21 de ago de 2017

Ancestral


As manhãs ainda são plenas de ventos frios. Mas depois, depois daquela manhã de agosto em que com duas palavras você extinguiu a claridade, essas manhãs se tornaram um tanto disformes, míticas, preenchidas por sussurros mudos de saudade.
De alguma forma o que restou de você sempre será a memória antepassada a vagar calma pelos largos salões vazios da alma. Mas não vá embora... Fique para ver pelas janelas o fim de inverno levando as folhas dos ipês que um dia nos apadrinharam. 
Aquele galho partido que em um fevereiro floriu já não existe mais...
Você via alguma beleza na quase infantil forma que eu tinha de ser assustado e corajoso simultaneamente. Via alguma graça nas minhas esperanças meio desesperadas.
Depois daquele dias quietos, há sempre uma nova despedida. Poemas e prosas começam com um adeus, adeuses, ah Deus...
Mas fagulhas daqueles tempos mais dourados ainda espocam logo abaixo das nuvens. Em certas tardes pode-se ver meus olhos irradiando parca claridade.
Nos intervalos dessa ópera infausta da existência, quando mentes e tímpanos são agraciados com uma trégua, doces e quase nocivas utopias bailam no horizonte onde se perdem as vistas.
Eu sei que é uma heresia com a razão praticar rituais em louvor àqueles atemporais dias felizes. Peço perdão, mas com pouca convicção do meu pecado. Talvez não finde o tempo em que eu precise roubar um pouco de calor daquelas belezas ancestrais.
Algo do que fomos se protege da boca faminta do tempo.
Vez ou outra lembraremos em silêncio do amável descuido do destino em entrelaçar tão amavelmente nossos corações tão distantes. Novamente, para sempre apartados.

19 de ago de 2017

Primeiro passo


Uma rachadura, uma fresta, uma janela, uma porta, depois nenhuma parede;
Uma faísca, uma fagulha, um lume, uma claridade, depois a luz do sol;
Um sorriso, uma lágrima de olhos emocionados, um suspiro mais profundo;
Uma memória, um aroma, um reencontro, e depois um morno abraço...
Me desculpe por ter esquecido do que a doce moça disse: o amor é paciente, o amor é gentil.
Quase me enganei buscando no além-mar o que não existe do além-mim.
Aceita o lugar vazio ao meu lado para que eu diga como o mundo ainda tem um sorriso encantador às vezes, mesmo que tímido.
Nós estamos crescendo, então é normal que sintamos medo.
Lembra naqueles dias jovens? Éramos tão seguros e fortes, protegidos por nossa pureza, sonhos e imaginação.
Nossos antigos heróis já se despediram carinhosamente há tanto...
Mas ainda podemos mostrar que somos livres. Que não precisamos do quarto escuro onde a luz não entra.
O próprio universo reside dentro de nós porque nós somos uma partícula do amor, uma partícula de incalculável valor.
Quando quer que você possa vir, meus braços estarão abertos e meus olhos exalarão esperanças.
Para isso somos feitos, para dar o primeiro passo...
E o primeiro passo já é chegar.

13 de ago de 2017

13/08


O que os anos fazem às vezes é nos levar embora os milagres.
Tragados pelas guerras, por seus números, pelas marchas dos insanos, pela ignorância e pelo silêncio, a gente se esquece dos pequenos clarões gloriosos que adornam os dias...
No fundo do quintal se pode colher jabuticabas das mais doces e nem agosto levou todas as flores da primavera;
No fim da tarde, o vento seco cobriu a cidade de poeira e poesia e havia uma rua vazia de onde se via o sol se pondo rente às árvores;
A jovem noite morna derramou águas brandas e perfumadas na terra cansada.
Todos os dons ainda pulsam, ainda vibram, ainda brilham como ferramentas novas, e não é tristeza o que se achega ao fundo do peito, é vontade, é contrário da saudade, é a espera.
Todos aquele dias belos e mornos são enfim inofensivos, cristalizados como relíquias sagradas, residentes eternas da alma para que esta se lembre do puro e imaculado sabor da vida.
Nada é extinto ou esquecido,
Mas há mais caminho adiante do que o atravessado,
Sempre haverá.


12 de ago de 2017

Before sunset


Faltariam palavras tão doces quando o aroma da noite que nascia.
Faltariam imagens tão belas quanto o crepúsculo lilás adornado de pássaros negros.
Preciso que saiba que o coração ainda está repleto daquele sagrado combustível, e talvez ainda uma única faísca possa ser a ignição para toda aquela claridade que achamos ter perdido lá atrás.
Todas essas almas tão bonitas em suas essências ainda irão se encontrar. A ausência plena é momentânea. Há de ser.
Alguma força deve estar regendo essa apaixonante e insana orquestra.
A memória não irá trazer souvenirs desagradáveis às nossas mãos nesta noite. Não inundará nossos lábios do fel da saudade desta vez.
Aquela antiga canção é um delicado presente aos nossos sentidos cansados, não um insulto.
Tudo irá ficar bem. Tudo irá ficar bem...

8 de ago de 2017

É sempre agosto


Ao retornar o eterno agosto, já não havia mais saudades.
Mesmo que breve, o tempo agiu rígido e preciso em seus golpes.
Não soou necessária a repetição de mais nenhum adeus.
As expectativas despencaram todas, como as folhas vermelhas e cansadas no fim do inverno.
Aquele verde sereno e esperançoso, docilmente fugiu dos campos e dos olhos.
As águas não caem...
E o azul seco do céu já não conserva nada do reflexo daquele inesquecido olhar.
Aquele que você acreditou amar na temporada chuvosa, ainda sobrevive em algum lugar, por algum motivo. Mas não parece tardar a vinda do dia em que o coração não ouvirá mais a melodia meiga da tarde cinza e morna.
Queria que estivesse aqui...
Que não ao meu lado, ao menos dentro de mim.
Há alguns meses, após um solene pedido, a dor, tudo o que restava de tempos gloriosos, saiu do palco principal; jaz como uma humilde e quieta figurante num espetáculo confuso.
Eram menos complexos e menos pálidos os tempos em que o amor banido redigia os roteiros.
Agora as mãos e a pele fervem, mas a alma geme de frio, invisível.
É essa a percepção de não mais existir em nenhuma memória, em nenhum álbum de recordações esquecido na prateleira. De não mais possuir o encanto necessário no olhar para adornar de flores toda a aridez e obviedade que se tornou a realidade.
O que agora além do silêncio e da ausência irá preencher o que foi e o que virá a ser?
Não há um você e, aos poucos, vai-se deixando de haver um eu.
Já distante reside a opaca manhã de agosto em que a luz se despediu.
Mas agosto permanece.
De novo e ainda...
Sempre é agosto.

30 de jul de 2017

Água sob a ponte



É nítida a impressão ou a certeza de que nenhuma nova fotografia substituirá aquelas apagadas, que congelavam no aroma do tempo um tempo mais doce que este.
Para onde foram seus sonhos? Em que areias, em que mares, em que amanheceres você abre seu sorriso agora?
Em braços mais macios repousa sua paz, eu sei. Éramos tão jovens e tolos... Desconfio que sempre seremos.
Você deve se lembrar que agosto sempre me deixa menos carne e mais espírito. Eu me torno a pequena e velha cidade vazia, por onde os ventos e a poeira arrastam folhas secas e as flores amarelas dos ipês.
Nesses anos não imagina quantas novas teorias e certezas inúteis eu aprendi. Quantos olhares que se apagaram junto do por do sol. Quantos sentimentos extintos por si mesmos.
Sei que é ingratidão minha, mas me deixe ser também sentimental.
Alguns nascem para ser ponte, outras para as águas que rolam por baixo dela. Sempre próximos, nunca juntos.
Não seria gentil seu olhar condescendente, mas sinto falta da sua delicadeza. Essa saudade me faz levemente sorrir.
Naquelas tardes em que eu parava o olhar no horizonte, como se meu coração fosse um grande e solitário vale, eu conseguia ver as luzes do mundo que cintilavam além dele.
Meus olhos abraçavam o presente e o futuro.
Talvez algo de mim ainda está como era, lá atrás, olhando com esperança para o que pode existir.

17 de jul de 2017

Teia


Existe uma teia sagrada e inquebrável conectando todos os corações semelhantes. Quando um coração se acende, a claridade viaja pelos fios alcançando seus pares, indiferente ao tempo e ao espaço.
Nossa missão aqui talvez seja mais simples, menos pesada do que se apresenta: tecer mais fios.
Eu só preciso que você saiba que enquanto existem almas de gelo e dedos em chamas, tem uma moçada aí correndo pelo que é certo e o certo é tão grande, tão maior, tão delicado e tão perto.
Fazendo música com o olhar, perfumando a vida com palavras de amor.
O Messias disse: vocês são as porras de uns Deuses, cara!
Também quero a parte que me cabe nesse reino.
Por que chorar se não for de emoção?
Por que tanto medo de um reflexo que desaparecerá junto da última luz do sol?
É tolice não cair. É tolice ser uma fortaleza.
Num peito fechado as flores não brotam.
Sem calor, nada vinga.
A gente ainda está nas beiradas, jogando com versos sem rima e ritmo.
O coração ainda é o mesmo amador lá de trás.
Coração que não é profissional.
Coração que ama, ama mesmo sem saber amar.
A gente ainda está mordendo as bordas, a gente tem medo e timidez, mas olhe, a moça disse que a luz ainda está conosco e eu digo que a canção também está e o sangue e o suor e a lágrima e o sorriso.
Tudo se trata de estar aberto.
Vai ser preciso mergulhar dentro da própria carne e matar seus demônios com as próprias unhas e matar os demônios que dormem dentro desses demônios.
Porque existe um fio ligando todos os corações que são semelhantes e a coisa mais corajosa que você pode fazer, a coisa mais corajosa que você pode ser agora, é ser você.

14 de jul de 2017

Ao reflexo


Ao revés do nada que se era e do nada que se tinha, o espírito costumava inflar com o vento brando e pacífico de julho. Todas as grandes necessidades e falsas miragens, sucumbiam perante uma grandeza intraduzível, desconhecida, que parecia residir planos acima desse andar térreo onde no máximo se pode apenas manter as narinas acima da linha do lamaçal.
Quando o espírito esbarra em seu reflexo nas copas das árvores, nas sombras movediças pelo solo, sentia-se por si mesmo um amor etéreo, quase intangível, acetinado, que logo se dissipava, mas que por sua genuinidade e pureza deixava por entre os dedos resquícios de bons aromas e boas memórias.
Preciso que você saiba que eu ainda vejo você. Que eu sei. Que eu sinto o homem e o menino, o serafim e o demônio, e a todos rendo as graças do meu amor, como a todos o vento acaricia.
Não é vergonhosa a valsa entre suas claridades e escuridões, são belas as faíscas que se desprendem do seu coração, e eu não esquecerei disso.
O que veem, se veem, o que sentem ou supõem, jã não deve ter peso.
Entenda eu, eu sim, verdadeiramente, amo você.

6 de jul de 2017

Ainda faz bastante frio


É muito cedo para o charme das coisas em decadência. Para aquele ar de admiração e piedade que exalamos diante do que tentou muito ser, mas já não pode mais.
Mas é fato que algumas coisas precisam repousar no rol das desistências.
"Se a gente se repete, as coisas, mesmo as que pertencem à nossa própria fé, ou à nossa própria esperança, essas coisas começam a morrer... e como."
Ardente, intensa e estranhamente sóbria a dona desses sentimentos.
"Por isso não é possível dizer sempre as mesmas coisas, ainda que elas sejam tão importantes."
Ainda faz bastante frio... Dá um certo calor ouvir isso. Porque em uma atmosfera estupidamente complexa, sobrevive o poético na epiderme do que é plenamente banal.
Ainda faz bastante frio. O sol morno passando pelas copas das árvores desenha figuras abstratas e preguiçosas pelo pátio empoeirado. Alguém não distante queima as folhas deixadas na varanda pelo vento solitário da última noite. Isso é importante porque lá fora a vida é faminta, selvagem, mas aqui ela entoa cânticos mais simples. Esse cenário frágil cria uma ponte delicada para a já distante infância, quando ainda era possível rabiscar qualquer sonho na página branca que era a alma.
Não há como não guardar você, doce e incoerente deus dos olhos albinos. Será de você o epílogo belo de uma história ruim que já consumiu páginas demais.
"E continuaram..." Nem felizes, nem juntos, nem para sempre...
Mas continuaram, como todas as coisas são concebidas para continuar.
Não que o destino virá a passos largos trazendo milagres por entre os dedos, mas por um tempo seria de tom agradável dançar com ele sem tantos tropeços. Dois pra lá, dois pra cá. Calmamente.
Sobre a constante e aflitiva necessidade de fazer parte, isso será menos incômodo com o seguir da valsa, acredito.
Tolice dizer que tudo o que foi já não é mais. É. Mas já não será exatamente o mesmo, é o que o silêncio e a luminosidade das ruas me dizem. E junto a isso, também nós não seremos.

3 de jul de 2017

...


Olhe, você está tentando de novo escrever um novo conto de fadas nas costas da lápide onde foi enterrado o último final feliz.
É tão difícil entender que uma corrente não se parte adicionando mais elos a ela?
O mundo não está tremendamente esquisito, ou tremendamente insano, ou tremendamente perdido. Ele é. Então apenas pare de seguir o fluxo.
Não tente matar sua sede e sua fome com areia e veneno.
Não cairão sobre sua cabeça rosas brancas de luz. Deus, era só uma alegoria!
A teoria é sempre mais bonita, e mais insossa.
Mas alguma coisa ficou de tudo isso, não ficou?
 É inverno. Os ipês explodem mais cores neste ano do que em qualquer outro; e já se foram três anos... Eu sei que você não parou de contar.
É um bom tempo já, certo? É tempo suficiente.
Sem mais passagens de ida e volta compradas com antecedência. A beleza dos seus olhos está na verdade que eles começam a ver desnublados.
Algumas coisas são perenes: as lágrimas ao ser entoada a Ave Maria, a pequena e morna afeição que fica suspensa no ar por mais alguns instantes ao partir a mais recente ilusão.
O coração não é assim um animal tão mutante. Ainda bem.
Qual o próximo passo, não faço ideia. Apenas tente não quebrar as promessas ou a cara por um tempo, deve bastar.
Foi bonitinha, mas um tanto ingênua, a fantasia em que tentou esconder a esperança. "As mãos sempre entregam." Lembra?
É tarde, preciso desligar. Eu sei, eu sei. Você não entendeu nada.
Não era para entender.
Não faria diferença.
Boa noite.

29 de jun de 2017

Janelas quebradas




Estes olhos de agora,
Insones, desalumiados,
Mostram pouco ou menos que nada
Da verdadeira alma
Da qual são as cansadas janelas.

Por trás destas vidraças sujas,
Embaçadas, quebradas,
Há um céu tão limpo,
Tão profundamente azul,
Onde podemos flutuar sem medo, sem direção.

Além da superfície,
Multiversos inatingidos, intocados.
Sonhos mágicos, leves e belos,
Onde somos jovens e livres.

Memórias e esquecimentos
Adornam um labirinto infinito,
Onde dançamos com os limites do tempo,

Livres de sombras e escuridões movediças.

28 de jun de 2017

"Sleep on the floor"


Que tamanho de amor
Mereceria mais um aglomerado
Daqueles tolos versos cansados?

Que dores, que prazeres
Merecem um espaço
Nas esquecidas prateleiras da memória?

A beleza é tão fugaz, meu bem.
O peito ardente, os olhos de brilhos e chamas.
Tão breves...
Nada dura, nada persiste.

As ilusões são uma chuva pesada
Escorrendo pelos telhados, levando as flores dos ipês.
Sempre escorrendo embora...
Sempre sucumbindo ao sol nascente.



26 de jun de 2017

Faça uma reverência


As palavras padecem
Como a luz cansada do sol
Todos os dias perece
Na linha tênue do horizonte
Sem deixar resquícios
Sem deixar saudade.

Talvez virão amanhã novas luzes
Novas palavras
Então não é tido por valioso
O sentimento que aos poucos parte
A voz que aos poucos se cala.

Anuncia-se um adeus sem espetáculo
Sem platéia ou palco
Já desce a grossa cortina
De puro silêncio.

Nenhum último bater de palmas
Apenas uma reverência solene
A adormecidos fantasmas.

Faz noite branda
A alma flutua calma.

A poesia sai de cena.

18 de jun de 2017

Salvation


Algo diz que ainda não é tarde demais,
Mas as vozes nunca passam de vozes;
Fantasmas inofensivos
Em um corredor escuro e vazio,
Fazendo barulhos pela noite
Quando deixam velhas memórias caírem e se partirem.

É a esperança algo além
Dessa bela estátua,
Uma deusa mitológica,
Aos pés da qual deixamos nossas oferendas,
Nossas súplicas e angústias,
Nunca respondidas?

E se chegar a hora de partir,
A hora em que a chuva cair suave
E não mais se poder ouvir o canto amargo da ingratidão,
As malas estarão prontas,
O coração estará aberto,
Ou a chave estará passada na porta?

Para onde quer que a fé tenha ido dessa vez,
Espero que não seja para longe demais.
É passado o tempo da renovação
E o tempo das flores ainda tardará.
Se não partirmos agora,
Podemos nunca mais conseguir.

17 de jun de 2017

Novo inverno


Sinto o vento forte passando por entre os galhos
Da adoecida árvore de memórias.
E embora seja belo o espetáculo
Das folhas sendo levadas ao céu e ao chão
Na tarde fria e cheia de silêncio do novo inverno,
Há essa tristeza impermutável
Em ver os pequenos pedaços desprendidos,
Entoando pequenas e ligeiras lamúrias
Por ninguém mais ouvidas.

Se há ainda alguma semente
Repousando com vida no solo gélido,
Não sabemos;
Se a primavera virá branda e bondosa,
Com aromas, amores e cores,
Tampouco.
Todas as verdades têm aspecto tão frágil,
Nós vemos como elas se decompõem
Acima das antigas certezas.

A quem podemos ainda enganar
Com esses assaltos de nostalgia
Que tentam refletir no espírito
Uma pureza nunca de fato possuída?
Inocência não é santidade.
Mas saiba que as mãos estarão abertas e mornas,
Ainda e sempre prontas.
Ao contrário dos olhos,
Elas não mentem.

6 de jun de 2017

Instalação


Os fios desencapados
Em consonância com a tinta descascada
Mostrando o passado mal pintado
Na parede onde o reboco ruía:

Que confusa instalação é a alma.

Veja bem que corpo e o espírito
Divergem em suas utopias,
Distopias,
Epifanias.

Há essa batalha ancestral.

Sem heróis, sem vilões;
Mocinhos ou bandidos.
Sem cores gritantes,
Mas agora, tons pasteis.

Cores fundidas por frio e fogo.

O santo e o herege
Com a mesma mão levantam mesmo pão
E o levam à mesma boca;
Ora pura, ora profana.

As minhas e as suas verdades são relativas, sabe disso.

Adormecido o ego,
O reflexo do ser se torna mais nítido.
E toda fome que havia, ressurge,
Agora, sempre, cada vez mais.




25 de mai de 2017

Caravaneiro


Ficou tarde demais para algum remorso.
As estrelas se escondem esta noite.
Não faz frio, não há saudade.
A canção precisa continuar sendo entoada
E nós dançaremos nas ruas vazias pela madrugada
Antes da vinda do sol, antes que o encanto se dissipe com o orvalho.

Você era um menino bonito,
Tinha olhos com brilho e poesia,
Eles dizem.
Tantas armaduras escondem aquela criatura dócil
Que agora caminha sozinha pelas velhas trilhas
Deixadas por caravanas de sonhos
Que nunca chegam a lugar algum.

Caravanas que nunca cessaram a luminosa busca
Pelo elixir da vida, pelo oásis que se desmancha às vistas.
Acima, o fogo do sol; abaixo, o fogo da terra.
Mas passam derramando sementes, mesmo com pouca fé,
Passam derramando sementes.
Talvez quando o caminho terminar, na volta, haja flores a regar.

14 de mai de 2017

Último poema de amor


Farei para ti um oceano de palavras doces
Para que mergulhe fundo, de olhos abertos,
Sem medo.

Farei um caminho de palavras macias;
Pétalas da primavera que chegará;
Para que teus pés caminhem lentamente.

Farei das palavras teu fruto suculento,
Para te saciar, para te curar
De todo adeus, de toda ausência.

Farei das memórias palavras mornas,
Soltas à beira do fogo da noite;
Serão enfim as derrotas, vitórias.

Farei das últimas palavras de esperança,
O orvalho prestes a sucumbir ao sol nascente,
Um poema de amor.

9 de mai de 2017

Leitor


Também gosto de ler.
Tudo diz alguma coisa e gosto de ouvir isso.
Às vezes passo tempos olhando o jardim
E alguém brinca se estou esperando que as flores cresçam.
Mas eu estou lendo, lendo a beleza dali.
Como leio a beleza dos corpos e das almas.
Não precisa de palavra pra se ter poesia,
Deus sabia disso. Ainda sabe, suponho.
E quando percebi,
Seguia a vida da mesma forma como lia
Aquele livro de poemas que parecia tão bom,
Mas nem era.
Eu corria ávido os olhos pelas linhas,
Vendo o resto do mundo embaçado, de esgueio,
Esperando alcançar um poema que eu sabia não estar ali,
(Normalmente os livros vêm com índices),
Mas a esperança age desde as coisas imensas até as ínfimas,
Quem sabe não estava com outro nome?
Não, não estará,
Mas continuo o livro meio bom, meio ruim,
Com fé.
Assim vai também a vida, repito,
Esperando a leitura de um poema, de um corpo, de uma alma, de um lugar
Que sei que não estará lá por mim,
Mas vou porque a fome pelo caminho é maior que o cansaço dos pés,
E de alguma forma eu já conheço
O poema, o corpo, a alma e o lugar
Tão desejados:
Estão em mim.

7 de mai de 2017

Lar


Por onde seguia naquele momento,
O que era escombro e o que era construção?
Nas ruas ou na alma,
O que era esperança e o que era derrota?

Um sorriso só veio ao ver as crianças dançando.
Há uma realidade paralela entre futuro, passado e presente,
E por um tempo, enquanto puros, lá vivemos.
Quando se cresce, sabe-se que a canção uma hora termina.

Pelos cantos eu sentia a observação das memórias,
Com seus olhos vermelhos, hálito ainda quente.
E doeria esse cruzamento de olhar;
Mais certo seguir flutuando inconsciente pela noite vazia.

Nos sonhos, persiste, persiste
A busca infindável pelo saudoso e desconhecido lar;
Isso porque ainda não entendo, não sinto ou vejo:
Sou eu meu único e verdadeiro lar.

4 de mai de 2017

04/05


Todos os dias a alma sangra em silêncio;
Por Samir, por Alex, por Dandara.
Se somos mesmo Deuses,
Onde está nossa Luz Divina?

Frágeis criaturas patéticas.
Debulhando-se em lágrimas
Frente às frias telas de vidro,
Mas estáticas, inúteis.

O Amor do qual inflamos canções e poemas,
Vale de algo diante da fome, da solidão, do desprezo?
Esses templos abarrotados de hipócritas,
Esperando recompensas mundanas e perecíveis...

Que fazemos de fato da nossa fé?
Palavras ao vento, escambeiros, crianças aduláveis.
As mentiras fluem como um rio caudaloso e poluído;
Cegos, cegos e contaminados, todos nós.

Meu coração dói. Nosso coração dói.
Os raquíticos milagres não sustentam essa horda desolada.
Mais nenhum herói, nenhum Amor.
A alegorias dissolveram-se todas...

Mas eu tive a esperança de receber aquele bom dia,
De salvar a pequena borboleta, que quase sem vida, se debatia.
Trouxe mudas para o jardim.
Chegamos ao limite, mas não ao fim.


2 de mai de 2017

Poeira ao vento


A chuva ainda era o mais próximo que se podia chegar do céu.
Tinha também aquele olhar tímido demais diante do que viria,
A vez em que não queria estar em outro lugar do mundo,
Pois era seguro;
Na tela, A Bela e a Fera;
Em algum momento todos choram;
Nos filmes, nas memórias, no silêncio do último abraço.
Matilde repete todos os dias pra minha mente:
"Olha, a luz ainda está conosco."
E por luz, ora entendo esperança, ora entendo cegueira.
Já se foram trinta anos e tudo deveria estar dourado agora,
E está. Mas por uma casca fina do metal
Mais composto de prata e bronze de que ouro de fato.
Começa a descascar...
Toda gente sabe como odeio transições,
E começa descascar...
Ainda não vejo o interior, mas sei que o que brilha não é verdade.
Toda gente sabe que odeio transições,
E Deus me coloca no mundo quando o mundo é uma.
Ainda falo e falarei do amor como se ele estivesse aqui,
Como se ele existisse;
Como se ele existisse além desse desespero pela barganha.
Esperar reciprocidade é a forma poética de fazer uma ameaça.
A coisa foi por um caminho tão difuso que nem adeuses eu ouvia mais.
Tudo assim partia, e só.
A gente cresce e cessam as explicações.
Matilde estava certa:
A esta hora uma parte do mundo cria armas,
Outra metade tira o pó das flores.
E no meio disso há alguém profundamente acordado,
Um louco, certamente.
Estou acordado, mas não profundamente ao ponto da loucura.
Quando nada mais havia, havia a espera.
Agora não há.
Sairemos às ruas amanhã em busca de luzes e olhares,
Mas voltaremos os mesmos, sem luzes, sem olhares.
É um mérito dos eleitos viver o que realmente toca?
Nunca acreditei em eleitos... puta bobagem.
Somos todos pó aqui.
Poeira ao vento, lembra da canção?
Sem pouso, sem porto, sem lar.
Viajores.
E toda gente sabe, odeio transições.

28 de abr de 2017

30/04


Não há mais qualquer encanto
Nas ruínas deixadas
Por anjos displicentes.
Tudo se torna tão sóbrio e cristalino por fim.

E há mais mistério e beleza
Nas flores roxas da árvore atrás da parede,
Que nas amáveis e bem disfarçadas palavras.
A ausência está me deixando...

É abril, mas faz frio.
A semana teve o peso imensurável
Das lágrimas que ficaram presas nos olhos.
Por qual adeus deveria perder o sono desta vez?

Talvez fosse certo não carregar já tanto cansaço e silêncio,
E estar lá fora lutando juntos aos outros apunhalados.
Mas precisava velar por minhas flores,
Pelos meus restos sagrados.

Quando finalmente alguma lágrima escorreu,
Foi por ainda ver amor no peito surrado,
Morno e magro,
Mas, glórias, não mais por outra lunática alegoria.

Seria o princípio do fim?
Se sim, talvez o fim seja algo de generoso:
Leva embora a necessidade
De outros dedos entre os meus dedos.

Nos sonhos, quem vinha ao grito de socorro
Já não trajava grande beleza e forte armadura:
Era apenas eu mesmo, nem tão grande, ou tão pequeno.
Apenas vinha simples, sorrindo...

27 de abr de 2017

27/04


Quando faz muito silêncio
Eu posso ouvir meu próprio coração.
Um som quente,
Que me dá alívio e certo desespero.

A vida insiste.
E o insistir pode ser uma das coisas mais bonitas.
E certamente
Nada é mais triste que o silêncio no peito.

Certa vez, me lembro,
Ele batia tão forte que outro peito o sentia.
Mesmo dali, preso por ossos e carne,
Sua dança era notada.

Quantos murros já levou, não me importa.
Quando a vida tenta dele partir,
É assim que a chamam de volta.
Por isso eu entendo o que em você dói.

O psicanalista disse que somos o produto do meio.
Ele não deve estar errado, quem sabe.
Mas talvez sejamos mais o que fazemos desse produto.
Amanhã o país irá parar, mas nós ainda falaremos do amor.

25 de abr de 2017

Reboot


Quando a esperança me tomou o braço,
Me levando sorrindo, cantando,
Num dia de domingo cheio de sol
Não havia razão de olhar para trás,
Pensar do dia da volta e do adeus.
A vida é mesmo uma bobagem, uma irrelevância,
Para questionar a verdade
Que se apresenta a princípio
E que desaparece ao término.

A história muda os personagens,
Os efeitos especiais,
O gosto,
Os cenários,
Um reboot bem feito
Que será idêntico em sua essência
Às versões anteriores,
E anteriores,
E anteriores...

Ao abrir a porta novamente
Depois da indiferença plena e previsível,
Os móveis estavam no mesmo lugar.
Os porta-retratos,
A pequena caixa de papelão
Com a arrogante missão de ser um relicário.
Mas algo não era o mesmo.
Escondido entre os paraíso e o inferno
Em que sempre faz morado o coração,
Algo havia partido.

E era eu indo sozinho por uma estrada,
Nem mais bela nem menos bela que outras,
Mas sozinho.
Fazendo do caminho o próprio destino.
Que tolice seria sentir alguma saudade:
O que não foi uma mentira,
Foi uma trégua,
E tudo se finda.
Todas aquelas promessas e instantes,
O que além de pequenos sonhos
Que em alguma manhã fugirão para sempre da memória?

23 de abr de 2017

24/04



O que restou é o brilho fraco de luzes perecíveis.
Em todo milagre se esconde um adeus.
Em toda mágica, um preço.

E o silêncio é o único a não partir.
Até as memórias irão,
Por mais profundas, por mais belas.

Era frio e a lua nos olhava.
Era seguro, morno, terno.
E frágil, como flores esquecidas.

Não faria sentido encerrar o ciclo.
Dizer adeus com dignidade.
Todo fim é o mesmo fim.

Traga um dia à tona
Aquela beleza que tentou vestir.
Não duvido que ela exista.

E da dor, que fique a lição,
Mais que o pesar.
O amor existe. Só não aqui.

16 de abr de 2017

16/04


Outro perfume a ser lavado dos lençóis.
Outra imagem a ser raspada das paredes do peito.
É tarde demais para não correr mais o risco.
A canção triste já começou a tocar.

As nuvens desceram pesadas no trigésimo ano,
Mas não desaguaram, apenas observaram
Nosso desespero e despreparo
Em face das fragilidades dessa dura jornada sem fim.

Mais uma página à antologia de adeuses.
Mais uma alma a ser resgatada da névoa tóxica.
Mais uma batalha não finalizada.
É melhor não definirmos vítimas e algozes.

Dizia ser tão grande a luz,
Mas ela não clareou o bastante.
É verdade que os anjos não desistem?
Espero que sim.

6 de abr de 2017

Doía-me



Doía-me o mundo.
A falência dos corações,
A aridez absoluta das almas,
A obscenidades das infindáveis guerras.

Doía-me o poema tão sentido
Ao falso anjo querido.
A humilde ode ao único galho folhido do ipê
Que um dia representou a frágil encenação de um amor.

Doía-me o silêncio e os ruídos.
Tudo penetrando carne adentro,
Sem anestésicos, sem distrações;
A crueza displicente da realidade.

Doía-me feito ainda dói.
Por vezes, uma dor bonita,
Como a de carregar o peso grande
Da esperança que nunca sabe morrer por completo.

Doía-me feito ainda dói.
O coração farto demais
Para seu próprio peito,
Tão pequeno.

Doía-me feito ainda dói.
As distâncias todas: de milhas, de pensamentos.
Doía-me feito ainda dói.
As palavras tantas, mas tão fracas; dissolvidas no tempo.



5 de abr de 2017

Algo para lembrar



Tantas distâncias
Ali tão perto.
Cabelos castanhos ao vento, 
A estrada de pedras prateadas, 
Uma espécie de santa solidão. 

Qual seria o gosto do ar
Se sorvido acima da linha d'água?
Livre. 
Livre... 

Também o peito morno, macio.
Flores roubadas para sempre. 
Inútil batalha por memórias perecíveis. 
O beijo sublime nos lábios inatingíveis. 

Onde arde a vida
Em que corria, bradava, amava?
Sei que distante da vida amanhecida, 
Restos de um ontem sem sabor.

4 de abr de 2017

Não sobrou


Não sobrou nada para quebrar,
nada mais para amar;
Nenhum novo sol poente,
jardim florescente.

Não sobrou alguma ânsia pelo pranto,
os olhos vitrificados fitam o infinito.
Nenhuma paisagem se revela
para além das espessas brumas.

Não sobrou nada a ofertar,
nenhuma esperança a iluminar o sorriso.
Nenhuma resposta para as questões,
que ficaram pelas estradas que nunca voltamos.

Não sobrou espaço para luzes e sombras,
num coração enfim de concreto.
Nenhuma canção para trazer para perto
o que nunca esteve realmente aqui.

3 de abr de 2017

Subsolo


Amanhã todos vocês não estarão aqui.
É o que diz a a ciência.
É o que diz o despertador
Quando interrompe algum sonho bom demais.

Amanhã todo esse sentimento será mais fraco.
O escuro da noite se encarregará
De limpar as curvas mentais
Onde desabrocham memórias mal iluminadas.

As ruas, os lençóis, as luzes coloridas e giratórias,
O gole de cerveja, o gosto do beijo,
O cheio do tabaco, da maconha, do perfume,
Tudo se liquefará, escorrerá para o subsolo do consciente.

É quase um mistério o que habita esse submundo.
É meu; alma, mãos e coração fizeram,
Mas nada me pertence mais,
Tanto quanto nada nunca me pertenceu.

Libertadora e desesperadora essa impotência
Diante das agridoces saudades e das inúteis perspectivas.
Tudo o que é sólido pode e irá derreter...
Mas e o que não é?

1 de abr de 2017

Na ida


Eu falava de cores macias,
Passados ásperos.
E dos poemas que nasceram
E irão morrer em silêncio,
Longe de qualquer olhar,
De quaisquer lábios.

Éramos jovens,
Repletos do direito de errar.
Seduzidos por imagens,
Por mensagens,
Por quem?
Tudo se vai,
E eu sei bem.

Então não sorria na ida
Por teu caminho.
Quantas vezes
Meu caminho também?
Mas sorrio agora
Porque há um solo de guitarra
E uma voz dourada, meiga,
Dizendo haver alguma beleza
Em não entender o caminho também.

Transitório


É essa infantil ideia de imutabilidade
Que nos faz parecer menos desesperados;
Esse espetáculo espetacular,
Cuja hora do fechar das cortinas ignoramos solenemente.

Mas é tão pacífico pensar no oceano que nunca me conheceu.
É suave pensar que algo é relativamente para sempre.
O que me diriam os deuses se eu questionasse
Se o caminho certo é realmente o melhor caminho?

Todo esse tempo, apenas imploramos atenção aos desejos mesquinhos.
Expelindo ao vento o que ninguém mais se atreveria a carregar.
Naquele batalha ancestral, sua doçura furou meus olhos,
E agora na plena escuridão eu vejo tantas estrelas além daquelas.

E nunca fui eu a fazer as palavras, foram as palavras a me fazer.
Nada fui além do silêncio escurecido da noite.
E o que serei adormece numa ilha de sonhos distantes,
Onde apenas memórias valsam, como fantasmas exaustos.



21 de mar de 2017

Ser livre

Talvez um cético quanto aos misticismos como eu, deva admitir que há algo de revelador e irrefutável em algumas dessas mirabolantes e absurdas teorias orientais sobre a vida.
A nítida impressão que tenho é ter a alma numa ininterrupta e insolucionável guerra santa .
E sabendo que a minha voz, a minha palavra, a minha sombra e a minha luz não alteram coisa alguma, por que insistir? Essa pequena coisa frágil e deformada que talvez se chame orgulho nunca poderia ser forte o bastante para alavancar o desejo ardente que às vezes brota da alma e tenta fazer de mais uma existência fugaz, ordinária, uma vida digna de uma vasta e poética biografia.
Vai saber a fé seja uma coisa tão misteriosa como dizem os santificados, a nos mover as engrenagens mesmo sem darmos combustível puro aos motores.
Se a gente abre a caixa rubra de memórias, vê que nada mais parece ser o mesmo, mas tudo continua exatamente igual. O espírito não aceita mais as velhas e desbotadas fantasias; mas mal se lembra de modificar o que reside abaixo das máscaras.
Das centenas de milhares de palavras gastas, talvez o significado seja este: ser livre. Cores, sabores, amores, tudo clama apenas o mesmo: liberdade. E liberdade é tão grande. É além de ir à rua sem medo, além de amar sem vergonha, além das manhãs de domingo livres, além da carne, além até do que disse a sábia... "Liberdade é não ter medo.". É Além. Só isso que sei; é também fome, saudade, insônia, dúvida. Deus! Se tem uma coisa que é muita coisa, é a liberdade!
A gente então vai bolando formas de fingir ser livre. Seja pelo prazer, pelo orgulho, pelo egoísmo, pelo amor, pela benevolência, ou pela poesia. E a poesia é uma coisa linda! Porque ela sorri e abraça todas as coisas com o mesmo amor. A poesia é uma mãe.
Então fui livre assim, poetizando a dor, o amor, a lonjura e a proximidade. Tudo o que é grande demais cabe dentro da poesia, e ela não reclama, não pede mais espaço, não chora ao ser ignorada.
E ao contrário da carne, da vontade, da esperança, da promessa, a poesia não sucumbe; vai saltando de coração em coração, fazendo morada provisória em cada peito aberto que a convida.



"Multiverso", meu mais recente livro, está disponível em:

https://www.clubedeautores.com.br/book/230428--Multiverso?topic=fotografia#.WNIRhYErIdU



9 de mar de 2017

Lançamento de "Multiverso"


Da ilusão da matéria (a energia em aparente repouso) aos estímulos sentimentais (intangíveis verdades em constante ebulição) somos aglomerados de luzes, sombras, planos distintos. Múltiplos universos. Criaturas com começo, sem fim, habitando o pensamento do que é Infinito. O que não entendemos, sentimos, e às vezes, isso basta. 
Multiverso é um diário de bordo de uma viagem ininterrupta pelo vórtice das sensações. O esforço de imprimir através do verso e da prosa percepções da alma.
O livro é inciado pelo poema e encerrado pela prosa. Formas distintas de expressão sobre épocas e assuntos distintos.
Muitas vezes mais duro e árido, mas sem abdicar da capacidade de filtrar a beleza que reside em tantas coisas, o poema traz a voz do homem diante das realidades frenéticas e dos sentimentos intensos a que é exposto. Já a prosa virá leve e de lá de trás, dos distantes tempos idos de meninice. 14 historietas relembram como era o mundo visto através da simplicidade do olhar infantil. Uma narração singela de uma época onde tudo era cheio de cor e encanto.
Qual a conexão do homem com o menino?
Seja na infância ou na maturidade, a poesia sempre foi e será a querida menina que reside nos olhos.
Estimo então que a poesia cumpra seu papel de dar contorno e vida aos tantos e tão distintos sentimentos. Que ela seja uma forma de resistência diante das amarguras dos dias, que seja a canção saudosa pelas luzes que se apagaram, que seja o som do sorriso em resposta ao coração que se aconchega em memórias gentis.
Longe da obrigação de ser um mero estilo literário, que a poesia se faça um estilo de alma, por onde soará o grito contido, escorrerá a lágrima de esperança, se insistirá na ressurreição da fé, se lutará ainda outra vez pelo Amor.




Venda física e digital: https://www.clubedeautores.com.br/book/230428--Multiverso#.WMX6roErIdV

27 de fev de 2017

Alma



É tanta alma,
Tamanha alma,
Que me escorre pelos olhos
Um oceano ainda mais profundo,
Ainda mais pacífico.

E se não posso ir tão alto
Com essas frágeis asas de palha,
Em risco de feito Ícaro
Ser lançado sem piedade ao solo,
Posso mergulhar tão bela e livremente.

Um dia, desvestido da carne efêmera,
Desvestido dos tantos indelicados temores;
O universo será visto em toda sua vastidão
Com olhos lavados,
Puros e leves, finalmente.

Um dia, a alma prisioneira
Estará outra vez dissolvida
Nos perfumes e encantos,
Como no início,
Quando não havia passado ou futuro.

Um dia, depois de tanta espera,
Tanta luta;
Um dia, depois que o tempo adormecer,
Nos reencontraremos
E seremos lindamente azuis sob o luar.



Em breve, "Multiverso".

12 de fev de 2017

Carolina


Como tá o dia, Dona Carolina?
E se chove, mulher, como vai ser?
O barraco tá limpo, as crianças, alimentadas.
Descansa um tiquinho,
Deita esse fardo no chão,
Vai coser poesia.

A gente aqui continua tudo marginal.
A sociedade vai correndo rio acima,
E a gente daqui só observa com nossa sina nas costas.
Desde quando a água cai para baixo é parecido:
A gente parece não ter vez, não.

Que vida dura, Dona Carolina!
É tanta humilhação por um pedaço de pão!
Será que um dia a coisa reverte?
Pelo andar dessa carroça, sei não...
Mas a gente resiste, tá no nosso sangue.
A gente beija a lona, mas levanta e pulso cerrado.

Deus lhe guarde aí no céu, Dona Carolina.
Certeza que ele fez pra senhora 
Aquele vestido bonito de noite estrelada.
Por aqui, sua palavra continua forte e viva
Dando voz e coragem
À vida de tantas outras Carolinas.


Singela homenagem a Carolina Maria de Jesus. 
Mulher, brasileira, mãe, guerreira.


9 de fev de 2017

Mar negro



Dia após dia: fuga!
Braçadas exaustas
Neste infinito mar negro.

Nossa carne ferida,
Nosso sangue que flui,
A fome que ruge aos nossos pés.

Devoram-nos aos pedaços,
Sem pudor ou misericórdia.
Contra as bestas dos abismos,
Nada podemos.

Uma vastidão sem lei,
Sem decência,
Sem justiça,
Sem escrúpulo.

Aves carnicentas pairam pacientes.
Logo,
De nós,
Um banquete restos.

Frágeis iscas de um ciclo corrupto,
Fétido, desgovernado.
Marginais atirados às feras,
Saciando a voracidade dos demônios.


4 de fev de 2017

Sentimentos colateais


Dançando sobre a superfície,
Cansativa tempestade.
Rugidos entediantes,
Ameaças ilegítimas.
Sal ao ar de luzes azuladas.

Na profundeza, silêncio.
Sóbria calmaria
Repousando sob pressão.
Claridades artificiais,
Escuridões legítimas.

Pelas ondas, à deriva,
Sentimentos colaterais.
Memórias de um outro tempo,
Um outro espaço,
Outro eu.

Nos abismos, o desprendimento.
O esquecimento da necessidade,
Da ânsia por calor;
Da vontade de navegar
Em outros idênticos mares.

3 de fev de 2017

Finite


O deserto, tamanho deserto,
Pequeno demais para almas
Tão fartas.
Pequeno demais para tantos pecados,
Para tanto desejo sujo,
Para tanta vergonha,
Para tanto silêncio.

Falta espaço, falta céu, falta sol.
É pouco, pouco demais.
Vá, e esconda suas pegadas,
Ante mesmo da dança
Das areias e dos ventos,
Esconda suas pegadas,
Leva tua memória daqui.

Devolva-me meu nada
Furtado por falsas vozes
Falsos toques,
Falsos olhares.
Não há falta, não há lar,
Ou dor ou amor:
Apenas o nada há.

27 de jan de 2017

Canção d'água



Não há saudade nos cantos do mar.
Os tons suaves não ferem...
Eles embalam gentilmente um coração regresso.

Nada a perder em águas frias e profundas;
Teus olhos.
Os pés afundam na areia morna.

No infinito horizonte azul, a tempestade passada.
Rugidos frágeis, distantes.
De que serve tua compaixão, já não me importa.

Corro livre e só por uma orla iluminada agora,
E de tudo que era tanto, nada resta.
A alma flutua.

A Paz, elegante senhora, sorri.
Como uma mãe, acalenta-me em braços perfumados.
Dos olhos, escorrem alívios.

Enfim, livres;
Eu, nós;
De mim.

19 de jan de 2017

No âmago do oceano



No âmago do oceano
Cujas águas nunca me queimaram
Tendo os olhos beijados
Por cores macias
Que sorriam e envolviam
No bailar sublime da profundeza
Regado aos fractais luminosos da superfície
Tanta imensidão apenas minha
Sem palavras
Tratados
Promessas
Nada a ser quebrado
Nada a dizer adeus
Nenhum espaço para outras lágrimas
Nenhuma cicatriz
Apenas a alma dissolvida
Em água
Luz
Sal
E o sagrado silêncio
Como de uma catedral submersa
Sacramentando cada partícula
Do infinito instante
Desacorrentado do passado e do futuro
A paz magnânima de nada ser e tudo estar
Do âmago do oceano
Tão morno e belo
Nunca me deixe emergir.


18 de jan de 2017

Enquanto não amanhece



Tamanha inocência
A saudade daqueles caminhos
Que nunca foram de fato dos meus passos.

Tamanha tolice temer o futuro
Que em tudo será como o passado;
Novos maltrapilhos dias.

Frágeis cintilâncias...
O sonho que é resta
É ter de volta o sonho.

E é tão cedo para manter o olhar
Tão mais ao chão que às estrelas.
Só que chove, chove.

Pesados escombros
Escondem as relíquias da alma.
Apenas vozes fracas vêm do fundo.

Tantas missivas de socorro sem resposta.
Vamos poupar os dedos, as palavras,
Adormecer até o retorno do sol.