1 de dez de 2014

Dezembro


Na rocha fumegante que se fez o peito,
A bala, a espada, o soco, o sopro,
Não penetram.
Apenas a calmaria fará morada.
É bem-vinda, respeitada.
Como a palavra doce, oferecida sem contrato,
Sem medo, sem destrato.
O afago belo, discreto, distante.

Não se finca no espírito,
Como flecha envenenada de mentira e ilusão,
A indiferença friorenta, tão abundante.
Transpassa. Fere e passa.
Parte, e no túnel de angústia deixado,
Flutuam borboletas brancas e delicadas,
Despreocupadas de sua transitoriedade. 

É o fim, não é? E eu enfim agradeço.
O que poderia ser ceifado, o foi,
Sem misericórdia.
O pranto que poderia escorrer,
Brando e morno,
Desaguou,
Como cachoeira bonita de cerrado.

E como após todo fim: começo.
Cavo a terra pedregosa com mãos nuas.
O sangue dos meus dedos fertiliza o solo árido.
Lentamente aprofundo o alicerce de nova esperança.
Após as tempestades 
Levanto as rosas encharcadas.
Após a queimada 
Aguado os novos brotos.
Após a morte 
Respiro novamente.

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