12 de abr de 2011

De dentro para fora, de fora para dentro


Penso que numa tarde dessas, 
num sol bonito desse,
o que se deveria fazer é ir ao campo cavalgar.
Sentir o vento, fazer amor com ele.
Acompanhar o voo de borboletas 
e bem-te-vis
e beija-flores.
Nadar num rio frio onde haja muito silêncio e flores boiando.
Penso que em dias como esse, Deus não se esconde lá fora, 
por entre nuvens e prédios cinzentos, 
Ele se aconchega aqui, 
sorrindo dentro de mim.

10 de abr de 2011

Desnecessário


É desnecessário externar minha dor e meu gozo.
É inútil cantar ou regurgitar minhas frases, palavras e apelos.
É medíocre essa tentativa desesperada de provar aos alheios que estou vivo, 
se para mim sinto que não.

Sofro da pior enfermidade que pode carregar um poeta:
Eu quero (quis) fazer alguma diferença,
Quis ver flores onde deixei sementes,
Quis ver rios onde fiz escorrer boas lágrimas,
Quis ver paraísos onde delineei sorrisos.

E tenho tanta vergonha em ter tentado te provar coisas pelas quais minha fé não brilha mais.

Mas todas as coisas continuam falando comigo,
Todos os objetos, molas, esculturas, mesas e ventiladores...
Tudo continua falando comigo,
Contando suas histórias, seus passados, meus passados.
E as estrelas continuam com aqueles gritos que me enlouquecem!
Gritos que só eu, meu Deus, ouço?
Elas gritam e gritam até que eu as admire;
orgulhosas!
Assim como o nascer e o pôr-do-sol; 
dois meninos arteiros que querem sempre chamar minha atenção.
Apenas a lua é silenciosa e calma.
Apenas a lua me oferece um pouco de paz.

Sonhei com mãos junto às minhas,
E borboletas amarrando fios transparentes ao meu corpo e me levitando para longe.

Já sonhei tão belamente...

Que a realidade apresenta-se para mim como uma cruel piada triste.

3 de abr de 2011

Algo permanece vivo


Um dia me disseram que as nuvens eram de algodão.
E eu sonhei por tanto tempo subir nas porteiras e árvores de manga e poder comer nuvens rosadas e doces.
Mas então descobri que todas estavam distantes demais, e eram brancas ou negras, e não eram de algodão, e não poderiam ser comidas.

Desisti de comer nuvens.

Um dia me disseram que eu poderia voar se esse fosse meu desejo.
E eu sonhei poder atravessar a cidade quando a noite lhe banha de estrelas e luzes, e bailar com brisas e zéfiros.
Mas então eu descobri que por nada eu conseguia levantar um centímetro do chão, e descobri que as madrugadas são perigosas e que se deve trancar todas as noites portas e janelas.

Desisti de voar.

Um dia me disseram que uma oração muda qualquer coisa.
E por entre lágrimas derramas pela dor de uma fé que queimava tanto, andei pelos cômodos implorando por um sinal, um som, um toque.
Mas então percebi que as guerras a meu redor não estavam cessando e que a única solução era correr.

Desisti de orar.

Um dia me foi dito que a coisa mais maravilhosa do universo era a imaginação.
E eu construí mais mundos e jardins que se possa somar. Eu corri ao lado de tantos seres encantados, eu cavalguei por tantos reinos, eu conjurei tantas magias.
Mas então descobri que nada era real (mesmo parecendo tanto!). 
Descobri que em algum momento tudo isso deve ficar para trás, ou o mundo não te aceita de volta, ou o mundo te repele.

Desisti de imaginar.

Um dia me foi dito que é necessário ter heróis.
E eu amei tanto os que encontrei! Eles, tão distantes e perfeitos, olhavam com tanto carinho para mim! Os busquei a cada instante e fiz de mim uma parte deles. Eles me salvaram... eles me salvaram.
Mas então fui olhado com olhos estranhos, como se eu estivesse agarrado a uma estátua de gesso morta, enquanto apenas eu via ao redor do meu corpo centelhas de Deus sorrindo.

Desisti dos que me salvaram.

Um dia me foi dito que tenho uma vida toda para me encontrar, que nunca é tarde demais.
Mas então descobri que não é de bom tom ter muitas dúvidas, que o tempo ruge como fera faminta. Que deve-se ser rápido, prático, produtivo e útil às pessoas.

Desisti de questionar.

Um dia me disseram que a coisa mais importante que se pode aprender é apenas amar, e em troca, amado ser...
Amar...
Amado ser...

Sinto que ainda tenho ar em meus pulmões, sangue em minhas veias, coração que pulsa no peito.

Percebo que disso ainda não desisti.
Eu ainda não desisti,
Pois ainda estou vivo.