maduro". Mas ser honesto consigo é quase sempre uma constatação de pequenos fracassos. Por exemplo, não passei no vestibular (edit. eu passei), escrevi doze livros que juntos não venderam 350 cópias, já passei dos trinta e não faço ideia do que é pra fazer com a maior parte da vida, tenho vergonha de marcar uma consulta. A gente vai vivendo, sobrevivendo, desviando das catástrofes e às vezes esperando um milagre, um boom que mude o rumo da história, as com 99% de chance tudo vai continuar exatamente igual ao que sempre foi.
E tem as pessoas; tão parecidas as pessoas; quase cópias. Mais um motivo para dizerem que somos todos filhos do mesmo Pai.
E tem a saudade. Ainda saudade.
Deus me livre dessa vida besta, viu.
E esperança a gente tem porque é preciso, é de bom tom. A gente vai confiando, mas esperando o pior. Andando devagar pra não cair em alguma vala.
Que porre.
A vida segue, as árvores crescem e estamos cansados pra cacete de morrer por migalhas todos os dias e nos acharmos demônios pelos menores deslizes.
Mas está tudo bem, precisa estar. Mesmo não estando porra nenhuma.

13 de fev de 2018

Ciclos

Uma constatação simples é essa dificuldade em encerrar ciclos. Remover velhas plantas para não sufocar as novas, desistir de um possível relacionamento que claramente é um placebo para a solidão, entender o que é o fim, entender o fim mais definitivo que se possa haver; quando aquilo que foi um amor agora caminha por uma bela cidade a centenas de milhares de quilômetros; a insistência em versos que a poucos causam alguma emoção. 

Ciclos...

Dizíamos sempre sobre pessoas com asas e pessoas com raízes no mundo, mas havia as quimeras, criaturas híbridas, meio pássaro, meio árvore, numa luta constante com a própria natureza. 
Pra esses, os inícios e términos doem um pouco mais. São um pouco mais intensos. Nunca se está perfeitamente confortável, nunca se está exatamente onde se deveria estar. 
Tento pensar que há alguma beleza nisso. Como naqueles olhos azuis e castanhos no mesmo rosto. 
A gente se acostuma com adeuses e encontros... 
Quando as raízes começam a mergulhar no solo, é hora de outro adeus, outra batida em outra hospedaria.  
Não é fácil e seria tão bom se alguém entendesse...  

Então, adeus novamente. Que a luz se faça diante dos seus passos.
E olá, prazer, desculpe essa timidez e não repare minha desordem... Fui pego por uma tempestade de surpresa no caminho até aqui.
Vamos começar?


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12 de fev de 2018

Lançamento de "Travessia"


"Travessia" é minha 12ª aventura com a palavra poética.

Já são centenas de páginas preenchidas com todo tipo de sentimento... desde o mais singelo e puro amor, até o silêncio mais frio trazido pela ausência da esperança.

Como disse Simone de Beauvoir: "O que eu sempre quis foi comunicar da maneira mais direta o sabor da minha vida. Unicamente, o sabor da minha vida." Mas além disso, não apenas o sabor da uma vida, mas de toda e qualquer vida que se desnudara diante de mim.

Traduzir "Travessia" em poucas palavras é uma ambição tola. O livro apenas nasceu, sem pretensões, sem obrigações. Nasceu como um simples caminhar por uma ponte que leva de um lado para outro, mas cujas paisagens opostas não se diferem tanto assim. "Travessia" é esse caminhar pelos dias da vida, alguns mais ensolarados, outros mais nebulosos; é o caminhar às vezes exausto, às vezes preenchido por uma beleza e uma energia divinas; sempre, por fim, com a esperança de dar aos olhos o presente de a imagem mais profunda e poética que repousa em todas as coisas, como uma pedra rara e inestimável, esperando sua lapidação no âmago morno da terra até que mãos hábeis possam extrair dela toda beleza..

"Travessia" é esse convite a seguir atento aos sinais, onde em tudo reside o Sagrado.


VENDA > https://www.clubedeautores.com.br/book/249856--Travessia#.WoFJXFSnEdU

11 de fev de 2018

Aventuras internas

Nunca fui arrogante diante da minha aventura com a prosa e poema, nem teria condições de sê-lo. Sempre fui consciente das minhas limitações assim como sempre fui consciente do meu amor pela palavra, pelo sentimento esculpido em versos e textos. Antes de qualquer herói, antes de qualquer filosofia, a poesia foi minha companheira, minha guardiã, meu lar. Isso desde os 11 anos. Em 2018 finalizo meu 12º trabalho com a escrita e isso é valioso para mim porque impregno minha própria alma em cada letra que é impressa no papel e que, com sorte, algum olhar percorrerá, como uma mão macia percorre um corpo desnudo. Se a poesia me levou até onde eu queria ou necessitava, nunca saberei, porque nunca houve qualquer ambição além de, de alguma forma, alcançar alguma outra alma. Talvez em alguns momentos isso tenha sido possível. Certamente é um grande desejo que esses trabalhos atinjam mais pessoas, não pela questão financeira que é plenamente irrisória, mas pela pura necessidade de criar conexão com outros corações. Não me equivoco em dizer que esses 12 livros são a condensação do que acredito ser o Amor. Então este relato é um apelo, sim, a quem puder divulgar ou até adquirir algum desses trabalhos. Isso me dá força a continuar acreditando que o mundo também é um lugar belo, onde podem coexistir sentimentos que se nutrem e se compartilham através do verso. Cada um que estiver disposto a cooperar nesse valioso processo de gerir um mundo mais belo e menos árido, tem a minha imensa gratidão.


Vendas > https://goo.gl/TzLzCC


10 de fev de 2018

Tantos adeuses



Te amar carregava a dor de te perder todos os dias.
Você sempre tão belo e reluzente,
Como letreiros da Broadway
Anunciando o próximo grande espetáculo.

Eu continuava meu vagar pelas ruas estreitas
De uma vida estreita,
Mas você já podia flutuar pelas avenidas largas e iluminadas
De um novo belo mundo.

Foram incontáveis adeuses... Meu Deus, tantos adeuses.
A vida já ruiu e se refez tanto,
E de novo: “Adeus, te amo.”

Eu amaldiçoo a felicidade
De ver aquele olhar azul a primeira vez.
O azul profundo onde mergulhei sem pensar
Que nunca mais submergiria novamente.

9 de fev de 2018

Travessia



Já não se podia saber quanto da antiga alma havia sobrado.
Alguns momentos de coragem e outros de estupidez
Ainda conseguiam fazer o coração bater um pouco mais
Fora do ritmo da canção,
Algumas paisagens ainda pareciam novas,
Mesmo tantos anos depois.

Havíamos desistido da santidade há muito,
Mas restavam alguns princípios para tirar a adrenalina dos dias
E preencher com um tipo de velhas e raçosas culpas católicas,
Como aquelas que sentíamos ao mentir aos padres
Quando éramos pequenos e ainda temíamos o inferno.

Não perdemos toda nossa fé, disso eu sei.
Em alguns momentos espremidos entre medo e maturidade,
Ousamos errar para seguir na luta pelo que nutrirá o coração:
O amor nunca deixará de ser a busca primordial.

Os dias são bem outros; os demônios estão chamando,
Mas nós dançamos por um instante sob a luz da lua
Como se fôssemos jovens e seguros de novo e para sempre.

Todos os versos repousarão na terra como sementes estéreis,
Mas semeamos, mas esperamos.

Pois somos crianças covardes, mas ainda assim, Deuses.


Logo, "Travessia"

3 de fev de 2018

Sentia-se


Voltara a conseguir ver relâmpagos mornos de um poente escarlate.
Havia sim (como haveria de não haver?) no mesmo céu densas nuvens,
Negrumes frios, rondando silenciosos mas ameaçadores;
Mas por um instante era finda a queda livre,
Era findo o efeito anestésico que entorpecia a alma:
Sentia-se.
"Não pense agora. Sinta.
Use o pensar depois, para rememorar o sentir."

Não deixa de ser um lapidar cada vez mais dolorido
Essa busca pelo poético nos escombros expelidos
Pelo que a realidade devora;
As mãos doem, o peito se contrai, o medo traz temores,
Mas louca e santa a esperança baila despreocupada,
Indiferente aos tantos finais de mundo.
Bailo eu junto dela por alguns instantes
e o sol já deitou com doçura nos lençóis do horizonte...
Eu ainda volto, sim. Logo eu volto, sim.

16 de dez de 2017

16/12


Talvez o amor seja simples.
Como o vento levando as flores de dente de leão
E espalhando pelo campo
E gerando novas sementes de dente de leão.

Talvez o amor seja morno, não quente.
Seja conhecer o sonho do outro.
Conhecer o sonho do outro tão bem
Que num certo ponto é meio que o próprio sonho também.

Talvez o amor não se dê para buscar, 
Mas sim o esperar bater na porta mesmo,
E a porta estar destrancada 
Enfim.

Talvez o amor não tenha morrido
Naqueles bons velhos tempos.
Talvez, talvez porque eu não poderia nunca afirmar,
O amor seja realmente eterno.


12 de dez de 2017

Fênix


Por vezes, dentre tantas dores e descaminhos,
Restava uma nuance de esperança nos trilhos da vida.
Uma miragem bonita no horizonte,
Como aqueles pedaços de arco-íris
Que resistem alguns instantes suspensos no céu
Antes da volta permanente do sol.

Um segundo sem desespero
Nesse mar repleto de náufragos...

Dos mesmos olhos despidos de ilusão
Escorriam lágrimas quase impeceptíveis
Ao pensar numa esperança tão vaga,
Tão etérea e distante...
Mas presente, ali...
Fazendo-se existir.

Uma pequena bela angústia
Brotando dos dedos sujos e cansados de revolver o solo duro da fé.

E todas as partes arrancadas e murchando no solo quente,
Brotarão novamente, florescerão novamente.
Não poderão aprisionar nosso espírito,
Como não se aprisiona as cores de uma delicada flor.
É bem pouco esse contentamento descontente, eu sei,
Mas somos mais fortes e encantadores do que nos vemos.

Estão nos tornando cinzas;
Mas somos fênix...

2 de dez de 2017

Tempo inverso


Se por uma vez apenas o tempo esquecesse a própria crueldade
E se dobrasse, adormecido e cansado sobre si mesmo,
Talvez não navegássemos mais nesse oceano de sonhos partidos
Onde sempre chove e trovoa,
E aportaríamos naqueles instantes em que mais do que felizes,
Éramos livres.

Todas essas estúpidas imagens e essas estúpidas vitórias
Encobriram de chumbo nosso delicado espírito.
Toda essa ânsia, essa fome, esse desejo...
Nossa angelitude agonizando nas mãos da ambição.
Nossa saudade se alimentando lentamente de cada memória.
Não seremos aqui outra vez apenas um canção...

Tudo não passa de uma convincente ilusão,
Ciscos, irrelevâncias na eternidade.
Mas pagaremos por todos nossos pecados,
Um a um,
Até não haver mais pelo que errar,
Então despertaremos.

26 de nov de 2017

Vem não


Eles falam de regar o jardim, cuidar da floração
Que as borboletas vem.
Vem não!
Vem não que a mão já está cheia de calo,
O coração cheio de espinho,
A alma queimada do sol a pino,
E vem não.
O tanto de flor que nasce e morre nesse sertão,
E elas passam longe, as esperanças, as borboletas,
Passam longe.
Eu aceno, ajeito a roupa, ensaio um sorrio de carto de boca,
Mas nada vem, não.
Não espero mais, não,
Nem disfarço que essa minha fé é minguada
Como a força do pobre sem refeição.
Cansei.
Cansei dos demônios e dos santos com a sua salvação;
Cansei da beleza, da arte, da redenção;
Cansei do seu amor a conta gotas,
Do seu afeto racionado,
Do meu orgulho.
À merda essas flores sem perfume!
Esse silêncio falso, abafado.
Nada virá, não.
Mas ir, tudo vai que é uma beleza.
Cansei.
Não quero mais o seu perdão,
A santa remissão dos meus pecados,
A sagrada comunhão.
Cansei, quero mais não.
Como posso dizer de uma maneira educada
Vá às putas que pariram?
Assim tu aprende a ser forte, a ser honesto,
Vai que...
Porque essa vidinha branca de comercial de margarina
Também não cabe pra mim, não.
Essa hora certa pra dizer sim, pra dizer não.
Deixe ao menos a porra da minha dor ser livre do seu sistema podre!
Cansei.
Quero mais deitar sementes à terra, não.
Cultivar, regar, acariciar, esperar.
Não, posso mais não.
Porque a boca fechada esconde um grito que me estripa por dentro.
Mas ninguém vê, não.
Amanhã começa de novo, o lento rastejar das cobras;
Reis, rainhas e peões nos seus devidos lugares;
Ai! Ai de quem tentar cruzar a linha!
Ai de quem não fingir sanidade.
Cansei, não semeio mais.
Cansei, posso mais não.



25 de nov de 2017

Lindas aberrações


Volto às palavras como um cachorro vadio
Volta ao chão sujo do boteco
Onde mesmo pisado e enxotado
Tantas e tantas vezes
Se sente realmente em casa.

Também sou uma dessas criaturas renegadas,
Que se arrastam pelas margens úmidas, sem alarde.
Que muitas vezes conseguem ver a beleza no caos.
E preciso que saiba que o meu e o seu perdão já são sem valor,
Só precisamos de um pouco de atenção para nossos sentimentos agora.

Eles falam dos fim dos tempos mais uma vez...
Como falavam antes desses tempos de agora.
O mundo nunca teve jeito mesmo...
Mas Deus não vai dizimar esse canto nada especial
Repleto de lindas aberrações. Durma em paz.

E todas essas nossas tentativas, tantas tentativas,
Devem contar para alguma coisa
Quando o Manto de Maria finalmente nos cobrir com o sono da morte.
Em toda minha asquerosidade e insignificância eu aprendi:
O melhor caminho, o único caminho que nos resta, ainda é o amor.

23 de nov de 2017

27/11


"Toda destruição gera a criação",
Ela dizia.
E meu esforço era encontrar sentido
Em mais uma crueldade que a vida oferecia
Com ares de lição.
Há esses dias em que o peito cansado não entoa seus cânticos,
Suas súplicas;
E a memória exausta repousa como uma menina dócil
Após uma tarde toda de travessuras.

Ainda sinto saudade...
Mais que isso: ainda sinto amor.

Feito fosse um Neruda,
Nada em mim é extinto ou apagado.
O absoluto e quase impenetrável silêncio do peito
Não é sua sepultura como de fato parece ser.
Ainda estamos tão vivos!
O espírito, o sonho, a palavra.
Os sentimentos são livres,
E livres vão para tão além de mim.
Mas certo dia voltam,
E o peito os recebe aberto e em festa,
Nem se importando com o vazio que tanto o feriu
E que logo voltará a ferir.

4 de nov de 2017

Eppure sentire


Ainda são aqueles mesmos céus de cobalto.
Ainda buscamos o alto esperando que as cores chovam,
Esperando que as saudades se dissolvam,
Que o pranto sorria de lábios amargos no final.

Mas é longa e silenciosa a inquebrável distância.
Do velho lar, ruínas jazen
Como miragens só tocadas na memória.
Tanto tempo... e ainda un senso di te.

Se ao menos a chuva caísse poderosa mais uma vez
E devolvesse o secular brilho das estrelas calmas
E a canção fosse esquecida finalmente,
Adormecendo a vontade, adornando a claridade...

São apenas pequenos e gentis sonhos,
Pontiagudas e reluzentes esperanças,
Nunca mais revividas outras vez, nunca mais.
E mesmo com tudo... mi sento ancora.

31 de out de 2017

Terra rica


A palavra é esse par de asas frágil, fraco.
E esses centímetros que me coloca acima do solo,
Nem é um voo,
Mas só uma pequena rebeldia, uma inconformidade.

E tem horas que a alma é essa terra rica, fértil,
Em que se semeada, tudo floresce;
Mas tem horas que é chão tão agreste, tão quente,
Onde a vida só com muita teimosia e dificuldade vai pra cima.

O pequeno poeta disse pra que eu não confundisse
Saudade com vontade,
Mas não explicou a diferença.
E eu ainda penso que vontade é só uma saudade do futuro...

Eu sinto muito, sinto tanto, por agora e por depois,
Mas acho que está ficando tarde pros poemas de amor.
Mesmo o céu estando tão bonito como naqueles tempos
Mesmo o coração permanecendo aberto, como sempre esteve.

28 de out de 2017

28/10


Todos aqueles momentos que pareciam um sonho, 
Eram mesmo.
Na manhã seguinte havia a algazarra dos pássaros 
E uma luz forte demais entrando pela janela.
Vivemos feito ilusionistas,
Fazendo pequenos truques com a vida
Para que ela se pareça mágica. 
Mas a sobriedade me assusta.
As pontuações perfeitas, os olhares firmes demais, as certezas.
Não houve em mim nada além de uma esperança gentil que sabia a hora de me dar trégua. 
Lá vai ela de novo, a esperança. 
Faz um drama... como se nunca fosse voltar.
Mas eu sei porque chora. 
Não são mesmos os braços a recebê-la.
É a vida, minha querida.
Se a gente aguentasse, sorriria outra vez como a primeira vez.
Mas tudo já é outro...
Até o silêncio.
Você ouve?

27 de out de 2017

28/10



Mais dia, menos dia,
Vamos cansar dessa necessidade
De sermos manequins vazios por dentro,
Reluzentes por fora,
Tentando acertar a posição perfeita
Para chamar atenção,
Para convencer e vender nossa imagem.

De que serve esse caminho tão longo
Com pequenas paradas em espeluncas sujas,
Habitadas por palhaços malignos
E varridas por ventos quentes do norte?
Estamos em um círculo,
Não consegue ver?
Correndo loucamente para o nada outra vez...

Mas não longe daqui eu flutuava entre orações fervorosas
E perfumes de cinquentenárias árvores à beira da estrada.
A velha esperança muda de forma a cada estação.
Já não aponta qualquer caminho,
Apenas diz: vá. E eu vou.
Pois já é claro não haver o destino,
Apenas o infinito caminho.