28 de dez de 2013

"Processo ex-tático"


Deitei-me naquele véu pálido de luar,
E nos meus silêncios tão inquietos gritava por socorro.
Mas nada doía, nada queimava,
E era esta a dor mais insana, a chama mais faminta:
O não doer, o não queimar.

Deite-me no véu pálido do luar
Porque qualquer braço, qualquer ombro, qualquer peito
Se fazia distante demais.
Tão distante quanto o luar sobre a terra úmida 
É do seu foco de nascimento. 

Deitei e adormeci.
Os sonhos, cavalgantes, não demoraram.
Em instantes, mais heróis, monstros, asas e correntes
Que se possa contar!
Minha alma deleitando-se de suas quimeras...

Desperto, o silêncio.
Mas chegou a chuva; caindo melodiosa como boa música 
Sobre este telhado que não abriga mais meu verdadeiro lar.
Havia o cheiro e a saudade de um futuro desconhecido, aguardado.
Havia a mim, incompleto e lento, mas vivo.

27 de dez de 2013

Promessas de Ano Novo


Um último minuto para as mesmas canções.
Um minuto de paz.
Um perfume oculto que devolve a divindade que um dia meus sonhos
possuíram.
Um momento para chorar meus adeuses, para sorrir minhas escolhas.
Observar com todo carinho cada um dos brotos do jasmineiro à minha porta.

Restará para sempre em mim aquela estrada junto do seu cheiro.
Restará em mim a humildade esculpida nas mãos, o elogio singelo.
Restarão em mim o abraço desejado e a lágrima que não evidenciei.
Olhe em meus olhos, colha seu perdão.

Um instante para agradecer a lição que trouxe cada uma das minhas
cicatrizes; um instante para agradecer a fé que retornou depois das várias
estações em que esteve dispersa.
Amar, com todo meu coração e alma, todos aqueles que acenderam estas
pequenas luzes que existem em mim.

Permanecerá em mim a criança; não a criança que sentia medo e vergonha, mas a criança que sabia voar.
Permanecerá em mim o beijo, o gosto.
Permanecerão em mim todos os instantes de contemplação das estrelas, dos imensuráveis milagres sutis.
Um tempo para parar, tomar fôlego, reciclar o brilho do olhar e mergulhar com toda força novamente neste oceano obscuro e fascinante que é a vida.

Renascerá em mim a esperança, a admiração pelos sorrisos ingênuos e
olhares doces, iguais aos dos anjos.
Renascerá em mim a voz dos Heróis que partiram sem se despedir: eles
voltam, eles voltam...
Renascerá em mim a claridade perdida, as asas murchas, o amor.
O Amor...


De "Em meu Jardim Secreto..."

26 de dez de 2013

Louvores


Louvado seja o caminho desprovido de sentido e de fim, com todos seus
adeuses não ditos, guardados.
Louvada seja a poesia que cura, a palavra que salva. A poesia que me encontrou, a palavra que me foi dita.
Louvada seja a lágrima que salta confusa por culpa do solavanco não previsto, e marca meu rosto, escorre por minhas pernas e purifica meus passos.
Louvado seja meu medo por sua prudência e ainda mais louvada seja sua
amada filha bastarda: minha ousadia.
Louvada seja a espera fria e firme como pedra, assim como a esperança frágil e bela como flor. Louvada seja, insisto, a esperança: minha substituta para o Amor.
Louvada seja também a fé. A fé que ilude e que salva. A fé que cura e que
enlouquece. Louvada seja; embora as tantas mentiras que transformou em consolo e as tantas verdades que transformou em cinzas.
Louvadas sejam as transformações, das ínfimas às imensas, pois que são o
sobrenome da Vida.
Louvadas sejam até mesmo a dor e a saudade, já que fazem recordar, nós, seres frios e brutos, que temos um coração, uma alma.
Louvados sejam os olhares que se cruzam e permitem frutificar primeiro os sorrisos, depois as canções, por fim, o sentimento...
Louvados sejamos eu e você, o eu que existe, o você que invento.



De "Em meu Jardim Secreto..."

25 de dez de 2013

Perdoo


Eu perdoo minha dor, mesmo tão amarga em meus lábios, rançosa. 
Pois é como terra fria onde, se Deus quiser, algo vai crescer em direção ao sol.
Eu perdoo minha fome, insana, atroz, mesquinha.
Porque talvez, quem sabe, seja ela que me obriga a não desistir. 
Eu perdoo a ausência, pois há vez que é tão bonita a saudade. 
Eu perdoo a distância, pois é bom saber-nos correndo ao encontro. 
Eu perdoo o silêncio, porque ele não tem culpa de nada...
Eu perdoo a dúvida: serei eu a água evaporada que comporá as nuvens para o próximo temporal? Se sim, não trarei apenas desconforto, ventos e pavores, também aguarei o girassol da calçada. 

Eu perdoo também o medo, mas só porque um dia ele passa...




De "Mais de mil palavras - A poesia da imagem"

23 de dez de 2013

"Ser como o rio que flui"

A vida é tão longa,
E nós, tão precipitados.
Poderíamos ter sofrido depois de viver e sorrir tanto,
Mas escolhemos sofrer antes de sorrir e viver.
Poderíamos, talvez, nem sofrer.

Quem sou eu para questionar tão sólidas razões?
Um mero passageiro para a Terra do Nunca.
Mas eu escolheria uma imensa dor, adornada de flores de doces memórias,
A uma dor menor adornada de espinhos de expectativas não cumpridas.

Quem somos nós para definir para que lado devem seguir os rios?
Há os que descem, há os que sobem, há os que desafiam o que deles é esperado...
Mas todos, todos serão mar...
Talvez também fôssemos mar um dia.
Mas não saberíamos disso se não fôssemos doces e leves riachos antes.

Não carregarei mais outra culpa.
Estou aqui, e estou tão vivo.
A porta está trancada, mas as chaves estão nas minhas mãos.
Bata, e eu abrirei.

22 de dez de 2013

Confesso


Assumo a culpa que nos cabe, fique livre.
Lembre-se de mim como o gentil covarde.
O hesitante cavaleiro...
Não será um julgamento injusto, não mentirás.

Aceito o sangue nas minhas mãos após o estrangulamento do sonho.
Aceito.
E se me justifico é por ter as palavras soltas demais, apenas.
Se justifico, diferença nenhuma fará mesmo.

Que é a vida, meu bem?
Uma colcha de retalhos tão confusa, esburacada.
Ontem era amor, hoje é distância.
Ontem era intensidade, hoje, só saudade.

Vamos nos habituando aos absurdos, não é mesmo?
O absurdo de partir, o absurdo de ficar.
Viver, apenas viver, já é um contrassenso.
Não é, meu bem?

Mas a gente vive. Ou pensa que sim.
E segue. Segue aceitando os sacrifícios.
Aceitando as perdas, aceitando ser mal visto.
A gente vive, porque tem que viver.

Não te esquecerei, meu bem.
As lágrimas que brotaram continuam presas nos olhos.
E um instrumento em particular sempre se sobressairá
Em qualquer canção. Fará um sorriso sutil nascer...

Dói, meu bem.
Mas passa; deve passar.
Hoje, por exemplo, nem chorei.
Mas também não deixei de te amar.

15 de dez de 2013

Febre


O corpo é sempre dócil e pacífico,
Já a alma, arde, crepita, flameja.
A alma escorre lentamente pelos poros, pelos cheiros e desejos,
Como lava sanguinolenta, como ouro líquido, como dor desejada.

O corpo então transpira, reage, enrijece. 
Clama, suplica, contorce-se,
Mas a alma não ouve, não sente, não percebe,
Apenas queima... queima... queima!

É a libertação!
É a fênix ressurgindo em chamas absurdas!
São as feridas, imensas, profundas, sendo cauterizadas.
E as lágrimas vaporizam-se antes de despencarem dos olhos...

Sou eu.
Recebendo os milagres pelos quais roguei, 
Um a um, lentamente; como previa o vidente.
Sou eu...

Decompondo-me, tornando-me cinza, adubando-me; gemendo.
Gritando no mais absoluto silêncio.
Sou eu; e é você dentro de mim e por mim todo.
Sou eu, talvez finalmente, vivo.

14 de dez de 2013

Quem me dera ser vento


Quem me dera ser vento...
Para cavalgar pelos picos e campos,
Acariciar faces e flores,
Secar lágrimas e espalhar perfumes.

Quem me dera ser vento,
Para afastar nuvens densas,
Fazer bailar os cabelos,
Levantar pássaros e pipas.

Quem me dera ser vento,
Para estar mais próximo,
Estar por você todo,
Refrescar sua pele ao me sentir.

Quem me dera ser vento,
Para não estar confinado, limitado.
Quem me dera ser vento,
Para não ter medo.

Quem me dera ser vento,
Para ser eu mesmo.
Quem me dera ser vento,

Para ser livre.

10 de dez de 2013

Eu, palhaço



Não preciso ser mais forte que nada, não preciso ser mais belo que nada, não preciso ser mais que nada. Preciso apenas ser eu mesmo, e zombar disto.
Seu pranto se dissolve no meu sorriso.
Minha máscara é a menor do mundo.
Sou mais estado de espírito que Homem.
Sou apenas uma coisa, tanto por dentro quanto por fora: sou infinito.
Sou o prazer do risco torto de maquiagem forte no rosto; sou o único que consegue fazer rir a dor do ser humano.
Não tenho um lindo sorriso, mas nunca deixo de sorrir.
Não tenho poder mágico, mas nunca deixo de fazer sorrir.
Meu espírito é todo de florinhas douradas que são entregues a todos que
cruzam com meu caminho, com meu olhar, com minha alegria.
Aprendi a brincar de viver, brincar de amar; brincar de ser menino, brincar de ser gente grande.
Sou o que atravessa o mundo, mas nunca sai completamente do lugar.
Sou multiplicável.
Sou a pureza que cresceu; a inocência que não aceitou ser perdida.
Meus sapatos compridos e coloridos jamais serão usados para pisar em
alguém.
Minhas roupas brilhantes são pinguinhos de luz na escuridão do mundo.
Meu coração é um pedaço de doce que quanto mais se divide, mais aumenta.

Minha alma é pura felicidade.

7 de dez de 2013

Pequena Tristeza


Ó pequena Tristeza, doce princesa, não se aproxime, não se aproxime tanto de mim.
Deixe-me ver o sol se pondo sem me importar com o local onde ele irá dormir.
Deixe-me caminhar com meus passos leves e lentos pelas avenidas vagas,
sentir o perfume dos jardins simplesinhos, o cheiro da refeição saindo pelas janelas.

Ó pequena Tristeza, velha conhecida, deixe-me de olhos abertos para os ínfimos milagres.
Deixe em paz minha tão bonita Fé no amor.
Deixe reluzir a ínfima claridade do meu espírito pequeno.
Deixe as crianças correrem ao meu redor.

Ó pequena Tristeza, fiel companheira, não faça barulho,
Deixe meu Medo dormir seu sono justo.
Caminhamos tantos anos juntos, 
Em tantos momentos era ele meu único e bom amigo.
Deixe, deixe meu Medo sonhar com a Coragem, seu amor platônico.

Ó pequena Tristeza, bela e fria donzela, sente-se aqui.
Ouça esta canção tão bonita...
Você não é má-vinda, eu até admiro sua beleza, sabe disso.
Já tivemos nossos bons momentos, lembra?

Mas eu peço, de toda alma, pequena Tristeza.
Ouça apenas mais esta canção,
Roube apenas mais este sorriso,
E vá de volta...
Vá de volta para o canto que já herdou em meu coração.

6 de dez de 2013


Está tudo aqui dentro, acontecendo ao mesmo tempo: agora.
O adeus não dito, bendito.
O amor, sutil e puro, como o orvalho da manhã sobre os capinzais,
após as tempestades da noite quente.
O desejo, perfumado e incendiário, como as damas da madrugada;
uma brasa acariciada pelas mãos.

Você... um diamante, reluzindo do alto de uma montanha coberta por cerejeiras em flor; 
e eu, um simples peregrino de trilhas poeirentas, trilhas já à beira do esquecimento, 
olho para cima, humildemente, desejando mais e mais daquela luz tão distante e tão, tão próxima.

Olhando levemente os passos dados, vejo que os últimos antes desta maravilhosa visão não aparecem no chão;
Sei bem o porquê:
É meu coração que já não batia, pois um dia lhe disseram: não há o que valha!

Mas há! E como há!

O que não há é saudade de qualquer jardim outrora cultivado; 
abençoados e rigorosos invernos e verões deram cabo de todos.

Há... Há saudade do futuro.
Saudade do sabor ainda são sentido; imaginado;
Da canção ainda inaudível, não composta, não tocada,
Do sorriso ainda não visto,
Do olhar que ainda não acariciou meu olhar.
Há saudade do brilho desse diamante que minhas mãos ainda não alcançaram, mas que meu coração, revivido e pulsante, já guarda dentro de si...

Como um farol,
Como a lua,
Como o sol.

3 de dez de 2013

Blues


Sonhei contigo numa certa tarde poeirenta. 
E enquanto segurava suas mãos, admirava seu sorriso, ainda tão distante, suavemente eu suspirava: Jesus Cristo, de onde quer que esteja, eu sei que você continua velando por nós...
Em meio aos meus fracos poderes mágicos, escalagens nos céus, volitações sobre os campos de flores; estava contigo...
Então passei a nos sentir juntos todos os dias. E em alguns dias, em todos os instantes.

Você estava no meu café da manhã, no alimento que saciava as sutis necessidades do meu corpo enquanto eu admirava o céu e sentia a brisa que vinha pelas frestas da janela.
Estava nas canções que penetravam em meu âmago e explicavam tudo de mim... saciando minha alma.
Estava no descer a rua à tarde com o sol se pondo às costas, enquanto meu coração me dizia para apenas fugir, fugir, fugir...
Estava na luz artificial que iluminava meu quarto à noite enquanto eu rabiscava minhas poesias tortas; já estava em toda minha existência, esta que até então ninguém nunca pôde provar que realmente é uma vida.
Estava em todas minhas flores que nasceram e murcharam, e na minha história que nunca deveria ter sido contada.
Estava na mais esplendorosa quimera que minha imaginação seja capaz de conceber, e no simples desejo de estar ao seu lado numa sessão de cinema, em algum domingo quente desses...

Está no blues que nasce quando toma fôlego minha dor...

Estava no semblante calmo e na voz serena da menina, que após ter a sua vida salva pela esperança, cantava: Esta minha luzinha vou deixar brilhar, vou deixar brilhar. Escondê-la sob um alqueire, não, vou deixá-la brilhar...