30 de dez de 2016

Perfeitamente


O perfume da roupa no varal,
O cheiro da chuva mansa da última madrugada,
A luz macia do sol que entra pela janela...
Nós sorrindo na lembrança.

E se a gente mantivesse a vida assim por um instante:
Pacífica, branda, com o cantar longínquo de pássaros?
Sem as mãos quentes de memórias e expectativas
Pressionando nossos pescoços.

Sentir saudade...
Não a saudade do que se foi para sempre,
Levando consigo toda claridade,
Mas do que chega amanhã; logo ali.

Traçar versos bobos sobre uma vida banal;
Um dia alguém florescerá sobre esses pedaços de alma,
E até lá, ser leve, como se tudo estivesse em seu lugar,
Seguindo sua sina, perfeitamente.

29 de dez de 2016

Éden



Eu me lembro do rosto de cada anjo.
Eu me lembro do rosto de cada demônio.
Eu me lembro de cada cura e de cada cicatriz.
Mas você era o antídoto antes do veneno,
A viagem tranquila antes da grande tempestade.

Meu lúcifer particular.
Quimera de luz e sombras.
No azul celeste do seu olhar,
Eu não via... eu não via,
Ardiam as chamas do inferno.

E todas as noites chorei,
Como um deus abandonado,
Por perder sua criatura dileta.
Meu paraíso nunca foi o suficiente 
Para tão magnânima e assustadora criatura. 

Meus olhos já não te alcançam mais,
Ou minhas mãos ou meus lábios ou meus braços.
Apenas a memória é um fio eletrificado e eterno
Envolto em meu coração
Conectando-me àqueles dias em que meu Éden era apenas seu.

27 de dez de 2016

Seu Ruas


Minha reverência, meu senhor.
Sou também Ninguém, prazer.
Soube da sua morte tentando defender a moça
Que só tava ali existindo.
Sabe meu senhor, eu acho que se o céu existe mesmo,
Tem um bom lugar esperando o senhor lá.
Por aqui anda tudo meio assim, sem jeito.
É uma gente ruim de um tanto,
Que quando a gente pensa que já viu de tudo,
A gente tem de chorar por outra desgraça!
Que os anjos te acolham, viu meu senhor,
Porque o senhor é um herói.
Mesmo que amanhã ninguém mais se lembre do senhor,
Que os jornais com sua foto forrem prateleiras,
Entupam bueiros... O senhor vai continuar sendo herói.
A gente é assim, a tal da amnésia coletiva.
Num dia a gente chora, no outro tá rindo de novo,
Como se estivesse tudo bem. Não tá nada bem.
Sabe, o mundo é um lugar muito feio
Pra pessoas bonitas assim, como o senhor.
Não vai dar pra esperar muito da justiça dos homens,
Ela é feito cobra de brejo, só pica pé descalço.
A gente aqui roga é pela divina.
Vai com Deus, viu, Seu Ruas.
Um mundão de gente tá com o coração danado de doído,
Mas também cheio de orgulho
De um entre nós, ser um Humano de verdade.

22 de dez de 2016

Antônimo da dor


Chorei à despedida da Grande Dor.
Uma inimiga tão íntima, tão fiel.
Sempre tornando as noites mais escuras
Do que qualquer noite deveria ser.
Sempre tornando a memória
Mais reluzente do que qualquer memória deveria ser.

Chorei à chegada do Grande Bem.
Na tela fria eu via o mais doce sorriso,
O mais nítido olhar.
E quase me esqueci de como tudo...
Como tudo está em escombros lá fora
E aqui dentro.

E nesta noite a oração será pelo coração;
O esquecido em uma velha estação
Quando seu sabor começou a desaparecer.
Será pelo coração
Que agora, em não tão mais longe,
Gera sorrisos nas horas mágicas da tarde.

21 de dez de 2016

Luminescência


Olha-me de volta o abismo.
Estende mãos sedutoras,
Sussurra canções sobre paixões idílicas.
Chama meu nome exalando hálito quente,
Põe em chamas a minha carne fraca.

Já prestes a precipitar, a render,
Distante, meiga luminescência 
Faz com que escorra lágrima tímida.
Eu não a alcanço,
Eu não confio nos meus próprios olhos.

E sou eu que estendo as mãos...
Eu que entoo perigosas canções...
É meu o olhar do fundo.
Eu é que seduzo lindas negras estrelas
Que despencam tão belas;

Puras, como cada antiga veia 
Em que pulsava sentimentos insossos demais
Para qualquer maligno anjo faminto.
Mas me perdoo; há a luminescência distante...
E ela olha para mim, ela vem em direção a mim.

19 de dez de 2016

Água passada


Lembra daqueles barquinhos de papel
Que fazíamos e deixávamos ir com a enxurrada?
Íamos acompanhando até que se desfizessem
E o papel voltasse a exibir letras, figuras...

A maior de todas as histórias é essa folha molhada.
Flutuando frágil sobre águas sujas.
E eu vejo indo uma dor tão minha, tão bonita;
Tudo o que resta, indo.

Seus dedos se entrelaçam aos meus,
Seu olhar se perde no horizonte junto ao meu.
E eu não afundo feito a folha que foi o barquinho de papel,
Eu fico junto do que segura minha mão.

Contenho pra não falar de esperança,
Mas já não chove,
A luz macia da tarde cai por mim adentro.
Volto a flutuar...

16 de dez de 2016

Mais uma dose



Tantas feridas cansadas de doer.
Tudo aquilo não foi um milagre.
Não foi.
Nunca estivemos realmente lá.
Nunca fomos realmente nós.

Ao menos ainda conseguimos correr.
Fingir uma confortável revolta.
Estamos crescendo tão bem,
Perdendo o medo do escuro,
Ganhando medo de tudo.

Eu tinha direito àquela agonia,
Àqueles sonhos,
Ao luto sem prazo de validade.
Ao menos não era uma dor mesquinha,
Era algo de mais nobre, de mais refinado.

Veja agora a vida:
Todos cegos em um labirinto.
Que criatura amorfa e quase assustadora
Sobrou dos dias cheios de sol.
Todos os deuses estão mortos.

Que transcendentais eram aquelas preciosas ilusões, não?
A realidade tem um cheiro bem menos agradável.
E eu não perdoo a sua perfeição.
Eu odeio a sua perfeição.
Mas ainda amaria todo o resto de você.

15 de dez de 2016

Tudo


Pouca coisa foi muito leve e doce
Para que se rendesse versos meigos e ordinários.
A vida me arde nos nervos, nos dedos, na epiderme.
O sangue persiste na constante ebulição.

Bem quisera aconchegar-te
Em suaves brisas de tarde veranil.
Lançar palavras leves nessa brisa
Para que em teu peito fizessem morna morada.

Mas o peito ruge, não ouve?
Tudo lá fora parece tão calmo,
Mas eu ouço as guerras,
Algumas distantes, outras internas.

É disso aquele sente: tudo.
Tudo é belo, tudo dói, tudo há e tudo falta.
Mas esse tudo, quem sente, quem nota, vê?
Os poetas. Aqueles, os já quase extintos.

Luz


Os sons do âmago persistirão a vibrar,
Ora intensos, ora tímidos,
Para sempre,
Esculpindo as essências da alma.

Não me esqueço dos tempos de tempestade,
Do frio e dos olhos de medo.
Não me esqueço das estiagens
Que levaram a graça das mais floridas promessas.

Tudo resiste na alma infinda, imensurável.
Ebulições de intensa euforia,
Tardes cinzas e mornas,
Sem vida.

Mas o vento, o sol e o verde lá fora
Faz dos olhos escorrerem morna esperança.
Talvez não venham tempos mais iluminados,
Talvez a luz nunca tenha partido daqui.

13 de dez de 2016

Toada do alento


Serão ainda minhas mão só de louvores.
Dos dedos, hoje trêmulos e sozinhos,
Escorrerão apenas carinhos;
Uma fonte pura, cristalina.

A canção bonita vai vir trazendo paz.
Uma fé de carne e espírito,
De homem e deuses.
Feito voz doce de mãe espantando temores.

Já não faltará tudo que falta tanto.
Vai bastar... vai bastar.
A vidinha assim,
Longe dos santos e dos pecadores.

Cirandas sobre as sepulturas das memórias.
Não ter mais passados a assombrar.
Tudo se foi tão bem ido pras bandas do esquecimento.
Morreu o coração, nasceu uma flor.

13/12


Quando te vejo, assim de longe, Amor,
Os olhos desaguam mornos.
Como um riacho sob um sol brando,
Cercado de delicada vida.

Mas temo os homens de punho em riste,
De coração apodrecido,
De alma intoxicada de ganância, de ignorância.
E meus olhos ardem de medo e dor.

Estaria o Homem condenado à saudade?
A saudade morta, nebulosa e fria,
Dos tempos em que poderíamos ter mudado o mundo,
Mas escolhemos contaminá-lo.

As esperanças, feito as flores,
Desabrocham e murcham suavemente.
E mesmo que nos sonhos sua mão me segure firme,
Eu sei que ela jamais estará realmente aqui.

Desabrigado


Sinestésicas missivas a ninguém.
Alimentos insossos para anjos displicentes.
Louvores supérfluos a reis cegos de orgulho.
Finais.

As esperanças são visitas inesperadas,
Festejadas,
Que deixam um silêncio sepulcral na partida,
Um frio seco pelos corredores.

Adeus, querida cintilância.
Toda felicidade será castigada.
Abriremos as portas
Às carrascas memórias?

Lembra de mim ao pisar nas areias brancas
Em que nossos pés nunca estiveram juntos.
Eu lembrarei de ti
Sempre que for profunda a ausência de um Lar.


11 de dez de 2016

Flores


Nunca te rendi flores.
Ofertei estrelas, filosofias, promessas.
Nunca te chamei para num dia ver um botão
E no outro, uma orquídea amarela.

O frágil sempre me foi assustador;
O efêmero, o vulgar, o transitório.
Valiam mais alianças frias
Que quentes mãos dadas.

Me perdoe,
Te privei do melhor de mim;
Da poesia em que veleja minha alma,
Da simplicidade bela em que repousam meus sonhos.

Este coração é um jardim pedregoso
Em que firo os dedos
Em busca de extrair ainda algo de belo.
Mas agora, aceita minhas flores, são o tesouro de mim.

Supernova


Por que se recusar a ouvir o canto das estrelas
Apenas por brilharem longínquas?
Se estão muito além do toque,
Não estão tão além do que alcança a emoção.

Se visse o que há dentro,
Os antigos reinos encantados,
Repletos de jovens sonhos
E leves esperanças...

Não clamaria por heróis,
Por outra mão fria e displicente,
Que evanesce em algum ponto do caminho
Para nunca mais ser sentida.

Veria a luz intensa
De um coração em eternas chamas,
Repleto de vida e calor,
Mas entorpecido por memórias e mentiras.


9 de dez de 2016

Ébano


O tempo cavalga.
Perturba a paz com seus lunáticos urros famintos.
Devora suas próprias crias:
Consome horas, e estas,
Consomem os minutos,
E estes, as pequenas e doces esperanças.
Um banquete de horrores
Onde as luzes se apagam
E o belo se perde para sempre.

Mas tão distante,
Distante ao ponto do inatingível,
Reluz um sorriso magnânimo,
De um deus ébano,
Cuja voz estremesse o âmago esquecido
Onde soterrados, os sonhos jazem.
E por um instante a terra vibra,
Denuncia a vida que persiste na superfície.

Não seja outra preciosidade em um relicário frio.
Deixe livres minhas mãos
A te banharem de calor e desejo.
Persista sua beleza no breve campo das ilusões
Onde eu possa louvar sua pele e apelos.
Pois o sol já vem, e a magia da noite
Que torna livres todos os caminhos
Logo se despedirá.

3 de dez de 2016

A noite chove


A noite chove.
Escuridões líquidas escorrem dos telhados
Enquanto eu danço com os silêncios
Que torturam minha mente.

A noite chove.
Empoça nas ruas quase mortas
De semi claridades amareladas
Por onde ninguém se aproxima.

A noite chove.
Relâmpagos e aromas adentram
A alma imóvel, esquecida 
Insultam sonhos já adormecidos.

A noite chove.
Dissolve as doces esperanças
Descendo ao âmago morno da terra
Onde repousa um jovem coração.

2 de dez de 2016

Pintura


Como o pintor
Moendo suas pedras e ervas
Extraindo a vida e a cor
Da matéria morta
Para dar luz e preciosidade
Às infinitas belezas banais
Macero memórias e quimeras
Para extrair palavras
Que em versos dão formas eternas
Às sinestesias da alma.

Mas ao fim
Os sentimentos
Pincelados na tela fria
Pouco observados
Nada compreendidos
Repousam apagados
Em um leito de esquecimento
Distantes do calor
E da esperança
Incapazes de nutrir
O sangue de novos sonhos.