William Wordsworth.
Aventuras Internas
Sentimentos avulsos em prosas e versos.
24 de dez. de 2025
31 de out. de 2025
Resta
Resta ainda algo de um morno luzir no coração que já pouco pulsa
Resta um leve sabor de vida
Resta esse reflexo opaco na armadura desse soldado exausto de uma guerra infinda
E isso que é tão pouco
Provavelmente menos que nada
Tem um valor incalculável por algum instante
A voz
O perfume
O brilho dos olhos
Pequenos tesouros que pairam brevemente pela atmosfera
Antes de deitarem ao chão
E dissolverem-se como flocos de neve
Mas então a canção
O sorriso
E a palavra
Outra delicada memória para adormecer
No modesto relicário da alma.
29 de out. de 2025
Aqui, agora
O perfume das novas flores
Traz da memória adormecida
A doce sensação daqueles velhos tempos
Em que algo de belo, puro e sagrado
Era emanado de todas as coisas
Aquele tempo em que a chuva caía como uma oração
Forte, poderosa, curativa
Fertilizado a terra tão carente do milagre da vida
O coração está longe de ser o mesmo que de outrora
Pesados pecados e ásperas ilusões
Envolvem-no feito uma couraça
Extirpando seu brilho
Mas aqui, agora
Ao som de uma voz sagrada
Acolhido pelo manto solitário e suave da noite
Eu começo a entender
Que é só após mergulhar na escuridão mais profunda
Que se torna possível começar a enxergar
Aquilo que verdadeiramente reluz.
12 de out. de 2025
Mãezinha
Cai a chuva
Mãezinha
No dia dedicado a ti
Do céu
Dos olhos
A água santa escorre sobre as feridas
Sulcos profundos no solo das almas ressequidas
Ansiosas por uma floração que parece nunca chegar
Como ovelhas desgarradas
Rogamos teu amor e misericórdia
Mesmo sendo nós
Os que colocamos o teu filho amado no madeiro cruel
Ainda sim
Nos oferece Teu manto sagrado
Para enxugar lágrimas que não cessam de cair
Bendita é tu, cheia de graça
A quem os anjos se curvaram a pedir permissão
Antes do teu ventre abrigar a maior das luzes
Tende compaixão destes teus outros rebentos
Ainda tão pequenos e tão mesquinhos
Mas que um dia serão dignos
De ao menos olhar para ti.
Armadilha
Era um dia dolorido para se plantar flores
Mas plantamos
E o sol em toda sua imponência logo fez murchar algo de tão bom em bonito
Talvez não sobreviva mais
O que há de bom e bonito
Mas seguimos plantando
Regando
Acendendo
Quem sabe em algum momento o inverno vá embora
E a primavera chegue de verdade
Talvez essas coisas que se perdem
Nunca tenham sido encontradas de fato
E é um consolo muito triste pensar assim
E eu me lembro de um aviso
Dizendo para nunca voltar para onde já se foi feliz
Pode ser perigoso
Pois não há mais nada real lá
Apenas formas estranhas
Como naqueles pesadelos
Em que tentamos tanto fugir
Sem nunca sair do lugar
Às vezes a vida é parecida como uma armadilha
Onde cada palavra pode e será usada contra você no juízo final
Ou no juízo intermediário
Que acontece o tempo todo
Mas às vezes a vida é bonita
Emociona
Um beija-flor para no ar para sugar o néctar da flor que eu plantei
E essa visão faz o coração doer um pouco menos
Então eu percebo que já não dói saber que nunca virá
Não da mesma forma que já doeu
Pois que o silêncio
Antes tão assustador
Agora é o milagre mais rogado aos anjos recém-nomeados
23 de set. de 2025
Tempestades
Na manhã seguinte à voraz tempestade seca
Deita sobre a terra uma bruma fria como que curando
Os arranhões deixados no solo e no espírito
São sempre tempos áridos por aqui
Mas às vezes ainda chove
E a raridade de alguns acontecimentos os tornam quase milagres
A gente que tem a alma assim fica sempre procurando algum fio de esperança
Nessa imensa e confusa tapeçaria divina que não conseguimos entender ao todo
Eu sei que algumas coisas importantes não estão mais se encaixando em seus devidos lugares
A fé, a palavra, o amor
Coisas que eu sempre pensei serem sólidas
Mas que são mais como um rio
Que fluem livres em direção a algo muito maior, muito mais incompreensível
Isso traz certa angústia
E certa paz
Os botões das camélias mais uma vez secaram e caíram
Enquanto ao redor o jardim permanece resistindo, florindo
O coração dentro do peito a cada dia se parece mais com uma armadura impenetrável
Enquanto protege e aquece uma criança em seu interior que nunca deixa de sorrir e cantar.
30 de ago. de 2025
Dia após dia
Em sonhos como esses
Seus olhos parecem brilhar ainda mais
E eu queria poder te contar que ontem chorei
Ouvindo as crianças brincarem na rua
Reprisando um tempo que achei
Que havia se perdido para sempre
Mas você não estava aqui
Ninguém estava aqui
Ainda assim
Eu cavei a terra de mãos nuas
Deitei ao solo cansado novas sementes
É fim de agosto
A primavera não tarda
E nessa fusão de sonho e realidade
Dançávamos
Os que estão e os que partiram
Como se fosse possível a vida devolver
Tudo aquilo que ela nos tira
Dia após dia.
23 de ago. de 2025
Volitar
Lembro-me de um tempo
Em que nos sonhos se podia voar
Como eternas crianças perdidas
Soltas no ar
Agora, às vezes,
Algumas raras vezes
O coração fica leve o bastante
Para que em madrugadas brilhantes
Os pés volitem alguns metros acima do chão
Como se fosse possível de novo
Plainar por um firmamento de inocência
Embora diferente de antes
Agora rondem o medo, as horas, os despertadores
Uma plateia displicente
E nenhuma promessa do amor
Mas há alguma magia
Sutil
Quase imperceptível
Que escorre das rachaduras que se abrem
A cada golpe violento da vida
E isso ainda faz os olhos marejarem
Como se a realidade não doesse tanto
E a esperança aguardasse ansiosa
Por seu desabrochar miraculoso
Na primavera que se aproxima.
22 de ago. de 2025
Sempre há um agosto
Sempre há um agosto
Em que
Diferente de outros agostos
O vento quase não sopra
E ainda faz bastante frio
E tudo parece como que preso em uma fotografia começando a desbotar
Sempre há um agosto
Em que daquele velho cemitério
Eu sinto chegar até mim um perfume que deveria ser esquecido
Eu ouço se aproximar uma canção que não deveria mais ser ouvida
Não é um cemitério comum
As flores de mirra desabrocham ao sol de fim de inverno
Hibiscos e primaveras explodem em cores tamanhas
Inundando os olhos de uma beleza comum e mágica
Nada parece lembrar que algo valioso repousa aqui
Abaixo dessas terras
Em uma única sepultura
Adormecem os sentimentos mais nobres já sentidos
O Sonho, o Delírio, o Desespero, a Esperança,
O Amor.
E este mausoléu feito de uma pura safira azul
Como que se ilumina ao me ver chegar novamente
Depois de tanto tempo.
E aqui me encontro
Em resignação e calmaria
Observando de muito longe o tamanho imenso das asas daquilo que já foi tão amado
Refletindo a claridade de um céu sem nuvens
Enquanto as raízes dos meus pés se aprofundam cada vez mais no solo escuro.
O sol se põe...
Peço então que adormeça
Tudo o que foi despertado
E levo comigo apenas
De mãos dadas
Uma agora pacífica Saudade
Que sorri discretamente
E que sei que nunca irá me deixar.
3 de ago. de 2025
Como não fazer poesia?
Como encontrar poesia,
Se não longe falta-lhes o pão, o pai, a água, o irmão?
Como fazer poesia,
Se deitado em cama confortável
Os vejo abaixo dos escombros,
sendo escombros?
Como sentir poesia,
Se caminho por um jardim florido, luzindo ao sol ameno de inverno,
Enquanto eles rastejam entre ossos e poças de sangue inocente?
Como cantar poesia,
Se as palavras apenas ecoam por uma casa silenciosa, vazia,
Enquanto eles se aglomeram sob trapos rasgados pelos ventos ferozes da indiferença?
Como não fazer poesia...
Diante do horror e da barbárie,
Para que aqueles melhores que virão após nós
Saibam do nosso desespero
E covardia.
(Imagem retirada da internet)
2 de ago. de 2025
02/08
Varria folhas lembrando vagamente da despedida do último grande amor
Era também o segundo dia de um agosto qualquer
E onze anos depois a maior dor já não dói
E machuca menos que esse vento que insiste em atrapalhar meu trabalho desimportante
A moça estava certa
Realmente o tempo tira tudo do centro das atenções
Embora não cure nada
E já não resta tanto a dizer
A não ser a repetição tola do que a ninguém importa
Mas agosto evoca palavras calmas
Torna os dias mais passado que presente
Banha o jardim de uma luz opaca e macia
E sopra no coração um quase desejo de ser feliz outra vez.
11 de jul. de 2025
Ainda outra vez
Lembro-me das palavras vindas do Alto:
"A Luz ainda está convosco..."
E de como meus olhos naufragavam em si mesmos pela primeira vez
Vislumbrando faíscas de uma claridade tão buscada
Outros bem maiores estão a falar dos tempos difíceis que passaram
Ou que aqui estão
Ou que logo irão chegar
Outros bem maiores falam dos sonhos
Ou do desejo
Ou até do amor
Mas ainda assim insisto
Insisto ainda outra vez
Em descrever o místico e inebriante perfume da noite
Insisto em abrir ainda outra vez rachaduras na alma para que a prometida luminosidade adentre
Insisto em fazer a mesma pequena e sincera oração:
"Pai, sê comigo."
23 de jun. de 2025
Do rio ao mar
Para que não me doa a dor do irmão
É preciso que eu feche os olhos
É preciso que eu não tenha sequer olhos
Mas então os ouvidos ouvem e sangram essa dor
E para que não sangrem
É preciso que eu tape os ouvidos
E que eu finja não continuar ouvindo
Mas então um grito rasga a garganta
Um urro faminto
Dilacerante
E para que eu não grite
É preciso que eu não tenha boca
Que se selem para sempre meus lábios
Mas então as mãos tateiam a escuridão
Ferem-sem em brasas humanas
E para que eu não as toque
É preciso não ter mãos
Mas então os pés caminham por escombros
Escombros do que já foram vidas
E eu caio também exausto ante ao horror
Com o rosto à Terra
Rente ao pó que todos somos
Abraçando essa outra mãe tão castigada
E já não contenho o pranto
Pois sou eu também aquele solo ferido
Também sou aquilo que resta da devastação
E sinto:
Para que não me doa o que dói no outro
É preciso que eu não tenha alma.
🇵🇸
16 de jun. de 2025
"Borboletas de Esperança"
Vídeo produzido pelos alunos da Escola Estadual "Professora Yone Dias de Aguiar" baseado no meu livro "Ruas de Domingo - prosa poética em quarentena" e "A vida não é útil" de Ailton Krenak.
1 de jun. de 2025
A manhã já vem
No altar da casa de orações, a frase:
'Em tempos de guerra
Nunca deixe de perdoar'
No altar alojado no peito, a canção:
'Acho que seguirei meu coração
É um lugar muito bom para começar'
E estamos sempre nessa encruzilhada com o tempo
Sem saber se devemos esperar
Ou se já estamos muito atrasados
Pois que o mundo ruge voraz não muito longe
Mas muito perto as ruas estão calmas
Preenchidas por um perfume mágico de infância
É certo que as mãos ainda tateiam pela escuridão
Na ancestral busca de sentirem-se entrelaçadas a outras
E já nem nos sonhos há plena paz
Mas ainda sobraram algumas folhas em branco
E algumas palavras imperecíveis no coração
Sinto então que é certo: 'logo mais a manhã já vem'.
E aguardei
31 de mai. de 2025
Sismógrafo
Esse sismógrafo alojado no peito
Atento às menores oscilações
Aos menores tremores
Feito de um cristal puro e delicado
Sensível aos sutis silêncios
Às ásperas palavras
Gravando na alma o gosto amargo
Do novo adeus
Tão idêntico a todos os outros adeuses
Que desafiam a lógica
E chegam sempre antes do encontro
E tudo se repete
A agulha risca a pele
Cria sulcos profundos
Para cima e para baixo
E assim outra vez me perco
E procuro por mim
Nas mesmas canções gastas
Nas mesmas ruas frias de outono
Nas mesmas estrelas sempre cadentes
Nos mesmos perfumes que logo evanescem
Nos mesmos poentes pálidos
Nos mesmos braços que nunca
Nunca me estarão verdadeiramente abertos.
28 de mai. de 2025
É o bastante
Lembro bem das palavras da poetisa
Talvez até tenha existido amor
Mas nunca amor o bastante
Para que se permanecesse
E não que tenha doído muito tal verdade
Mas fez-se um silêncio profundo então
O mesmo silêncio que é feito uma grande sala escura
Repleta de palavras emaranhadas, adormecidas
Mas há ainda dias assim
Em que as ruas antigas contam novas histórias
Duas meninas de uniforme escolar saltam em uma esquina
Tentando apanhar pitangas da árvore alta
O sol se põe à frente da igrejinha
Com seus poucos e sinceros fiéis
O jardim bem lentamente vai se recobrindo de flores roxas e vermelhas
Feito a alma
E dissolvido na brisa fria que começa a soprar
Há um perfume sutil de esperança
Que volta e meia ressurge para me alegrar
Não é muito
Eu sei
E já perdemos tanto
Só que ainda não é tão tarde
Ainda estamos aqui
Ainda conseguimos sentir
Então
Por hoje
Mesmo o pouco
É o bastante.
18 de mai. de 2025
Houve um tempo em que a brisa assim fria
Que desliza pelas ruas carregando palavras e folhas
Trazia ao mesmo tempo algo de uma poesia ancestral
que nunca se perde
Os anos passaram céleres
A face já não é a mesma
A alma também não
Já rasos sucos no reflexo
Ainda profundos sulcos na alma
Mas percebo que alguma parte do coração permanece a mesma
Imaculada
E quando sentimentos augustos derramam luzes suaves sobre ele
Eu vejo que de arbustos espinhosos
Desabrocham flores de imperecível beleza
Sinto então
Que talvez reste alguma chance
Que talvez não seja tarde demais.
6 de abr. de 2025
E foi
Houve um fevereiro em que um ipê amarelo floriu
Eu não esqueci
Eu não quero esquecer
Agora é abril
E um ipê branco floresce
E eu envolvo a memória em palavras leves
Para que ela não afunde
E se perca em um breu infinito
Algumas belezas vêm assim
Nas estações erradas
Fugazes e especiais
Clamando versos simplórios
Para que não se percam completamente
Porque amanhã já não haverá mais flores no ipê branco
Nem o som de qualquer voz
Nem o brilho de qualquer sorriso
Outro momento especial
Outro momento fugaz
Olá até logo adeus
Tudo em uma mesma noite
A alma
Essa coisa tão rara
Entregue sem pensar
Pois pensar paralisa a vida
E a vida precisa correr
Chegar ao próximo ponto
Ao próximo corpo
Ao próximo êxtase
É confuso
Eu sei
E precisa ser simples
Rápido
Prático
Substituível
E foi.
5 de abr. de 2025
Venta muito por aqui
O outono sempre impregna as manhãs com uma espécie de magia ancestral
O vento não apenas sopra
Ele dança
E canta
Uma valsa deslumbrante
Uma canção repleta de renovação
São novos dias
Ele me diz
E parte em seguida
Sem maiores explicações
Mas então o calor no peito
E o coração desejando também cantar e valsar
Ainda há o medo
Isso é certo
Incômodo e severo
Sempre ali
Em um cômodo sujo e escuro
Aguardando a menor falha para me dominar
Só que hoje venta
Venta muito por aqui
E são carregados e espalhados pela atmosfera
Os incessantes sussuros fantasmagóricos
Que roubam a luz
Roubam a melodia
E eu respiro aliviado por uma estação
Lembrando de um verso que dizia
Que Deus protege os inocentes
Pensando que talvez por hoje
Ele também proteja
Os que tiveram a inocência roubada.
14 de mar. de 2025
Livres
A profunda beleza do mundo lembra-me da face de Deus
Quando meus olhos são impuros demais para vê-la diretamente
Há essa mãe que todos os dias passa segurando o filho fortemente para que não caia
Há essa forma como a luz atravessa a copa das árvores pela manhã
Anunciando o fim da escuridão da madrugada e seus pesadelos
E por entre esses
Há o sonho impossível
O olhar
O calor
O toque
O corpo
A alma
As mãos dadas
Há ainda a dor ancestral com suas centenas de significados
Fazendo com que hoje eu sinta
Que foi preciso perder você
Para não me perder depois
E há essa canção
Que é também a voz de Deus
E que nos faz querer dançar
E dançando
Estamos livres.
12 de mar. de 2025
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6 de mar. de 2025
A gente vai vivendo assim...
A gente vai vivendo assim...
Chegando tão perto de um prêmio inatingível
Imaginando como seria se naquele domingo não se tivesse ouvido um adeus
Sonhando com o tempo em que não era preciso saber tanto
Mas em que se sentia muito
E o universo era do tamanho do quintal lá fora
E o futuro todo
Do tamanho de apenas um amanhã
A gente vai vivendo assim...
Crescendo e não tendo mais um adulto para trancar a porta de noite
Para dar remédio para o gato
Para reclamar com o vizinho da sujeira deixada na sua calçada
A gente vai vivendo assim...
Não pensando no que virá para não sofrer
Não pensando no que se foi para não sentir saudade
Tomando cuidado para não se apaixonar pela dor
Quando ela é tudo o que resta de algo amado que se foi
A gente vai vivendo assim...
Meio que sem viver de verdade
Deixando poemas inacabados porque ninguém os lerá mesmo até o fim
Dormindo antes de conseguir sonhar porque logo as horas rugirão
Silenciando aos poucos as palavras porque elas já não alcançam outros corações.
22 de fev. de 2025
Memórias e consequências
Passados tantos, tantos anos
Eu começo a questionar se aquele sentimento
Que era tão grande
Que era quase maior que tudo
Realmente existiu
Já que agora restam apenas lembranças e consequências
Nenhuma prova da existência da imensa luz
Que irá se apagar por completo
Pouco a pouco
Junto da extinção da minha memória
Que lentamente vai me deixando
Apenas com alguns pequenos estilhaços de encanto
Nunca
Ninguém mais atravessou aquela mesma porta
E eu me perdi e precisei me encontrar
De mais formas do que posso contar
E as cicatrizes que só eu vejo
Já quase me impedem de reconhecer meu reflexo
Então eu sangrei ao falar sobre o profano invadindo o sagrado
Então eu orei para anjos de nome desconhecido
E eu tentei, tentei
Até ser julgado por tentar demais
E eu desisti, desisti
Até ser acusado por ter desistido.
11 de fev. de 2025
Meu coração ainda bate
Versos ancestrais pairam displicentes...
'E havia você...
E por haver você é que havia o céu e a claridade das estrelas.
Sorríamos ao firmamento,
Lado a lado,
Como se a realidade fosse o pesadelo
E ali é que estivéssemos acordados.'
Nada foi maior desde então
Maior que aquele céu
Que aquele sonho
Não que nenhuma outra beleza tenha despontado no mundo
Ainda ontem o coração acelerado
As pernas bambas
Doces fragmentos de outras memórias
E a lembrança da pergunta
"Me diga, você conseguiu amar outra vez?"
Sim, eu disse, é claro
Mentindo
Mas também falando a verdade
Porque amei
As palavras que não foram contaminadas
As canções que nunca silenciam
O jardim da alma que sobrevive à estiagem
Que não tem previsão de fim
E essa fagulha de fé
Que quando está prestes a se apagar
Renasce
Talvez não deslumbrante como uma fênix
Mas ainda bela
Feito um colibri
'Meu coração ainda bate...'
Eu deveria ter respondido
Seria o suficiente
Porque para algumas questões
Não existem respostas óbvias
Meu coração ainda bate...
Por isso ontem doeu
Por isso hoje eu choro
Por isso amanhã voltarei a sorrir.
2 de fev. de 2025
Levitar
Ainda que muito pouco
Reles centímetros apenas
Nos sonhos é possível levitar
E os monstros famintos
Emaranhados com a noite escura
Já não nos alcançam
Embora estejamos cansados de lutar
Enquanto na realidade
É domingo
E paira um silêncio quase imaculado
Que por instantes
Cessa os estrondos incessantes da mente
Então chove
E eu me lembro de quando as chuvas acalmaram as batalhas
Lavava o sangue dos campos
Fazia embainhar-se as espadas
Então chove
E as águas levam lentamente
As últimas luzes do dia
E as águas lavam delicadamente
Dores, medos e memórias
Que nunca fazem a bondade de partir.
25 de jan. de 2025
Fio de esperança
Às vezes após as tempestades
O ar se preenche de um perfume peculiar
Igual ao que pairava
Aos arredores daqueles velhos parques de diversões da infância
E por um micro espaço de tempo
Abrem-se as portas e janelas desse quarto sufocante
Em que a realidade nos aprisiona
As palavras então deslizam rua abaixo
Como as águas purificantes
Palavras não observadas
Ignoradas
Mas ainda quase belas
Como as dos leves dias de outrora
Sei que como os relâmpagos distantes
A vida promete estações mais cruéis que esta
E eu me vejo lá sem outra mão
Sem outro sorriso
E dói
Mas hoje há essa atmosfera limpa
Uma canção bonita sobre saudade
Um último fio de esperança
Sustentado pelos sonhos infantis
Que ainda resistem.
Feito teu coração
Talvez as lágrimas dos cantos de teus olhos
Não sejam assim tão tuas
Como os relâmpagos distantes
Sejam sussurros de uma atmosfera alheia
Que apenas roga pelos teus sentidos que ainda resistem
Talvez um dia
Nos reflexos que tanto busca
Veja mais do que medo e passado
Ao invés disso
Olhando através das janelas e alpendres
Veja futuro e esperança
E entenderá que às vezes é preciso deixar ir
Às vezes é preciso desistir de algumas flores
Para que o jardim fique mais bonito
Então veja lá fora
O céu de infinita escuridão
Continua pontilhado de estrelas
Feito teu coração.





























