29 de mai de 2015

Lado escuro da lua


Será o seu, entre todos os corações,
O primeiro a jamais olhar para trás?
Seria a sua voz, entre as centenas de ruídos que não cessam,
A única jamais lembrada outra vez?

A eternidade caminha com seus passos meigos.
Os dias surgem com o sol, um atrás do outro...
Frios, quentes, felizes, desesperadores.
Mas o amor nunca mais provou outra vez ser real.

Aqui estão minhas mesmas mãos,
Meu mesmo coração,.
E o espírito que ainda sonha poder voar na noite estrelada
É o mesmo se emocionando em silêncio ao sol poente.

Mas agora há esse sentimento onde a claridade se perde.
Eu não sei dos culpados.
Agora que a esperança, enfim, jaz sem vida,
Aceito ser outra vez o lado escuro da lua.

O lado onde não há calor ou brilho,
Mas apenas memórias.
Memórias de uma claridade transitória,
De um tempo talvez nunca vivido de fato, mas tão amado.

20 de mai de 2015

Não há


Em algumas manhãs, é como se você ainda existisse.
É como se o sol pudesse emanar uma faísca da sua luminosidade,
Ou da luminosidade que meus olhos viam em você.

Em algumas manhãs, é como se um dia você tivesse existido,
E não fosse apenas um sonho esculpido por anjos inexistentes.
Um sonho tão oposto ao pesadelo das madrugadas.

Tudo em você era macio:
A pele, os lábios, a voz, o olhar.
Nos pesadelos, tudo em você é duro, frio,
Como um desmoronamento.

Mas não há você,
Nem nos sonhos gentis, nem nos pesadelos malignos.
"Nunca houve você."
Repetirei até acreditar.

18 de mai de 2015

Voz da quimera


Nunca foram poemas, versos, canções:
Só segundos da eternidade em palavras ilegíveis.
A sempre frustrada tentativa de aprisionar a beleza,
A beleza que se esvai como fina areia na ampulheta.
A sempre arrogante tentativa de se libertar da dor,
A dor cujo antídoto nunca será teorias impossíveis de serem provadas.

Eu te mostro minhas asas imensas,
Em chamas escarlates, em movimentos insanos.
Você olha para minhas raízes já apodrecidas,
Mas ainda tão firmes no solo.
E esta é a última chance, como todas as anteriores
Também foram as últimas.

Mas há algo novo abaixo do mesmo sol,
E não é o vento de inverno que lambe minha face amarga.
Não há paixão pela sombra que confundiu meus passos,
Ou pela claridade que queimou meus olhos. Não há paixão.
Há o espírito em cinzas,
Talvez finalmente sendo levado pelo vento.

8 de mai de 2015

Da lágrima e do vento


A ilusão é o cadáver atirado ao oceano.
Aquele, com os ossos já corroídos pelo frio,
Pela pressão, pelo sal.
E eu agradeço, enfim, o seu fim.
Sem a luz nos olhos, enxergo o que há.

Por isso os dias são poemas.
Não longos romances, histórias sem fim;
Mas relâmpagos de tempo,
Clarões momentâneos,
Queimando indóceis no fundo da alma.

O sentimento é o amor da lágrima e do vento.
Se desfazem enquanto se tocam.
Até não escorrer mais, não ventar mais.
Estrelas já não são anjos em vigília,
Apenas fragmentos mortos de luminosas memórias.

Perdoa-me: é isto. Mesmo só isto.
Um âmago de feras e flores,
Preso por mãos que já foram instrumento de felicidade,
Mas hoje repousam frias
Sobre o colo igualmente frio.

Ainda assim, os sonhos distantes sussurram que não tarda a alvorada.
Chegará o dia da claridade solar
Inflamar outra vez o peito inerte.
Por enquanto, abraço o inverno já presente,
O silêncio que nunca silencia.



4 de mai de 2015

TEMPOS INVERSOS



Quem me dera estas fossem apenas palavras...
Palavras leves, gastas ao léu, em tardes mornas de domingo.
Mas não: oferecer um poema, um verso que seja, é oferecer um pedaço de alma que não cabe mais dentro do corpo.
Todo poema é uma dor, uma despedida, mesmo os felizes.
Todo poema é de Amor. É para o Amor.
Pois o Amor em tudo está, em tudo reside.
Em silêncio, em lentas lágrimas compostas dos mais diversos e possíveis sentimentos, trago à tona "TEMPOS INVERSOS", meu sétimo livro.
Em uma alegoria, colocaria o eu-lirico destas páginas como um peregrino em terra assolada por estiagem. Um viajor que já conheceu verdes prados, mas no instante, sente a areia quente nos pés feridos, enquanto olha com esperança nuvens esparsas no céu.
O tempo já não importa. O tempo não registra nas areias a história de um homem qualquer. O tempo se tornara as próprias areias.
Areias que se movem sempre, que mudam o horizonte sempre, mas nunca deixam de compor o mesmo deserto.

https://www.clubedeautores.com.br/book/186031--Tempos_Inversos#.VUhobo5Viko

1 de mai de 2015

Meninice


Quem fica é quem sofre, ce sabe bem.
Os poeta tão tudo sempre certo,
Meu bem.

Perdoa o menino, seu moço.
Ele não sabe dos poco,
Tudo pra ele é muito.

Beleza demais faz o olho virar riacho,
Dor demais faz o coração não 
Lembrar dos paço da dança.

Deixa o menino sorrir, seu moço.
Perdoa os medo dele, 
Perdoa os sofrer dele.

Joga luz nos caminho do menino, seu moço.
Que há coisa boa pra crescer nesse chão,
Até flor pode se que se dê.

Deixa o menino sonhar com os vento no rosto,
Com o amor como encosto,
Com domingo sempre de sol.

Deixa o menino desejar a felicidade,
Temer o desamparo, querer abraço.
Acolhe o seu menino de dentro, seu moço,
Só assim ce vai saber como se home também.

Auge de outono


Deixarei passos nas ruas
Em busca das memórias que gravarei em luz.
Preciso imortalizar rosas vermelhas,
Eternizar sóis poentes em céus de ametista.

O calor das chamas do mundo também fere minha alma,
Amolece e fragiliza sentimentos ancestrais.
Sentimentos que se supunham sólidos, imaculáveis.
Os olhos jazem casados perante às misérias humanas.

E quase me esqueço dos dias sem distância,
Como aquele em que numa manhã, ao lado do Belo,
Caminhava pela perfumada feira, pelo antigo bosque.
Quase me esqueço do velejar do coração, hoje afogado.

Mas neste auge de outono, 
Há a brisa fresca, a luz macia no salgueiro, a borboleta amarela...
...e eu sorrindo, 
Lembrando da fé, minúscula e sempre existente.