2 de jul. de 2026

Talvez só a poesia

 


Talvez só a poesia conseguisse transitar por esse mundo paradoxal 

De horror e beleza 

Em que um pai renega um filho 

E outro foge do hospital para dar-lhe um último abraço 

Em que milhares de vidas se perdem sob escombros 

Enquanto ainda se ouve latidos de socorro

E os olhos deságuam por lambidas de gratidão 

Em que se afirma não haver mais fé e esperança 

Mas as mãos nuas nunca deixam de cavar a terra dura semeando para a primavera 

Talvez só a poesia possa encontrar sentido 

Em uma realidade que às vezes é pior 

Do que o mais solitário pesadelo

Mas que às vezes é mais sublime que o mais requintado dos sonhos 

Talvez só a poesia permaneça 

Como um retrato amável e pouco fiel 

De tudo o que hoje nos assombra e nos maravilha

De tudo o que um dia será perdido pela memória.

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