29 de mai. de 2026

Você só existe



Você só existe na minha lembrança

Nas centenas de versos para os quais foi a inspiração 

Nas canções que de alguma forma sempre me levam de volta àquela década passada.

Você só existe no agora 

Em que a alma clama por alguma beleza 

E mais nada no mundo me comove 

Então é preciso que eu vá ao velho Jardim de memórias 

Onde nada mais floresce 

Mas no qual ainda repousa em sono eterno algo do que poderia ter sido o

Amor.

Você só existe quando o mundo assusta 

Quando falta a luz 

A fé 

O caminho

E eu busco seu nome que ninguém mais conhece 

Ninguém mais pronuncia

Você só existe...

Quando eu penso no azul profundo que tinha seu olhar 

Que ninguém nunca admirou como eu.

Você só existe quando eu sinto que um dia sonhei...

Então você já não existe 

Pois que já não há mais qualquer sonho.

21 de mai. de 2026

Lembro-me




 Lembro-me de todos os lugares pelos quais passei 

Ainda que só uma vez 

Ainda que sem perceber

Lembro-me de todos os corações os quais habitei 

Ainda que tão logo 

Tenha sido convidado a me mudar

Lembro-me de tudo 

E como disse o poeta 

Até do esquecimento 

E as canções de agora 

Que são as mesmas de antes 

E serão as mesmas de depois 

Também são lugares-melodias

Nos quais estive e estarei 

Sonhando rapidamente 

Segurando um resquício de poesia 

Que a realidade esquece de destruir 

E que paira pela atmosfera como uma luz macia 

Já prestes a se apagar. 

12 de abr. de 2026

Outra vez

 


Você vai começar de novo
Não recomeçar 
Emendando fios partidos de uma tapeçaria já puída pelo tempo e pela realidade 
Mas começar de novo 
Um primeiro passo 
Um primeiro sorriso 
Porque
Como disse o sábio 
Mesmo acordando na mesma cama
No mesmo quarto 
Na mesma vida 
Ninguém está hoje no mesmo lugar do universo que esteve ontem 
A vida é esse movimento incalculável e ininterrupto
De fato 
Vai ainda alcançar o mar antes do quadragésimo outono 
Vai ainda fechar os olhos para que a lágrima escorra livre diante de uma nova canção
Vai ainda semear e ver florir 
Vai ainda amar 
Talvez não algo ou alguém 
Mas o sentir 
E não como antes 
Mas como uma primeira vez 
Outra vez.

16 de fev. de 2026



Os fins das tardes exalam forte perfume de laranjeiras em flor. 

E é como que se o perfume, a luz, uma melodia antiga, se fundissem 

Formando algo sem explicação 

Mas bonito 

Talvez a paz agora seja algo próximo a isso 

Onde já não se sonha, mas às vezes ainda se sente 

Onde se planta flores ao invés de enxugar o pranto do mundo 

Então volto a caminhar por velhos caminhos Que aos poucos também envelhecem solitariamente 

Talvez em busca de respostas, ou de silêncio, ou de redenção 

Só que eu só consigo observar maravilhado o imenso céu que começa a se pontilhar de estrelas acima de mim 

E por ora 

Isso será o bastante.