29 de jun. de 2026

29/06/26

 

O sol voltava a brilhar depois de dias de uma escuridão fria 

As crianças correm nas ruas com seus rostinhos pintados de verde e amarelo 

É vitória da seleção 

E eu que tão pouco sei sobre a fé e a coragem 

Mas muito sei sobre a gratidão 

Sinto meus olhos marejarem mais uma vez 

Dessa vez

Por alívio

Pela beleza simplória da tarde

Pelo amor que fez permanecer entre nós 

A luz resplandecente de um Serafim 

Assim começo a entender que é esse repetido caminhar pelos mesmos caminhos

Que os torna sagrados 

Que é ouvir de novo uma mesma canção 

Que a torna especial

Que é sonhar o mesmo sonho

Que o torna realidade 

Que talvez o verdadeiro milagre da vida 

Seja insistir.

23 de jun. de 2026

Serafim.



Aos poucos

Entre risos e amores

Se despede

Sem perceber

o mais antigo e sábio dos Serafins.

Vislumbrado os primeiros e os últimos anjos que já partiram

Nós choramos

O céu sorri 

Mas então chove

Como se o paraíso se compadecesse da nossa dor

Uma chuva mansa, fininha 

Que devolve a vida aos campos e faz germinar a sementes 

A vida segue seu ciclo magnífico que tão pouco entendemos 

Os olhos marejados turvam o vislumbrar dessa paisagem 

E mal se vê que já se achega a saudade 

Essa forma persistente do amor

E eu penso que 

Ao contrário do que disse o poeta 

Talvez não tenhamos braços longos para os adeuses 

Mas sim para os abraços 

O abraço que recebe aquele que chega ao mundo 

O abraço que envolve aquele que parte dele

E tanto dói, como não? 

Tão pouco sabemos do que há além da carne 

Mas é uma dor

Talvez

Com algo de beleza 

Pois apenas sofre

Quem muito ama.

21 de jun. de 2026

Há uma janela



Em algumas noites, 

Nos sonhos,

É como se você nunca houvesse existido.

Há uma proteção tão forte e bonita;

Mãos firmes segurando as minhas 

Guiando-me pelo caminho.

Enquanto em outras noites, 

Tudo o que existe são suas sombras 

Que contaminam tudo o que tenta florescer no jardim.

E eu me lembro com amargura 

Que corpo que você possuiu 

Abrigava uma alma que foi violada para sempre.

Mas há uma janela 

Por onde eu observo tudo o que é belo.

Uma janela,

Gradeada como uma prisão,

Por onde eu observo sonhos tão cintilantes.

Há essa janela...

Que me mantém seguro

E distante da vida.

Estou nessa jaula desde aquele dia,

Desde aquele dia em que não pude mais ser um menino.

Ainda assim, 

Eu tento adornar as paredes dessa prisão com poemas e canções,

Tento regar a primavera através da janela para que no inverno ela floresça;

Ainda assim,

Por muitas vezes, 

Eu consigo preencher esse cárcere de Luz.

7 de jun. de 2026

Então via que alguma poesia ainda existia...

 


Então via que alguma poesia ainda existia...

No desvio do caminho para ver a igrejinha inacabada 

No tijolo assentado para dar forma ao jardim 

No beija-flor todo sujo de pólen pairando no ar como que por mágica 

Na canção recém descoberta que traz um aconchego esquecido.

Então via que alguma poesia ainda existia...

Ainda que não mais na esperança do afeto, do abraço, da presença 

Ainda que não mais no frescor da juventude que sempre acaba cedo demais

Ainda que não mais no reflexo que o tempo aos poucos tem feito sucumbir 

Ainda que não mais nas memórias que já foram belas e imponentes como palácios.

Então via que alguma poesia ainda existia...

Não mais aonde se buscava, mas no improvável 

Não mais nas brumas da fé, mas na luz da razão 

Não mais nas exuberantes mentiras, mas nas cores opacas da realidade 

Não mais na ilusão fulgurante, mas na sobriedade do que realme

nte é o amor.