21 de mar de 2017

Ser livre

Talvez um cético quanto aos misticismos como eu, deva admitir que há algo de revelador e irrefutável em algumas dessas mirabolantes e absurdas teorias orientais sobre a vida.
A nítida impressão que tenho é ter a alma numa ininterrupta e insolucionável guerra santa .
E sabendo que a minha voz, a minha palavra, a minha sombra e a minha luz não alteram coisa alguma, por que insistir? Essa pequena coisa frágil e deformada que talvez se chame orgulho nunca poderia ser forte o bastante para alavancar o desejo ardente que às vezes brota da alma e tenta fazer de mais uma existência fugaz, ordinária, uma vida digna de uma vasta e poética biografia.
Vai saber a fé seja uma coisa tão misteriosa como dizem os santificados, a nos mover as engrenagens mesmo sem darmos combustível puro aos motores.
Se a gente abre a caixa rubra de memórias, vê que nada mais parece ser o mesmo, mas tudo continua exatamente igual. O espírito não aceita mais as velhas e desbotadas fantasias; mas mal se lembra de modificar o que reside abaixo das máscaras.
Das centenas de milhares de palavras gastas, talvez o significado seja este: ser livre. Cores, sabores, amores, tudo clama apenas o mesmo: liberdade. E liberdade é tão grande. É além de ir à rua sem medo, além de amar sem vergonha, além das manhãs de domingo livres, além da carne, além até do que disse a sábia... "Liberdade é não ter medo.". É Além. Só isso que sei; é também fome, saudade, insônia, dúvida. Deus! Se tem uma coisa que é muita coisa, é a liberdade!
A gente então vai bolando formas de fingir ser livre. Seja pelo prazer, pelo orgulho, pelo egoísmo, pelo amor, pela benevolência, ou pela poesia. E a poesia é uma coisa linda! Porque ela sorri e abraça todas as coisas com o mesmo amor. A poesia é uma mãe.
Então fui livre assim, poetizando a dor, o amor, a lonjura e a proximidade. Tudo o que é grande demais cabe dentro da poesia, e ela não reclama, não pede mais espaço, não chora ao ser ignorada.
E ao contrário da carne, da vontade, da esperança, da promessa, a poesia não sucumbe; vai saltando de coração em coração, fazendo morada provisória em cada peito aberto que a convida.



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