6 de out de 2014

O preço


Pago o preço da minha fé. Pago justo e certo.
Ainda que lacrimejando, 
contando estrelas inexistentes num céu de concreto.
Mesmo sentindo algo devorando meu âmago,
consumindo minhas entranhas, deixando horrendo vazio.

Pago o preço da desilusão.
Cada centavo que ela cobra ao bater em minha porta,
pontual e fiel.
Os olhos que enxergam um mundo inexistente estão no meu rosto,
sou o responsável por seus tantos enganos.

Pago, e continuo.
Pois se é verdade que dói tanto ver a flor murchar e morrer,
É verdade também que a isso antecedeu-se o sorriso,
O sorriso sincero ao ver o botão, ao ver a flor preparar suas pétalas
com tanto capricho.

Viver é morrer todos os dias.
Algumas vezes, uma morte pacífica; vem mansa, sem estardalhaço.
Nos leva a alegria como um pássaro que deixa a vida voando,
Só fecha os olhinhos...
Vai voar nalgum paraíso distante.

Outras, a morte é cruel.
Nos come aos pedaços, bruscamente.
Vai sugando faminta a seiva tão bela da alma.
E jorra lágrima, palavra, oração, súplica,
Mas nada impede que ela termine seu serviço.

Viver também é nascer todos os dias.
Sei disso ao ver a luz do sol banhando o salgueiro
que baila na brisa suave e fresca da tarde.
Sinto isso ao ouvir o coração batendo mais alto
ao ler o poema que desenha minha alma completamente nua.

E o nascer é doce.
Ainda que sem sonhos pelos quais lutar,
sente-se a capacidade de sonhar.
E só esse pouco, essa luzinha de nada,
já dá certo sentido ao correr das horas.

Eu aceito a dor que me cabe, sem altos gemidos.
Farei meu melhor pelo Jardim, ainda que outros olhos não o contemple.
Farei meu melhor, 
pois as borboletas gigantes gostam do sabor da Primavera,
E eu gosto das borboletas gigantes...

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