23 de jun de 2015

Livre



Eu costumava me sentir honrado com a sua presença, como se o mero fato de você estar aqui, estar em minha cama ou em meus lábios, fosse uma generosidade grande demais de Deus ou dos deuses para com um espírito tão reles, tão pequeno.
Eu costumava pensar que a vida, num surto de bondade, ofertara-me um empréstimo da mais pura felicidade, sem jamais cobrar de volta, sem acrescentar nenhum juro.
Em um mundo de sete bilhões, apenas você reluzia. Apenas você emanava a beleza e a pureza que se conectava ao âmago mais profundo e imaculado do meu coração.
Naquele domingo frio, após voltar da rodoviária de onde te vi pela última vez, ainda andando nas ruas rápido demais e sem enxergar bem o caminho por conta das lágrimas que embaçavam a visão, eu apenas repetia: "Anjos não existem!". Mas apenas fui entender isso dez meses depois, quando, ainda te amando, tive a óbvia percepção: anjos não são indiferentes.
A alma, este relicário, guarda mais uma cicatriz. Uma cicatriz adornada de memórias tão bonitas que nem parecem terem nascido num mundo tão árido, tão cheio de ódio.
De certa forma, você me disse que eu deveria ser grato pelo amor que recebi... E eu fui enquanto e se ele existia reciprocamente.
Já odiei esse amor, o que é bem irônico, já senti a falta dele como se o oxigênio do universo desaparecesse para sempre, já desejei nunca ter olhado em tais olhos, já tentei amar outra vez.
O que restou é uma canção distante, que toca ininterruptamente, mas cujas palavras já não sou capaz de entender.
O que quer que eu tenha amado, não existe mais. Existe a sua forma, os seus hábitos, a sua rotina, os seus gostos, mas nada mais daquilo que se mostrava existir há um ano.
Se ponho em palavra, sem medo, algo tão pessoal, é por saber que o campo dos sentimentos é tão íntimo, tão próprio e oculto, que nem seu possuidor tem permissão de deixar que nele adentrem ou dele saiam.
Digo porque apenas as palavras permanecem imutáveis, e através delas registro, ainda que apenas para mim mesmo, minha libertação.
Talvez, o que doeu um dia, doerá para sempre.
Talvez, o que amei um dia, amarei para sempre.
Mas hoje, ao menos hoje talvez, estou livre.

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