14 de ago de 2014

Ciclos


Veio ontem a primeira chuva após a longa e triste estiagem;
estiagem que se fazia lá fora, secando as roseiras e matando as flores mais sensíveis.
Veio ontem a primeira chuva após a longa e triste estiagem;
estiagem que se fazia aqui dentro, desde a partida, desde o naufrágio, desde o grande pranto.

Regressaram algumas nuvens, quem diria?
Acariciaram a terra com uma umidade humilde.
As roseiras agradecem.

E aqui dentro, onde tudo existia com dor,
senti algo sorrir.
A esperança não foi, tampouco o sonho;
pedi-lhes uma trégua, um espaço indefinido de distância.
O que sorri não sei, mas sei o porquê:
Sorri por estar limpo, ou quase.
A chuva voltou, levou embora o máximo que pôde da fuligem,
das cinzas, dos destroços de tudo o que sobrou após o coração ter entrado em erupção.

As águas foram carregando... o bom, o ruim.
Deixando aquilo que antes se parecia com belas montanhas escarpadas
como uma planície pacífica onde repousam sementes adormecidas.
A primavera não deve tardar...

Novamente,
Sei que sumirá a claridade,
Sei que sumirão as nuvens
e o pranto contido de dia irromperá por muitas noites ainda.
Não somos tão diferentes,
eu e a Natureza.

Ciclos: vida, morte, ressurreição, florescimento, fruto, apodrecimento. 
Sabemos o que nos poluiu e o que cuidou de nos salvar.
Sabemos da divindade das borboletas e abelhas;
o simples que fornece a vida.
Sabemos da tristeza, mas não do ódio.
Sabemos do fim e do recomeço.

Pois não sou mais apenas um Jardim,
Mas um pedaço vivo de Terra.

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