14 de mar. de 2025

Livres



A profunda beleza do mundo lembra-me da face de Deus 

Quando meus olhos são impuros demais para vê-la diretamente

Há essa mãe que todos os dias passa segurando o filho fortemente para que não caia 

Há essa forma como a luz atravessa a copa das árvores pela manhã

Anunciando o fim da escuridão da madrugada e seus pesadelos 

E por entre esses 

Há o sonho impossível 

O olhar 

O calor 

O toque

O corpo

A alma

As mãos dadas

Há ainda a dor ancestral com suas centenas de significados 

Fazendo com que hoje eu sinta 

Que foi preciso perder você 

Para não me perder depois

E há essa canção 

Que é também a voz de Deus 

E que nos faz querer dançar 

E dançando 

Estamos livres.

12 de mar. de 2025

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6 de mar. de 2025

A gente vai vivendo assim...

 

A gente vai vivendo assim...

Chegando tão perto de um prêmio inatingível 

Imaginando como seria se naquele domingo não se tivesse ouvido um adeus

Sonhando com o tempo em que não era preciso saber tanto

Mas em que se sentia muito 

E o universo era do tamanho do quintal lá fora

E o futuro todo

Do tamanho de apenas um amanhã 

A gente vai vivendo assim...

Crescendo e não tendo mais um adulto para trancar a porta de noite 

Para dar remédio para o gato 

Para reclamar com o vizinho da sujeira deixada na sua calçada 

A gente vai vivendo assim...

Não pensando no que virá para não sofrer 

Não pensando no que se foi para não sentir saudade

Tomando cuidado para não se apaixonar pela dor

Quando ela é tudo o que resta de algo amado que se foi

A gente vai vivendo assim...

Meio que sem viver de verdade 

Deixando poemas inacabados porque ninguém os lerá mesmo até o fim 

Dormindo antes de conseguir sonhar porque logo as horas rugirão

Silenciando aos poucos as palavras porque elas já não alcançam outros corações. 


22 de fev. de 2025

Memórias e consequências

 


Passados tantos, tantos anos 

Eu começo a questionar se aquele sentimento 

Que era tão grande

Que era quase maior que tudo 

Realmente existiu 

Já que agora restam apenas lembranças e consequências 


Nenhuma prova da existência da imensa luz 

Que irá se apagar por completo 

Pouco a pouco 

Junto da extinção da minha memória 

Que lentamente vai me deixando 

Apenas com alguns pequenos estilhaços de encanto 


Nunca

Ninguém mais atravessou aquela mesma porta

E eu me perdi e precisei me encontrar 

De mais formas do que posso contar 

E as cicatrizes que só eu vejo 

Já quase me impedem de reconhecer meu reflexo 


Então eu sangrei ao falar sobre o profano invadindo o sagrado 

Então eu orei para anjos de nome desconhecido 

E eu tentei, tentei 

Até ser julgado por tentar demais 

E eu desisti, desisti 

Até ser acusado por ter desistido.

 

11 de fev. de 2025

Meu coração ainda bate

 



Versos ancestrais pairam displicentes...

'E havia você...

E por haver você é que havia o céu e a claridade das estrelas. 

Sorríamos ao firmamento, 

Lado a lado, 

Como se a realidade fosse o pesadelo 

E ali é que estivéssemos acordados.'

Nada foi maior desde então

Maior que aquele céu 

Que aquele sonho 

Não que nenhuma outra beleza tenha despontado no mundo

Ainda ontem o coração acelerado 

As pernas bambas 

Doces fragmentos de outras memórias 

E a lembrança da pergunta

"Me diga, você conseguiu amar outra vez?"

Sim, eu disse, é claro 

Mentindo 

Mas também falando a verdade 

Porque amei 

As palavras que não foram contaminadas 

As canções que nunca silenciam 

O jardim da alma que sobrevive à estiagem 

Que não tem previsão de fim

E essa fagulha de fé 

Que quando está prestes a se apagar

Renasce 

Talvez não deslumbrante como uma fênix 

Mas ainda bela

Feito um colibri 

'Meu coração ainda bate...'

Eu deveria ter respondido 

Seria o suficiente 

Porque para algumas questões 

Não existem respostas óbvias 

Meu coração ainda bate...

Por isso ontem doeu 

Por isso hoje eu choro 

Por isso amanhã voltarei a sorrir. 

2 de fev. de 2025

Levitar




Ainda que muito pouco 

Reles centímetros apenas

Nos sonhos é possível levitar 

E os monstros famintos 

Emaranhados com a noite escura

Já não nos alcançam 

Embora estejamos cansados de lutar 


Enquanto na realidade 

É domingo 

E paira um silêncio quase imaculado

Que por instantes 

Cessa os estrondos incessantes da mente 


Então chove 

E eu me lembro de quando as chuvas acalmaram as batalhas 

Lavava o sangue dos campos 

Fazia embainhar-se as espadas 


Então chove 

E as águas levam lentamente 

As últimas luzes do dia 

E as águas lavam delicadamente 

Dores, medos e memórias 

Que nunca fazem a bondade de partir.

25 de jan. de 2025

Fio de esperança



 Às vezes após as tempestades 

O ar se preenche de um perfume peculiar 

Igual ao que pairava 

Aos arredores daqueles velhos parques de diversões da infância 

E por um micro espaço de tempo 

Abrem-se as portas e janelas desse quarto sufocante 

Em que a realidade nos aprisiona 

As palavras então deslizam rua abaixo 

Como as águas purificantes 

Palavras não observadas 

Ignoradas 

Mas ainda quase belas 

Como as dos leves dias de outrora 

Sei que como os relâmpagos distantes 

A vida promete estações mais cruéis que esta 

E eu me vejo lá sem outra mão 

Sem outro sorriso

E dói 

Mas hoje há essa atmosfera limpa 

Uma canção bonita sobre saudade

Um último fio de esperança 

Sustentado pelos sonhos infantis 

Que ainda resistem.

Feito teu coração

 


Talvez as lágrimas dos cantos de teus olhos 

Não sejam assim tão tuas

Como os relâmpagos distantes 

Sejam sussurros de uma atmosfera alheia 

Que apenas roga pelos teus sentidos que ainda resistem 

Talvez um dia 

Nos reflexos que tanto busca 

Veja mais do que medo e passado 

Ao invés disso 

Olhando através das janelas e alpendres 

Veja futuro e esperança 

E entenderá que às vezes é preciso deixar ir

Às vezes é preciso desistir de algumas flores 

Para que o jardim fique mais bonito 

Então veja lá fora 

O céu de infinita escuridão 

Continua pontilhado de estrelas 

Feito teu coração.

19 de jan. de 2025

Você pode



Se eu pudesse

Eu traria de volta aquelas palavras 

Que eram como gotas de cura 

Ou traria o silêncio 

Que mesmo sendo frio e dolorido 

Era belo e puro como um diamante 


Se eu pudesse 

Eu mesmo seguraria sua mão

Através dos dias sem fim

E ela nunca mais tatearia na escuridão 

Buscando a porta de um abrigo 

Que nunca existiu 


Se eu pudesse 

Eu perdoaria seus pecados 

E te ajudaria a semear sonhos

Ao invés de culpas 

Te ajudaria a ser forte

Ao invés de pedir socorro


Se eu pudesse 

Eu te amaria mais

Para que esse amor bastasse 

Para que a falta de nenhum outro amor doesse

Para que você sentisse que na verdade 

Tudo isso, você pode.

12 de jan. de 2025

Te tola e bela forma

 

De tola e bela forma

Vejo-te tentar construir novos sonhos 

Sobre escombros pontiagudos 

Que nunca se dissolvem

Que nunca desaparecem 

Quase feito uma criança 

Que se esqueceu de perder a esperança ao crescer 

O espírito diz então que ainda é cedo 

Enquanto a mente diz que já é muito tarde 

E você apenas tenta fugir da guerra ininterrupta 

Entre a fé e o medo 

Tentando se refugiar em memórias etéreas 

Em promessas que não se cumprirão...

2 de jan. de 2025

Uma versão sua



Existia uma versão sua 

Que sabia tão bem sorrir e amar 

Ainda que com dentes tortos

Ainda que com amores ilusórios 

Uma versão sua 

Que sabia tão bem 

Dançar e cantar 

Ainda que errando os passos

Ainda que desafinando o tom

Uma versão sua que já quase não se mostra 

Que quase não existe

Mas que em algumas tardes

Quando a luz do sol incide sobre os escombros de tempo 

Que foram se acumulando cruelmente sobre você 

Essa sua parte brilha lá no fundo 

Entoa uma canção sobre estrelas e heróis 

Ensaia alguns movimentos tímidos 

Arrisca mais alguns versos

E diz com uma voz tímida 

Que sim

Talvez os escombros já sejam pesados demais para serem removidos 

Talvez muita coisa não consiga mais ser curada 

Porém 

Uma nova versão pode enfim nascer 

Ainda maior e mais forte

Uma versão sua que o tempo não irá soterrar 

Uma versão sua que sabe

Que a luz no fim do túnel 

É você mesmo.

1 de jan. de 2025

É preciso

 

A cidade ainda dorme 
De certa forma
Um sono justo 
Como os advindos 
Do após de grandes batalhas 

A cantoria dos pássaros é amena
Ecos solitários de uma alegria fugaz 
Delicados como pequenas orações confusas 
As nuvens movem-se em calmaria 
Ocultando aos poucos a luz clemente 

É preciso que se fale sobre a esperança 
Sobre a paz
É preciso que se fale sobre reconstruir o que foi quebrado 
É preciso que se chore rápido pelo que partiu 
Para que se sorria para o que vai chegar 

É preciso que se agradeça 
Que se louve 
Que se abrace 
Não é preciso muito...
É preciso que se ame.

13 de dez. de 2024

Ainda sinto




Pelas ruas em que quase nem descia,

Mas flutuava,

Cismava... 

E se a emoção partiu? 

E se a beleza foi embora?

Como embora as luzes de natal irão 

Quando janeiro chegar...

E eu chorei um pouco ao pensar 

No medo de não mais chorar.

Quando a manhã é silenciosa e calma,

Quando os jasmineiros voltam à vida,

Quando as criancinhas andam de mãos dadas pelas calçadas...

Então,

A doce senhora marejava os olhos ao falar dos seus "e se's"...

E se tivesse partido? 

E se outra coisa tivesse sido? 

E se o amor tivesse chegado,

Ao invés de partido? 

E sofremos juntos fingindo não saber 

Que os trovões que estouram os céus aqui 

São os mesmos do outro lado do mundo;

Sofremos fingindo não saber 

Que nada é ou seria mais fantástico 

Do que o que se vive,

Do que se alcança,

Do que se tem.

E eu sorri,

Com esse sorriso imperfeito e sincero, 

Ao sentir que ainda sentia,

Ao saber que as luzes que partiram ,

Um dia retornarão;

Que o amor não é encontrado,

Porque ele nunca se perdeu.

23 de nov. de 2024

Um pouco mais bonita



Talvez tenhamos sido o melhor que poderíamos ser 

Naqueles momentos confusos e doloridos 

Talvez 

Daí de tão longe tudo faça mais sentido agora

E eu sei 

Nunca fomos grandes exemplos 

Mas havia uma admiração sutil e secreta 

Uma vontade de ser algo mais 

Que nunca conseguimos ser


Por aqui as coisas mudaram um pouco 

Ou muito 

De perto não sei dizer 

Eu tentei escolher estradas mais seguras 

Menos esburacadas 

Tentei redimir meus pecados 

Mas tem umas tardes em que ainda sou um menino perdido chamando pelo pai 

Aquele menino que se encantava com a pureza e a beleza de tudo 

Enquanto as perdia sem ninguém saber 


E hoje eu vi muitos botões no jasmineiro que eu achei que ia morrer 

Ele vai florescer ainda antes do natal 

Para perfumar a memória da vinda no nosso Senhor

E eu chorei um pouco pensando em tudo isso

Tudo o que foi perdido e tudo o que foi encontrado 

Chorei um pouco 

Por medo, por gratidão, por esperança 

Pelo esforço que tenho feito em tornar minha alma um pouco mais bonita.

27 de out. de 2024

Tentando

 


Da mente 

Esse campo de guerra onde não há trégua 

Paira o assovio frio que precede a queda explosiva 

Ouvem-se estrondos e súplicas 


O solo treme abaixo dos pés 

O espírito enpalidece 

Outro ataque 

E mais outro 


Aos poucos então o tempo engrossa o véu 

Que existe diante dos nossos olhos 

E oculta lentamente e cada vez mais 

A aura milagrosa que há em todas as coisas 


Então eu me lembro de uma velha mulher 

Plantando flores nas cicatrizes da terra

E do jovem homem 

Pedindo orações 


E é assim que algo me diz

Que o céu cinza é o prelúdio do aguaceiro 

Que trará o fim da estiagem 

Que trará vida ao sertão das almas


São épocas duras

Como as que se foram e as que virão 

E as mãos endurecidas sofrem para colher a esperança 

De lugares cada vez mais raros e delicados 


Mas ainda ontem eu disse

Enquanto a estrada era longa e calma 

"Ao menos estamos tentando,

E isso é bem mais do que nada."



22 de out. de 2024

Apascenta

 


Pediste, Senhor

Àquele a quem questionara 

Se verdadeiramente O amava 

Dizendo:

"Se me amas, apascenta minhas ovelhas."


Lá fora urram guerras insanas 

Irmãos levantando-se contra irmãos 

Tornando esperanças em pesados escombros 

Subindo a poeira tóxica 

Que oculta a santificada Luz do Evangelho


Mas não distante 

As batalhas também se fazem 

Pelo egoísmo, pelo orgulho 

Armas mais silenciosas, igualmente perigosas 

A destruírem lares e corações 


São tantas as Tuas ovelhas desgarradas, Senhor 

Filhos perdidos 

Na imensidão das próprias ilusões 

Vasos vazios 

Que o vento tomba e quebra 


Guia-nos de volta à Tua paz, Mestre

Ainda que trilhemos caminhos tortuosos 

Relembra-nos do Verdadeiro Propósito 

Que nunca irá nos faltar

Pois que é o próprio Deus. 


@jardim__espirita

Mãe do Amor



Das mais Altas Esferas desceste 

Com a sublime missão de ser o santo lar

Do mais puro espírito que caminhou sobre a Terra.


Mãe de misericórdia e bondade 

Mãe de doçura e compaixão 

Mãe do próprio Amor encarnado


Ante a ti até os anjos se curvaram 

"Maria, alegra-te, ó cheia de graça!

O Senhor é contigo!"


E Vós, Mãezinha, curvara-se ante ao Criador 

"Eis aqui a serva do Senhor. 

Faça-se em mim segundo a tua palavra."


E assim se fez do santo e imaculado ventre

A morada do Nosso Senhor 

E de vós, a Mãe da Humanidade 


Mãe, dá teu colo a essas crianças espirituais

Que todos nós ainda somos

Dá Tua luz aos que jazem na escuridão. 


Rogai por teus filhos, Santíssima 

Teus filhos em carne e em espírito 

Que ainda não possuem a imensidão da vossa fé.


 

@jardim__espirita

Água salobra



Singelas orações sussurradas por corações aflitos 

Vozes em fios dissolvendo-se ao vento

Pés descalços, cansados 

Caminhando no solo agreste da vida


"Cristo Jesus, ainda mais uma vez, 

O Senhor velaria por nós?"

E os olhos marejam dor e sal

A lágrima escorre sutilmente na face ferida


Reverbera então pelo âmago do espírito 

Forte como trovão e delicada como flor

A palavra santificada e eterna 

Advinda do Divino Caminho 


"Não se turbe o vosso coração; 

Credes em Deus, crede também em mim.

Se vós me conhecêsseis a mim, 

Também conheceríeis a meu Pai..."


Abrandam-se assim as ferozes turbulências 

Sob a autoridade sublime do Redentor 

E a água salobra dos olhos cessa

Ante ao sorriso que se faz pelo abraço Consolador.


@jardim__espirita

2 de out. de 2024

Manhã

 


A cidade ainda quase adormecida 

Como que imersa em um Hálito Celeste de paz 

Com ruas calmas e silenciosas 

Envolvida por uma esperança sutil 

De que a estiagem cruel 

Nos campos e corações 

Não tarda a chegar ao fim 


Pelas esquinas, pátios e construções 

Portas e janelas vão se abrindo 

Homens e mulheres 

Com o suor de seus rostos 

Começam a angariar o santificado pão 

Mãos firmes, faces serenas 

Talvez, o espírito em oração 


Começa a ser perceptível na atmosfera 

Uma aura luminosa, bendita 

Lentamente se aproxima o dia em que rememora-se

A vinda do Salvador 

Imaginam-se halos de luz e esperança 

Descendo novamente sobre a Terra tão castigada 

Pelos equívocos humanos 


Ainda assim

"Vós sois Deuses."

Disse o Divino Caminho 

"Podereis fazer o que faço, 

E ainda mais, 

Se credes em mim."

Completou 


Cremos, Senhor

E pelas nossas obras verificamos o tamanho da nossa fé 

Que é ainda pequena, às vezes até frágil 

Mas que brilha sem cessar 

Como a chama humilde da vela

Que não extingue toda a escuridão 

Mas previne o passo que levaria à queda.


@jardim__espirita

29 de set. de 2024




Ocultam-se as palavras capazes de milagres

Agora como em outrora 

Por conta dos sentimentos adormecidos 

Cansados

Que naufragam silenciosos em águas turvas

Junto à claridade dourada que ali mergulha


Quando nada se sente

Procura-se algum resquício de saudade 

Procura-se uma canção

Um perfume pelas estradas

Que nunca mais percorreremos 

Procura-se uma dor graciosa


Porque às vezes a dor é tudo o que parece restar

E a seguramos forte como uma amada inimiga 

E não a deixamos que se vá 

Mas o sol volta a se pôr e a nascer 

E o tempo que desbota todas as coisas 

Também pede que tudo se renove


Então eu estava sozinho diante daquelas águas 

Onde eu dizia não ser possível ver Deus 

Estava sozinho com minhas luzes e sombras 

Que ao menos por um instante deixavam de lutar

E apenas contemplavam comigo 

Um breve fragmento do infinito.

Faz chover

 

Houve o dia, Nosso Senhor,

Em que, amedrontados, 

Teus seguidores te pediram:

"Acalma a tempestade, Divino Mestre!

Abranda o vento!

Salva-nos das águas impiedosas!"


E levantando-te, 

Repreendeste o vento e disseste ao mar: “Aquieta-te!”

O vento então parou e fez-se grande calmaria.  

E disse-lhes: 

“Por que estavam com tanto medo? 

Ainda não têm fé?”


Hoje, Senhor, rogamos-te para que se faça,

Do céu à terra,

O aguaceiro santo; 

Para reviver campos e corações.

Transformando os desertos incinerados,

Em redivivos jardins de milagres.


Somos ainda os homens de pouca fé 

No vulnerável barco da vida,

Incomodando-te com nossos clamores,

Evidenciando a fragilidade da nossa esperança pequenina.

Mas a quem recorrer, 

Senão ao Senhor de todas as coisas? 


Faz chover, Senhor! 

Sobre a terra ferida, sobre o fogo inclemente; 

E, principalmente, sobre o espírito devastador 

Do homem ainda tão primitivo;

Do homem ainda tão mais próximo do átomo, 

Que do Arcanjo.


@jardim__espirita




É como se houvesse restado um eco de todos os sentimentos que se foram 

Uma espécie de epitáfio 

Mas ao mesmo tempo 

Um prelúdio 

De algo que se viveu na superfície 

E que lá adiante 

Na borda oculta do tempo 

Irá ser vivido profundamente.


Este agora em que buscamos alguma beleza no caos 

Não é tão diferente de outros agoras que já vencemos 

Só que agosto se debruçou sobre um setembro marrom 

E venta, e queima, e sufoca... E dói 

Doem saudades do que nem foi tão grande e valioso assim 

Em outroras seria até pouco 

Quem sabe

Menos que nada. 


E eu com meus velhos mapas sobre a mesa da realidade 

De cenho fechado 

Traçando novos rumos até que interessantíssimos

Sobre os mesmos antigos caminhos já percorridos

Contudo, não deixa de ser louvável 

O imenso e quase tolo esforço 

De lutar contra essa estiagem sem fim 

Que aos poucos se apodera também do coração.




 São 14:18 e eu senti necessidade de dizer que o mundo não está acabando 

Nem vai acabar 

Nem acabou 

Mas um poema me fez chorar 

Porque poemas são como orações 

São puros como uma criança 

Que oferece uma flor 

Ao Criador do Universo 

E de todas as suas coisas.


São 14:20 e eu já soube o que é o amor 

Ou talvez não 

Talvez a gente só criou uma palavra bonita 

Para algo que nunca se alcança completamente 

Mas antes de chegar aqui, eu sonhei 

E quando esteve, foi bom 

E quando partiu, doeu.


São 14:22 e o levantar dos véus só mostram outros véus além 

O que não deixa de ser interessante 

Mas desnudam-se jardins que resistem às estiagens 

Ao fogo criminoso 

Ao ódio que se esperneia por saber que logo 

Não terá mais do que se nutrir.


São 14:25 e pela milésima vez 

Eu plagio o poeta e digo 

"Nada em mim é extinto ou esquecido."

Digo para que nada se extinga ou se esqueça

Enquanto as cortinas balançam 

E o silêncio se faz

E o coração enfim 

Por um instante 

Descansa.




 Há essa velha voz que se propaga

Incessantemente 

Por todos os cantos do espírito 

Às vezes terrivelmente ensurdecedora 

Às vezes inofensivamente branda 


Em certas manhas ela se cala 

Como se o mundo fosse uma máquina bem lubrificada 

Emitindo poucos ruídos 

Existindo sem muito sentido de existir 


Em certas tardes ela é rude e áspera 

E se propaga como se quisesse ferir 

E fere

E eu sangro 


E em certas noites ela me lembra de todos os milagres enjaulados 

Das asas dobradas e pesadas que carrego nas costas 

Que me fariam alçar voos magníficos 

Por terras ainda inexploradas


Mas nos sonhos ela canta melodias adocicadas 

Canções de tempos de outrora 

Passados e vindouros 

E por um instante adormece 

Enquanto me confessa ser eu mesmo que canto.

Antes do despertar das horas

Da canção triste que nunca deixa de tocar 

Havia você

Havia a rua de cores intensas

E a chuva que voltava a cair

Como que para fazer reflorir 

Um mundo já quase sem beleza 


Sua pele brilhava 

Feito as últimas luzes do sol poente de inverno 

E de seus lábios escorriam mel e vida 

Sabores extintos 

Sabores nunca mais sentidos 


O sorriso então 

Vasto, suave e rápido 

Como o desabrochar dos ipês brancos 

E sua imagem, por fim

Derretendo às primeiras fagulhas de realidade 

Sumindo da memória, da prece

Do coração que já quase não sonha.
 




 Por um descuido a poesia das coisas se perdeu 

Foi pelo tempo longo e estranho que passou 

Pela saudade não mais sentida

Ou pela esperança que foi se aventurar por outras paragens

Bem longe daqui 

Não se sabe

Mas o mundo ainda gira

O sol nasce e se põe 

As crianças brincam alheias 

À cruel transitoriedade de tudo 

E o passado com todos seus encantos 

É esse varal de roupas esquecidas 

Por anos 

Que já desbotaram 

Que já não servem mais.

5 de abr. de 2024

Alvorada

 

O que é Vida senão um quase eterno processo de renascimento?

A flor dá lugar ao fruto, que dá lugar à semente, que dá lugar a uma nova planta.

Ciclos se iniciam e se encerram, modificando intimamente os personagens que fazem parte desses processos.

O próprio planeta passara e ainda passa por uma era de profundas transformações, algumas severas e gigantescas, outras delicadas e até belas.

A poesia surge em meio a toda essa dinâmica com a liberdade de levar muitas vezes sentido e consolo, uma forma sutil de reflexão para se compreender o que se vive, o que se viveu e o que é sonhado; talvez mais que compreender: encontrar o sentido sagrado que permeia todas as coisas.

Este trabalho tem então o humilde desejo de registrar os sentimentos provindos dessas tantas nuances experienciadas, mas acima de tudo, é um registro de um momento de esperança, da Luz tomando lugar das sombras, da claridade lentamente voltando a reinar após uma longa noite escura. 


"Alvorada", minha décima quinta aventura com a palavra, estará disponível no Clube de Autores em 16/04.