2 de jul. de 2026

Talvez só a poesia

 


Talvez só a poesia conseguisse transitar por esse mundo paradoxal 

De horror e beleza 

Em que um pai renega um filho 

E outro foge do hospital para dar-lhe um último abraço 

Em que milhares de vidas se perdem sob escombros 

Enquanto ainda se ouve latidos de socorro

E os olhos deságuam por lambidas de gratidão 

Em que se afirma não haver mais fé e esperança 

Mas as mãos nuas nunca deixam de cavar a terra dura semeando para a primavera 

Talvez só a poesia possa encontrar sentido 

Em uma realidade que às vezes é pior 

Do que o mais solitário pesadelo

Mas que às vezes é mais sublime que o mais requintado dos sonhos 

Talvez só a poesia permaneça 

Como um retrato amável e pouco fiel 

De tudo o que hoje nos assombra e nos maravilha

De tudo o que um dia será perdido pela memória.

29 de jun. de 2026

29/06/26

 

O sol voltava a brilhar depois de dias de uma escuridão fria 

As crianças correm nas ruas com seus rostinhos pintados de verde e amarelo 

É vitória da seleção 

E eu que tão pouco sei sobre a fé e a coragem 

Mas muito sei sobre a gratidão 

Sinto meus olhos marejarem mais uma vez 

Dessa vez

Por alívio

Pela beleza simplória da tarde

Pelo amor que fez permanecer entre nós 

A luz resplandecente de um Serafim 

Assim começo a entender que é esse repetido caminhar pelos mesmos caminhos

Que os torna sagrados 

Que é ouvir de novo uma mesma canção 

Que a torna especial

Que é sonhar o mesmo sonho

Que o torna realidade 

Que talvez o verdadeiro milagre da vida 

Seja insistir.

23 de jun. de 2026

Serafim.



Aos poucos

Entre risos e amores

Se despede

Sem perceber

o mais antigo e sábio dos Serafins.

Vislumbrado os primeiros e os últimos anjos que já partiram

Nós choramos

O céu sorri 

Mas então chove

Como se o paraíso se compadecesse da nossa dor

Uma chuva mansa, fininha 

Que devolve a vida aos campos e faz germinar a sementes 

A vida segue seu ciclo magnífico que tão pouco entendemos 

Os olhos marejados turvam o vislumbrar dessa paisagem 

E mal se vê que já se achega a saudade 

Essa forma persistente do amor

E eu penso que 

Ao contrário do que disse o poeta 

Talvez não tenhamos braços longos para os adeuses 

Mas sim para os abraços 

O abraço que recebe aquele que chega ao mundo 

O abraço que envolve aquele que parte dele

E tanto dói, como não? 

Tão pouco sabemos do que há além da carne 

Mas é uma dor

Talvez

Com algo de beleza 

Pois apenas sofre

Quem muito ama.

21 de jun. de 2026

Há uma janela



Em algumas noites, 

Nos sonhos,

É como se você nunca houvesse existido.

Há uma proteção tão forte e bonita;

Mãos firmes segurando as minhas 

Guiando-me pelo caminho.

Enquanto em outras noites, 

Tudo o que existe são suas sombras 

Que contaminam tudo o que tenta florescer no jardim.

E eu me lembro com amargura 

Que corpo que você possuiu 

Abrigava uma alma que foi violada para sempre.

Mas há uma janela 

Por onde eu observo tudo o que é belo.

Uma janela,

Gradeada como uma prisão,

Por onde eu observo sonhos tão cintilantes.

Há essa janela...

Que me mantém seguro

E distante da vida.

Estou nessa jaula desde aquele dia,

Desde aquele dia em que não pude mais ser um menino.

Ainda assim, 

Eu tento adornar as paredes dessa prisão com poemas e canções,

Tento regar a primavera através da janela para que no inverno ela floresça;

Ainda assim,

Por muitas vezes, 

Eu consigo preencher esse cárcere de Luz.

7 de jun. de 2026

Então via que alguma poesia ainda existia...

 


Então via que alguma poesia ainda existia...

No desvio do caminho para ver a igrejinha inacabada 

No tijolo assentado para dar forma ao jardim 

No beija-flor todo sujo de pólen pairando no ar como que por mágica 

Na canção recém descoberta que traz um aconchego esquecido.

Então via que alguma poesia ainda existia...

Ainda que não mais na esperança do afeto, do abraço, da presença 

Ainda que não mais no frescor da juventude que sempre acaba cedo demais

Ainda que não mais no reflexo que o tempo aos poucos tem feito sucumbir 

Ainda que não mais nas memórias que já foram belas e imponentes como palácios.

Então via que alguma poesia ainda existia...

Não mais aonde se buscava, mas no improvável 

Não mais nas brumas da fé, mas na luz da razão 

Não mais nas exuberantes mentiras, mas nas cores opacas da realidade 

Não mais na ilusão fulgurante, mas na sobriedade do que realme

nte é o amor. 

29 de mai. de 2026

Você só existe



Você só existe na minha lembrança

Nas centenas de versos para os quais foi a inspiração 

Nas canções que de alguma forma sempre me levam de volta àquela década passada.

Você só existe no agora 

Em que a alma clama por alguma beleza 

E mais nada no mundo me comove 

Então é preciso que eu vá ao velho Jardim de memórias 

Onde nada mais floresce 

Mas no qual ainda repousa em sono eterno algo do que poderia ter sido o

Amor.

Você só existe quando o mundo assusta 

Quando falta a luz 

A fé 

O caminho

E eu busco seu nome que ninguém mais conhece 

Ninguém mais pronuncia

Você só existe...

Quando eu penso no azul profundo que tinha seu olhar 

Que ninguém nunca admirou como eu.

Você só existe quando eu sinto que um dia sonhei...

Então você já não existe 

Pois que já não há mais qualquer sonho.

21 de mai. de 2026

Lembro-me




 Lembro-me de todos os lugares pelos quais passei 

Ainda que só uma vez 

Ainda que sem perceber

Lembro-me de todos os corações os quais habitei 

Ainda que tão logo 

Tenha sido convidado a me mudar

Lembro-me de tudo 

E como disse o poeta 

Até do esquecimento 

E as canções de agora 

Que são as mesmas de antes 

E serão as mesmas de depois 

Também são lugares-melodias

Nos quais estive e estarei 

Sonhando rapidamente 

Segurando um resquício de poesia 

Que a realidade esquece de destruir 

E que paira pela atmosfera como uma luz macia 

Já prestes a se apagar. 

12 de abr. de 2026

Outra vez

 


Você vai começar de novo
Não recomeçar 
Emendando fios partidos de uma tapeçaria já puída pelo tempo e pela realidade 
Mas começar de novo 
Um primeiro passo 
Um primeiro sorriso 
Porque
Como disse o sábio 
Mesmo acordando na mesma cama
No mesmo quarto 
Na mesma vida 
Ninguém está hoje no mesmo lugar do universo que esteve ontem 
A vida é esse movimento incalculável e ininterrupto
De fato 
Vai ainda alcançar o mar antes do quadragésimo outono 
Vai ainda fechar os olhos para que a lágrima escorra livre diante de uma nova canção
Vai ainda semear e ver florir 
Vai ainda amar 
Talvez não algo ou alguém 
Mas o sentir 
E não como antes 
Mas como uma primeira vez 
Outra vez.

16 de fev. de 2026



Os fins das tardes exalam forte perfume de laranjeiras em flor. 

E é como que se o perfume, a luz, uma melodia antiga, se fundissem 

Formando algo sem explicação 

Mas bonito 

Talvez a paz agora seja algo próximo a isso 

Onde já não se sonha, mas às vezes ainda se sente 

Onde se planta flores ao invés de enxugar o pranto do mundo 

Então volto a caminhar por velhos caminhos Que aos poucos também envelhecem solitariamente 

Talvez em busca de respostas, ou de silêncio, ou de redenção 

Só que eu só consigo observar maravilhado o imenso céu que começa a se pontilhar de estrelas acima de mim 

E por ora 

Isso será o bastante.