20 de nov de 2016

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Escrever é sempre uma auto-análise. Uma forma de falar diretamente à única pessoa realmente interessada em te ouvir: você.
Mas ainda assim, é uma mensagem lançada ao universo, que vez ou outra, mesmo que mui raramente, encontra algum receptor.
Há centenas de explicações do porquê da necessidade de escrever, suspeito que todas estão meio certas, meio erradas.
Com o passar dos anos e das páginas esses porquês vão se alterando, se adequando, encontrando novas finalidades. Desabafos, súplicas, nostalgias, sonhos, amor. E principalmente a necessidade profunda de não conter a alma apenas no pequeno cárcere da carne, o corpo.
No fundo a gente quer ser ouvido sem interrupção, sem julgamento. 
E as palavras são generosas, bondosas, muitas das vezes.
Como cheguei até aqui?
Bem, isto é uma carta. É uma checagem de dados com o presente, a única etapa razoavelmente dominável. Um confuso balancete de erros e acertos, a criação de um pedaço de uma nova cartografia de vida.
Trinta anos. Como isso é estranho. Ainda sinto mais o gosto da infância do que da maturidade. Se é que existe maturidade. 
Lembro perfeitamente das noites de lua cheia em que eu e meu primo desbravávamos as estradas de terra. Lembro dos perfumes que me faziam sorrir e das canções que me faziam sonhar. Mas lembro mal da semana passada, de como foi o mês, da última sexta-feira. Tudo parece é silencioso no passado-recente.
Trinta anos. Ontem, na casa de oração, o palestrante disse que algumas das nossas capacidades podem adormecer de uma vida para outra, redespertando no momento oportuno. Que precisamos de novas empreitadas a fim de uma evolução uniforme, que englobe muitas, até que por fim, todas as realidades. Faz sentido. Pensando em como somos  estranhos nesse ninho, faz sentido. Porque nada daqui é familiar, quase nada.
E embora exista essa imensa força, como a tempestade oriunda de uma erupção, estou estático. Não sei se de fato é, mas chamaria de paz.
Trinta anos. O tempo ainda não pesa, mas a memória, sim. Muito erro e pouco acerto para esse tempo. Muita cautela para evitar constrangimentos, muitas horas de sono perdidas para escolher o melhor caminho. Mas ainda assim: erros. Muitos erros.
Poucas coisas mudam com delicadeza. Algumas só se reafirmam ou só desaparecem no vento depois de um grande colapso. A gente percebe isso, por exemplo, depois do primeiro amor, da primeira decepção, do primeiro grande medo, da primeira profunda alegria.
Percebe como eles rasgam nossa mente ao meio? 
Metade do mundo diz que "sucesso" é ter paz consigo, com o que se tem e o que se é. Outra, que "sucesso" é chegar longe, e quando chegar, querer ir além. Nunca, jamais, de forma alguma, estar satisfeito. Ganha nossa atenção quem grita mais alto. E eles nunca param de gritar. Muita gente tentando provar suas fórmulas mágicas.
Esse bocado de gente presunçosa me exaure demais. 
Morrem de medo de assumir uma fraqueza, uma dúvida, um passo em falso. Como são cansativos. 
A humildade é a coisa mais elegante do mundo. Tenho certeza. 
Certo, vamos lá: o que será mantido e o que será cortado?
Tipo aquelas bombas de filme, sabe? Cortando o fio certo, desarma; o errado, bum! A coisa é: tá escuro, não dá pra ver as cores. 
Melhor correr o risco e cortar? Pior não correr o risco e deixar como está? Vai saber.
A gente tá cansado, vivendo a vida de forma errada ou isso aqui é assim mesmo, um pandemônio?
Não dá pra seguir o script. Não quando tudo é instável e torto.
Formatura aos vinte e dois. Emprego. Casamento aos vinte e sete. Viagem ao nordeste. Filhos. Almoço de domingo. Boletos. Tédio. Esforço para negar o tédio. Mais tédio. Não deu pra mim.
Vendo de fora as vidas normais parecem meio assustadoras também, de qualquer forma.
Ok. Qual o plano? Cansei dessa prosa doida.
Não dá pra ter planos... Nunca deu, por que daria agora?
Vai vivendo aí, respeitando os horários, os semáforos, os mais velhos, seus limites. Sem fazer muito barulho nem deixando com que percebam que você percebe tudo.
Por mais que negue, ainda tem alguma esperança do céu desnublar e a vida começar a dançar de forma menos desengonçada. 
Pode ser que alguém por aí também enxergue almas, e não corpos meramente animados. 
Talvez o mundo seja menos vazio do que se mostra.
Segura aí. 
Não corte o fio ainda.

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