26 de jun de 2017

Faça uma reverência


As palavras padecem
Como a luz cansada do sol
Todos os dias perece
Na linha tênue do horizonte
Sem deixar resquícios
Sem deixar saudade.

Talvez virão amanhã novas luzes
Novas palavras
Então não é tido por valioso
O sentimento que aos poucos parte
A voz que aos poucos se cala.

Anuncia-se um adeus sem espetáculo
Sem platéia ou palco
Já desce a grossa cortina
De puro silêncio.

Nenhum último bater de palmas
Apenas uma reverência solene
A adormecidos fantasmas.

Faz noite branda
A alma flutua calma.

A poesia sai de cena.

18 de jun de 2017

Salvation


Algo diz que ainda não é tarde demais,
Mas as vozes nunca passam de vozes;
Fantasmas inofensivos
Em um corredor escuro e vazio,
Fazendo barulhos pela noite
Quando deixam velhas memórias caírem e se partirem.

É a esperança algo além
Dessa bela estátua,
Uma deusa mitológica,
Aos pés da qual deixamos nossas oferendas,
Nossas súplicas e angústias,
Nunca respondidas?

E se chegar a hora de partir,
A hora em que a chuva cair suave
E não mais se poder ouvir o canto amargo da ingratidão,
As malas estarão prontas,
O coração estará aberto,
Ou a chave estará passada na porta?

Para onde quer que a fé tenha ido dessa vez,
Espero que não seja para longe demais.
É passado o tempo da renovação
E o tempo das flores ainda tardará.
Se não partirmos agora,
Podemos nunca mais conseguir.

17 de jun de 2017

Novo inverno


Sinto o vento forte passando por entre os galhos
Da adoecida árvore de memórias.
E embora seja belo o espetáculo
Das folhas sendo levadas ao céu e ao chão
Na tarde fria e cheia de silêncio do novo inverno,
Há essa tristeza impermutável
Em ver os pequenos pedaços desprendidos,
Entoando pequenas e ligeiras lamúrias
Por ninguém mais ouvidas.

Se há ainda alguma semente
Repousando com vida no solo gélido,
Não sabemos;
Se a primavera virá branda e bondosa,
Com aromas, amores e cores,
Tampouco.
Todas as verdades têm aspecto tão frágil,
Nós vemos como elas se decompõem
Acima das antigas certezas.

A quem podemos ainda enganar
Com esses assaltos de nostalgia
Que tentam refletir no espírito
Uma pureza nunca de fato possuída?
Inocência não é santidade.
Mas saiba que as mãos estarão abertas e mornas,
Ainda e sempre prontas.
Ao contrário dos olhos,
Elas não mentem.

6 de jun de 2017

Instalação


Os fios desencapados
Em consonância com a tinta descascada
Mostrando o passado mal pintado
Na parede onde o reboco ruía:

Que confusa instalação é a alma.

Veja bem que corpo e o espírito
Divergem em suas utopias,
Distopias,
Epifanias.

Há essa batalha ancestral.

Sem heróis, sem vilões;
Mocinhos ou bandidos.
Sem cores gritantes,
Mas agora, tons pasteis.

Cores fundidas por frio e fogo.

O santo e o herege
Com a mesma mão levantam mesmo pão
E o levam à mesma boca;
Ora pura, ora profana.

As minhas e as suas verdades são relativas, sabe disso.

Adormecido o ego,
O reflexo do ser se torna mais nítido.
E toda fome que havia, ressurge,
Agora, sempre, cada vez mais.