7 de jun. de 2026

Então via que alguma poesia ainda existia...

 


Então via que alguma poesia ainda existia...

No desvio do caminho para ver a igrejinha inacabada 

No tijolo assentado para dar forma ao jardim 

No beija-flor todo sujo de pólen pairando no ar como que por mágica 

Na canção recém descoberta que traz um aconchego esquecido.

Então via que alguma poesia ainda existia...

Ainda que não mais na esperança do afeto, do abraço, da presença 

Ainda que não mais no frescor da juventude que sempre acaba cedo demais

Ainda que não mais no reflexo que o tempo aos poucos tem feito sucumbir 

Ainda que não mais nas memórias que já foram belas e imponentes como palácios.

Então via que alguma poesia ainda existia...

Não mais aonde se buscava, mas no improvável 

Não mais nas brumas da fé, mas na luz da razão 

Não mais nas exuberantes mentiras, mas nas cores opacas da realidade 

Não mais na ilusão fulgurante, mas na sobriedade do que realme

nte é o amor. 

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