25 de mar de 2011

Recuo perante o luar


Perdidos uma hora no futuro, sustentados por meses dum passado confuso.
Duas taças pela metade, duas garrafas vazias e um gato que não consegue trepar no muro para escapar.
Duas lascas de espíritos distintos abraçados no solo frio duma madrugada clara.
Luzes duplicadas em nossas pupilas embriagadas.

O torpor de Dionísio preenche as lacunas ensanguentadas, estanca o jorrar dos medos e dúvidas, amacia nossos atritos.

Seus cabelos permanecem tão macios quanto na primeira vez em que os enrolei com meus dedos frios e magros. Estava nas pontas destes aquele que tentou me salvar, aquele a quem pedi socorro, aquele por quem implorei, aquele a quem eu não soube amar.

A lua faz-se duas, uma para cada um de nós.
As nuvens bailam como se nos apresentassem “O lago dos cisnes”,
E meus olhos alagam-se como marés.

Em sua cama nos deitamos nus.
Nos tacamos como que deslizando os dedos por um mapa recém desenhado.
E sem emitir qualquer ruído ou exigir qualquer explicação tento, mais desta vez, permitir que você me tenha para si.
Tento...
Mas embora as estrelas, o intenso luar, o chão frio e o álcool; faço-te recuar.
Mais uma vez, tranco-me como cadeado enferrujado, e meu corpo grita de lábios fechados, ensurdecedoramente: basta!

Ainda não consigo sonhar.
Ainda não consigo sonhar...

21 de mar de 2011

Trôpego trânsito


O céu que mais amo, por vezes é esse cinza, que tanto chora.
As canções que me guiam são aquelas compostas por deuses,
meses ou anos atrás.
E embora tudo em mim seja mutável tal qual nuvens, permaneço por completo o mesmo.
Eu, que tão facilmente transito por purgatórios, montanhas, cemitérios e jardins.
Ainda temo os mesmos temores, e desejo os mesmos amores.
A coragem que trajo não é nada além duma anestesia em meus músculos covardes, uma anestesia aplicada por minha estupidez, ou por minha arrogância.

O que mais me dói sou eu.

Eu e minhas ressurreições diárias,
Eu que adentro numa terceira década de nada.
Eu e meu espírito insosso, sempre coberto por aquele repugnante luto já descrito.

Enquanto minha consciência flutua e mergulha;
abusando, a safada, dessa liberdade que lhe é peculiar,
Eu aqui, preso nessa sala verde, em sentido físico e sentimental, afogo-me por horas intermináveis numa esperança gelatinosa e não perfumada.
Desperdiçando lascas do meu cérebro com seres desprovidos do músculo que devia pulsar no peito.
Seres que ao meu redor se regozijam e chafurdar em suas realidades apodrecidas.

Já não há propósito em se olhar o céu sem poder tocá-lo eu mesmo.
Já não há prazer em olhar a chuva cair sem poder banhar-me todo nela, correndo por todas as ruas e todas as florestas, sentindo o gosto e o cheiro dela.
E já não me compraz admirar a beleza de todos os olhares sem ser o ponto focal deles,
Tampouco, louvar a perfeita delineação de tantos lábios sem poder provar-lhes o sabor, ao menos um pouco.

Pouco; eis o que tento te dizer: o tudo ainda me é muito pouco!

12 de mar de 2011

Para o silêncio

Vem logo silêncio, e cala de uma vez
essa bonita canção que suspira minha esperança.
Vem, que ao menos você creio não mentir.

Vamos juntos para a noite, deitar no colo dela,
Junto do frio dela e das estrelas dela.
Porque me sinto tão cansado, querido silêncio.

Milhas distante

Guardo com tanto carinho a canção que me deu de presente.
Vou vivendo dessas migalhas, dessas fagulhas de felicidade,
desses pedacinhos de passado brilhante.

O dia mais feliz foi a noite na sorveteria ao teu lado
Falando desses presentes, dessas canções.
Parecíamos naquele sábado termos o mesmo tamanho de coração.
Eu te fiz sorrir, e tão belo você continuou a sorrir.
Você trouxe um pouco de silêncio para a luta que é descobrir meu destino.
Foi como se você fosse real...

Mas tão rápido cantou o tempo,
E tal qual o conto de fadas eu tinha que retornar ao que eu era.

Depois, você nunca mais entendeu que para me satisfazer não se podia me oferecer nada; nada além do mais simples.
Depois, eu fui embora, e não mais voltei. 

Jardineiros e reconstrutores

Acreditamos em heróis decaídos e torcemos pelos fracos
Salvamos nossas vidas com canções, uma noite na pista de dança,
De olhos fechados, sentindo luzes, esperando pelo amanhecer.

Oh, doce pequeno menino confuso...
Eu te vi morrer centenas de vezes.
Oh, doce pequeno menino triste...
Eu nunca desacreditei completamente.
Oh, doce pequeno menino...
Eu sei que você ainda sonha.
Ainda sonha coisa tão bonita.

Eles não entendem o quanto nos dói tanta sanidade.
O quanto pesa fazer de cada poro um túnel de entrada para a alma.
Desmoronamos com a sutileza de lágrimas escorrendo...

Eles continuarão dizendo que não é real.
Continuarão seguindo o caminho fácil de silêncio de luzes apagadas.
Mas nós reconstruiremos, reconstruiremos com a simplicidade dos jardineiros.

Submerso

Teremos de clamar por nossos heróis antigos.
Os heróis simples.
Aquele primeiro amor da infância.
Aquele sorriso de mãe diante dum erro descoberto.
Aquele amigo que conosco corria pelas ruas.
Aquela bela garota que cantava uma canção tão bonita.
Aquele doce garoto que sempre dizia haver uma segunda chance.

Porque tudo está tão triste aqui.
E as tempestades de verão afogaram as mais belas flores.
Tudo está tão solitário aqui, e o que é real e o que é ilusão acabou por se tornar o mesmo.
Faz frio dentro, a chuva continua caindo...

E ao redor, mesmo o que parece tão preenchido, está completamente vazio.
Os olhares, os olhares que antes traziam mundos a serem descobertos, hoje trazem apenas buracos desprovidos de vida.
Os sorrisos, os sorrisos que antes brilhavam mais belos que o alvorecer, hoje são perfeitas esculturas de mármore branco, gélidos, sem vida.

Teremos que voltar, mais desta vez, àquele colo que nos protegeu um dia.
Teremos que chorar como crianças injustiçadas.
Pois temos direito às nossas lágrimas,
temos direito aos nossos medos.

Mas voltaremos...

Voltaremos quando começarem a reluzir os tesouros enterrados na lama dessas ruínas.
Voltaremos, quando o amor mais uma vez derramar seu perfume por nossos jardins dizimados.
Voltaremos, pois não importa o tamanho da nossa dor, não importa nem mesmo a nossa morte...
Somos aqueles que sonham,
E aqueles que sonham, de alguma forma, jamais desistem.

5 de mar de 2011

Poesia de amor ou descendo ou subindo

Pule para a próxima,
Essa é só mais uma daquelas poesias de amor.
Poesia que se encontra em canções vagabundas,
Em guardanapos de botecos de esquina,
Em lábios amargos e mentirosos.

A única diferença,
A pequena diferença,
É que essa é uma poesia de amor de alguém que não ama.
Alguém que nunca amou.

Esse alguém que descartou certezas absolutas por preferir rápidos belos olhares.

Dentre todos os poetas, o autor desta é o mais maldito,
Pois profana a sagrada inspiração, profana o divino instrumento de Lispector. Profana o amor.
Pois amor é Porta Aberta, de onde se entra e se sai.
Mas aqui há gozo apenas pela própria dor,
como Sísifo rolando a pedra para o alto do morro,
para vê-la rolar morro abaixo, depois levá-la ao topo novamente,
assim por diante...

1 de mar de 2011

Digno suor

Feito loucos poetas perdidos,
Famintos e embriagados, continuaremos.
O que faz-se conosco,
Divina Piaf, rainha Madonna?

Marginalizam essa nossa arte de sermos nós mesmos.
Nós mesmos enquanto todo o resto é apenas uma única massa,
nutrida a vômito televisivo, à inércia espiritual, mental e cardíaca.
Regada a movimentos alucinados das zonas erógenas,
fazendo fluir e se perder o sagrado suor.

Pois o sagrado suor é do malabarista de semáforo, a nova profissão dos amáveis bobos de corte.
O sagrado suor é do acanhado poeta, que o mistura às próprias lágrimas, gerando a tinta rubra para seus fonemas.

O sagrado suor é o nosso!

O nosso, de jovens de vinte ou setenta anos, que abraçamos com tanto gozo nossas causas perdidas, nossas causas esquecidas.
O sagrado suor é o nosso; que temos asas de voar e raízes de firmar, e surfamos em nosso desespero e êxtase, em nossa alegria e em nossa calamidade.
O sagrado suor é apenas nosso, esses que vocês pouco ouvem gritar por terem ouvidos entupidos por uma pútrida maquete de ética, que define o que todos devem ou não absorver.

Pois bem; haja o que houver, continuaremos sendo os detentores da arte de se ser humano.
Continuaremos nos equilibrando em nossas pernas-de-pau,
Continuaremos trocando armas por flores,
Continuaremos preferindo o luar às cotações,
Continuaremos a exercitar nosso amor, extraindo disso o puro, único e verdadeiro: digno suor!