2 de mai de 2017

Poeira ao vento


A chuva ainda era o mais próximo que se podia chegar do céu.
Tinha também aquele olhar tímido demais diante do que viria,
A vez em que não queria estar em outro lugar do mundo,
Pois era seguro;
Na tela, A Bela e a Fera;
Em algum momento todos choram;
Nos filmes, nas memórias, no silêncio do último abraço.
Matilde repete todos os dias pra minha mente:
"Olha, a luz ainda está conosco."
E por luz, ora entendo esperança, ora entendo cegueira.
Já se foram trinta anos e tudo deveria estar dourado agora,
E está. Mas por uma casca fina do metal
Mais composto de prata e bronze de que ouro de fato.
Começa a descascar...
Toda gente sabe como odeio transições,
E começa descascar...
Ainda não vejo o interior, mas sei que o que brilha não é verdade.
Toda gente sabe que odeio transições,
E Deus me coloca no mundo quando o mundo é uma.
Ainda falo e falarei do amor como se ele estivesse aqui,
Como se ele existisse;
Como se ele existisse além desse desespero pela barganha.
Esperar reciprocidade é a forma poética de fazer uma ameaça.
A coisa foi por um caminho tão difuso que nem adeuses eu ouvia mais.
Tudo assim partia, e só.
A gente cresce e cessam as explicações.
Matilde estava certa:
A esta hora uma parte do mundo cria armas,
Outra metade tira o pó das flores.
E no meio disso há alguém profundamente acordado,
Um louco, certamente.
Estou acordado, mas não profundamente ao ponto da loucura.
Quando nada mais havia, havia a espera.
Agora não há.
Sairemos às ruas amanhã em busca de luzes e olhares,
Mas voltaremos os mesmos, sem luzes, sem olhares.
É um mérito dos eleitos viver o que realmente toca?
Nunca acreditei em eleitos... puta bobagem.
Somos todos pó aqui.
Poeira ao vento, lembra da canção?
Sem pouso, sem porto, sem lar.
Viajores.
E toda gente sabe, odeio transições.

Nenhum comentário:

Postar um comentário