Talvez só a poesia conseguisse transitar por esse mundo paradoxal
De horror e beleza
Em que um pai renega um filho
E outro foge do hospital para dar-lhe um último abraço
Em que milhares de vidas se perdem sob escombros
Enquanto ainda se ouve latidos de socorro
E os olhos deságuam por lambidas de gratidão
Em que se afirma não haver mais fé e esperança
Mas as mãos nuas nunca deixam de cavar a terra dura semeando para a primavera
Talvez só a poesia possa encontrar sentido
Em uma realidade que às vezes é pior
Do que o mais solitário pesadelo
Mas que às vezes é mais sublime que o mais requintado dos sonhos
Talvez só a poesia permaneça
Como um retrato amável e pouco fiel
De tudo o que hoje nos assombra e nos maravilha
De tudo o que um dia será perdido pela memória.

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