30 de ago de 2015

Nada foi dito sobre o amor


Reside na calmaria, o santo sentimento,
Ou sopra junto aos temporais?
É o abraço que protege,
Ou a brasa que tortura a alma?

Nada foi dito sobre o amor.
Nada sabemos sobre que é o amor.
A santíssima doença que por sorte
Pode nos enfermar o espírito.

Sabemos dos sintomas:
O universo que nos é oferecido por mãos afáveis.
O buraco negro, inexplicável,
Que tudo consome, exceto memórias.

Nada foi dito sobre o amor.
Conhecemos suas consequências.
Tantos poetas estúpidos e canções estúpidas...
Tentando conter nas mãos o que nunca será tocado.

15 de ago de 2015

Inteiro


Houve aquele dia, aquela estrada e uma canção.
Tudo no seu lugar por um instante.
A água pura correndo,
O amor florescendo...
E tudo emanava uma vida reluzente.

Talvez fosse agosto também,
Mas havia um ar mais leve e doce que este;
Mas havia um sorriso mais leve e doce que este.
Houve aquele dia...
Eu ainda me lembro da sensação do coração inteiro dentro do peito.

14 de ago de 2015

Há temporal


Onde repousam as pequenas epifanias,
Cultivadas com tanto esmero
Naquele velho jardim, já adoecido pelo inverno,
Arrancadas pelos temporais?

Há um paraíso atemporal para as ilusões partidas,
Onde nada se esquece, nada falece?
Um lugar-qualquer, onde a realidade
Não sopra, não ruge, não deságua inclemente do céu?

Aqui ainda chove...
Água salgada, água fria e ácida,
Que escorre pelos velhos escombros
E rouba o verde das árvores, o azul do céu.

Ainda chove...
Mas não o bastante.
Ainda há vida, memória, sonho.
Ainda há o que não mais existe.

TEMPOS INVERSOS


"Tempos Inversos" é meu sétimo livro de poemas; resultado de um ano de escrita, aprimoramento e vivência das mais diversas sensações. O sucessor de "Ex-voto" traz ainda certo convívio com o cenário árido encontrado após o término de um grande sonho. Mas o que os poemas do livro tentam transmitir não é a dor de uma perda ou o brilho esfuziante de novas paixões, mas a claridade sutil que a esperança emana através de todas as coisas. Em uma alegoria, pode-se ver o eu-lírico destas páginas como um viajante que antes repousava em verdes prados, e hoje procura por relíquias em terra desertificada. O tempo já não carece de fazer sentido. Ele não segue a ordem lógica de correr para frente, deixando o passado para trás... O tempo são as areias abaixo dos pés, por onde o viajor caminha, muitas vezes, sem rumo. Ele não é amigo nem inimigo, apenas uma companhia que não segue ritmo coerente, como os próprios passos cansados sobre a terra inexplorada.

Disponível em: http://migre.me/rashy

12 de ago de 2015

Aos poucos, é o adeus.


Colho o que resta, dia após dia,
O que resta dos tempos áureos.
Há um pequeno resto deles na luz do sol poente,
Brilhando a poeira de agosto nos telhados velhos.

Deixe...
Deixe que a voz, o sussurro, a paixão da moça cansada
Preencha o coração de deliciosa dor.
É simples: é uma tristeza bela.
Até isso... A tristeza que ficou é bela;
Como um sopro frio no rosto
Quando saímos à rua pela manhã.
Um resto de noite ainda pairando
Onde não mais pode existir.

Já é dia, os sonhos adormecem...
De algumas cicatrizes cuidamos com mais carinho.
Carinho semelhante ao do olhar
Vendo as folhas vermelhas como sangue das árvores caindo...
Dando espaço para novas folhas verdes como esperança

Veja bem: é aos poucos, o adeus.
E até os mais amigos chamam de imbecis minhas lágrimas,
Mas eu sei que elas não são.
Aos poucos, é o adeus.

As preciosidades vão sendo roubadas do peito,
Pouco a pouco, uma a uma,
Enquanto eu finjo não perceber
Que é meu próprio coração sendo levado aos pedaços.

7 de ago de 2015

Expandindo-se


Talvez por um pequeno momento,
Um resto de segundo,
Uma fração de tempo,
O Amor que eu tanto queria tirar do peito,
Estender,
Oferecer;
Esteja brotado só,
Como as roseiras brotam,
Ao imaginar a primavera ainda por chegar.

E ele cresce e não parte,
Ninguém o toma nos braços,
Reclama sua posse,
Sorve suas dores e cores.
Ele se alastra ao redor de si mesmo,
Envolve o espírito que o gera,
E como um farol em noite tempestuosa,
Sente-se pleno ao afastar os barcos desesperados
Dos perigos das rochas.

Acaricio suas pétalas com minhas mãos ainda macias.
Minhas mãos quentes que tanto já percorreram...
Talvez mais que meus pés.
Mãos de pouca força, mas firmes,
Lapidadoras de sonhos nunca colhidos.
Acaricio seus galhos que crescem
Expandindo-se,
Expandindo-se...
Enquanto a primeira brisa de liberdade faz marejar os olhos.

2 de ago de 2015

Ao gosto


O vento pesado e sem vida de agosto já sopra.
A estiagem. O adeus. A indiferença;
Coisas que chovem num dia de sol displicente,
Num dia de amor indiferente.

Ao gosto das brisas, das horas, dos sentimentos
Velejo sem avistar porto;
Já percebendo que não há porto, nem mar,
Mas apenas solo abaixo de mim.

E eu observo o azul infinito que nunca tocarei,
Nunca mais.
O azul distante, silencioso, frio...
Não sei o porquê da insistência deste olhar.

As mãos são frias, a luz é artificial, os lábios são secos
E as palavras faltam;
Ou sobram.
Faltam para descrever o que ninguém entenderia,
Sobram na tentativa de auto-salvação.