Então via que alguma poesia ainda existia...
No desvio do caminho para ver a igrejinha inacabada
No tijolo assentado para dar forma ao jardim
No beija-flor todo sujo de pólen pairando no ar como que por mágica
Na canção recém descoberta que traz um aconchego esquecido.
Então via que alguma poesia ainda existia...
Ainda que não mais na esperança do afeto, do abraço, da presença
Ainda que não mais no frescor da juventude que sempre acaba cedo demais
Ainda que não mais no reflexo que o tempo aos poucos tem feito sucumbir
Ainda que não mais nas memórias que já foram belas e imponentes como palácios.
Então via que alguma poesia ainda existia...
Não mais aonde se buscava, mas no improvável
Não mais nas brumas da fé, mas na luz da razão
Não mais nas exuberantes mentiras, mas nas cores opacas da realidade
Não mais na ilusão fulgurante, mas na sobriedade do que realme
nte é o amor.

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