23 de ago de 2012

São e salvo


Não dá pra dizer que nenhuma lágrima se espreme entre os cantos dos olhos e tenta escorrer quando as coisas já não vão tão bem.
Não dá pra dizer que os pesadelos partiram e que me sinto seguro em todas as madrugadas.
Não dá pra dizer que sempre acordo sorrindo e orando...

Mas ao seu lado eu me sinto sempre são e salvo.

Não dá pra dizer que nenhuma tarde é amarga e que nunca clamo por um mundo mais belo e mais distante.
Não dá pra dizer que a realidade me satisfaz completamente.
Não dá pra dizer que os sonhos estão sempre bem por perto...

Mas ao seu lado...

Porque sua voz vem doce como uma melodia de ninar e nesses momentos eu sei que você, 
mesmo tão distante, 
sorri.
Porque você diz que sou seu príncipe e que sem mim o mundo não seria o mesmo; essas amáveis mentiras que sempre me fazem tão bem.
Porque sei que tão breve estará aqui e se eu pedir que me abrace, me abraçará; se eu pedir que me beije, me beijará; se eu pedir que troque qualquer coisa para assistir o sol se por ao meu lado, você trocará.

Não posso dizer que tudo é certo e divino.
Não posso dizer que nunca recebo em minha memória visitas indesejáveis de um passado escuro e triste.
Não posso dizer que meus acertos superam meus erros, que minha força supera minha fraqueza, que a luz do meu coração supera a escuridão do meu espírito...

Mas ao seu lado eu me sinto bem. Eu me sinto perdoado e livre.
Eu me sinto são e salvo.

Agosto sou eu

 Sou este agosto.
Sou este vento frio e insuportavelmente seco nas manhãs.
Sou este céu de azul anêmico.
Sou estas tardes de sol, tanto sol, mas tão pouca luz.

Eu vou trancando...
As portas, os cadeados, os sentimentos, os olhos.
Vou esperando...
Que as coisas se curem sozinhas, se forem capazes,
Que o Jardim sobreviva, sem ser regado.

Tudo tão real, prático, metódico, previsível.
Os olhos não se fecharam para a beleza;
ainda ontem enxuguei suas lágrimas com pétalas vermelhas.
Mas em tão pouco tempo tudo se torna perecível, monótono.

Agosto é uma rocha imensa sobre o peito fraco e vacilante,
Agosto é uma fé que nunca mais brilhará a mesma,
Agosto é um gosto ranço, amargo, passado,
Agosto é cansado,
Agosto sou eu.

18 de ago de 2012

Porta de mim


Solto de sua mão por um instante. 
Repouso-te em lugar seguro, despeço-me com um sorriso.
Preciso abrir uma porta para dentro, ver o que há, ver o que resta.
Sinto medo de não sentir.

Vou a passos meigos, dando a falsa impressão de candura, pureza.
Não, em minhas aparências apenas a calma é verdadeira.

Abro a porta, e o que vejo, não vejo.
É escuro, é escuro o que há dentro de mim.
Ensaio uns passos, vou tateando...
Nada, nada além do som dos meus sapatos no chão negro.

Já não sei o quanto caminhei, já não sei se caminhei.
Já não sei se atravessei mesmo a porta de mim ou se o fora de mim é que é escuridão.

Sei que hoje, talvez mais do que sempre, sua falta se fez aqui.
Sei que hoje queria ouvir dos seus lábios que o mundo não sucumbe pelas pessoas densas.
Sei que hoje queria fugir com você, 
Acreditar que existe mesmo um lugar não muito distante para nós.

Mas é tarde, sinto cansaço.
Sinto cansaço e temo dormir...
Pois prevejo que mais uma noite meu corpo prenderá meu espírito.
Mais uma noite estarei encarcerado dentro mim.

12 de ago de 2012

Pesadelos


Não, há tempos não sonho com flores...
Embora o inverno (por causa dos ipês).
Apenas os pesadelos me acolhem; 
parecidos, distintos.
Pesadelos.
Pesadelos sem heróis, sem canções reconfortantes, sem perfumes e raios de sol.
Pesadelos úmidos, cáusticos, melancólicos.

Em algum momento tiveram vida aqueles que me perseguem?
Ou sou eu o demônio de mim mesmo?
Repartido aos cacos e com vontade própria de punição...

Às vezes canso... 
mesmo sendo a fera felina em que me converto para mais rápido fugir,
às vezes me canso de tanto correr, 
de tanto me esgueirar, de tanto me esconder.

Canso de ser sujo, enguiçado.

Então me levanto e volto a ser homem; e essa é a parte gloriosa do espetáculo:
Sempre sou maior e mais forte do que realmente sou.
Será?
Ou será que apenas quando o medo substitui o sangue de minha veias é que descubro meu real tamanho?

Em meus pesadelos não existem mais anjos e heróis ofertando um colo morno e macio, talvez porque eu já não precise mais tanto deles.
Em meus pesadelos, quem sabe, eu seja mais real do que neste instante sou.

11 de ago de 2012

Poesia há



Se me falta palavra não é por falta de poesia.
Poesia sempre há.

A poesia cresce nos brotos,
A poesia floresce nos ipês, primeiro nos rosas, depois nos amarelos (tão poderosos os amarelos!), enfim nos brancos.
A poesia brilha no sol, o escorre na chuva.
A poesia corre atrás de mim na rua, quando volto para casa depois do trabalho e me diz quase ao pé do ouvido: “Jesus te ama, viu!” e eu quero responder: “Amor é pouco diante do que ele deve sentir”, mas digo: “A você também!”
Poesia é o que não falta, não senhor, não senhora.
Há tanta poesia em certas vozes e melodias, em certos sorrisos e aromas.
Há tanta poesia também nos silêncios e na quietude.

O que falta sou eu, 
Eu instrumento ruim, falho, bruto.

3 de ago de 2012

Pedido



Leva-me novamente e para sempre ao virgem sonho imaculado,
Aos silêncios que permeiam os montes inatingíveis.
Traga-me, absorva-me aos bosques,
Embebeda-me do perfume que atribuo ao alecrim de início de noite.

Porque os dias são secos, e os ventos movem os galhos moles e já cansados das jovens árvores.
Porque as vozes não se calam, o corpo não deixa de suar e queimar, a mente não repousa.
Porque a noite é longa e eterna dentro dos seus segundos infinitos.

Silencia-os, silencia-me.
Injeta nesta célula infausta o elixir divino.
O puro sabor miraculoso das coisas simples.
Abra, arreganha estes olhos quando ambos fitarem o céu azul, cúpula de safira contrastando com as bolas de flores rosadas dos ipês ao inverno.

Guia-me, como o talho da terra guia as águas do rio.
Guia-me, mas faça-me acreditar ser livre, pois talvez, um dia, realmente o seja.
Permaneça aqui, mostra-me sempre sua face branda e alva.
E não deixe que eu me parta, frio e só, para tão longe,
Como no pesadelo em que as paredes me sugavam.

Encontrei


Corajoso fui quando corria pelas matas,
Quando roubava jabuticaba da vizinha brava,
Quando trepava nos muros altos,
Quando voava.

Corajoso fui quando agüentei quieto,
Quando perdoei com o corte ainda sangrando,
Quando silenciei querendo chorar,
Quando permaneci, querendo fugir.

Mas não há coragem em enfrentar os homens,
Em vencê-los, supera-los,
Não há vantagem em se encaixar ao sistema falho,
Há estupidez.

Por isso não bato, não suo, não rosno.
Por isso não chego na frente, não como o melhor pedaço, não tomo o vinho mais fino.
Pois sei das verdades que as crianças sabem e os adultos tentam matar.
Sei que a vida não é uma batalha entre fortes e fracos,
Sei que a vida é só, pura e simplesmente, a busca por amor.
E amor eu já encontrei.