18 de ago de 2014

Incomparável


Não fui eu que descobri, foi Lygia:
O amor é como uma bolha de sabão.
Coisa bonita e frágil demais para existir por muito tempo.
Flutua no ar como um encanto, e como por encanto se desfaz.
Fica só a memória; ela sim, tantas vezes firme como aço frio;
pesadíssima, tão diferente da bolha de sabão.

Comparações não faltam, na verdade:
Pela manhã pensava que amar é como patinar em um lago congelado.
Enquanto se está patinando, a sensação, creio eu, deve ser de voar;
o mesmo que amar.
Desata-se dessa carne bruta e se é um pouco de anjo prematuramente.
Mas um deslize, um morrinho de gelo, um desiquilíbrio, te leva ao chão.
Porém, não existe chão, há o gelo que se parte e há o mergulho indesejado na escuridão morta e gélida abaixo.

Buscamos comparações para o amor; 
Lygia, eu, todos os poetas e todos os que pensam não o ser,
porque não podemos definir algo que ainda ultrapassa nossos sentidos primitivos.
É como se o amor fosse um descuido de Deus,
Uma benção gigantesca demais para seres tão miseráveis;
Ou tivesse caído nessa Terra por engano, por acaso, e no fundo não nos pertencesse de fato.
Mas sua presença, embora indefinível, é inegável.

Podemos facilmente rotular outros sentimentos.
A paixão, por exemplo, pode ser o desejo fortíssimo agindo através dos corpos.
A amizade, é o querer bem, o estar longe, mas perto. É estar conectado tão firmemente, mas sem correntes.
A saudade é a memória fazendo maldade...
Mas o amor... o que é?

Meu coração diz: eu ainda amo.
Mas não dizem os sábios que o amor é a sublimidade da alma humana,
dispensando até a presença para que exista e traga a felicidade?
Ou os sábios não são tão sábios assim ou eu amo errado.
Existe "amar errado"?
Dizem os sábios que o amor não traz tristeza.
Nisso acho que estão certos.
É a ausência dele que traz.
E como.

Despedir-se do amor equivale a um acidente automobilístico,
mas sem vítimas fatais.
Sente-se aquele fragmento infinito de tempo antes da colisão,
Cega-se pela luz forte oposta,
Ouve-se o estrondo,
Enfim o mundo parece que chegou ao fim.
Mas existe um depois, existe a dor, as lágrimas, a imobilidade,
o grito mudo por socorro, que parece nunca chegar...


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